Brasil

Esopo, liberdade e esperança

Redação DM

Publicado em 28 de maio de 2016 às 02:36 | Atualizado há 10 anos

Fui aluno do Pedro II, o antigo Colégio-Padrão, no Rio de Janeiro. Boas recordações guardo dos mestres Homero Dornelas (1901-1990), assessor do genial Heitor Villa-Lobos (1887-1959); Honório Silvestre; José Jorge (1921-2006); Newton Gonçalves de Barros (1915-1997); Pompílio da Hora; Sá Roriz; Farina; Choeri (1925-2013); Sebastião Lobo; José Marques Leite; Fernando Segismundo (1915-2014), ex-presidente da Associação Brasileira de Imprensa, a nossa ABI; e outras notabilidades nacionais.

Lá estudávamos as páginas de Esopo (aprox. 620-564 a.C.), Fedro (aprox. 15 a.C.-50 d.C.), La Fontaine (1621-1695)…

Fábulas, todos sabem, são narrativas em que os animais falam, acertam ou se equivocam, possuem sabedoria ou empáfia. Enfim, singularizam os homens com as suas qualidades e defeitos. Esopo, um cativo grego na ilha de Samos, viveu há mais de 2.500 anos e era campeão em contar essas historinhas, que sempre nos convidam a refletir. Uma delas é:

O cão e o lobo

“Vinha um cão por uma estrada. De súbito, deu de frente com um lobo, que lhe disse:

“– Amigo, estás com uma excelente aparência! Forte, lépido, feliz. Sinto até inveja de ti…

“– É mesmo?! Faze então igual a mim. Consegue um dono bondoso. E terás alimento nas horas certas e serás bem-cuidado. Meu único serviço é, se aparecerem assaltantes, latir à noite. Vem, pois, comigo e ele te dará semelhante tratamento.

“O lobo considerou a proposta muito boa e foi acompanhando o cão no caminho de casa. Até que, a um dado instante, um fato despertou a sua curiosidade.

“– Que é isso pendurado em teu pescoço? Estás machucado?

“– Bem… – respondeu-lhe o cão – é por causa da coleira.

“– Quê?! – espantou-se o lobo…

“– De dia, meu senhor me prende com ela. Não quer que eu apavore as pessoas que o visitam.

“Ouvindo isso, o lobo não quis mais conversa e abandonou o cão no meio do trajeto, todavia não sem antes lhe dizer: – Amigo, esquece tudo, porque não te seguirei mais. Acho melhor viver liberto do que na tua aparente abastança”.

 

Moral da história e lição de Jesus

Não há ouro suficiente que valha a liberdade, que, para ser correta, invoca responsabilidade. E, assim, o velho filósofo da Hélade, que era mentalmente livre, embora padecesse a ignomínia da escravidão, legou-nos, entre outros, esse grande preceito. Contam que o senhor de Esopo, espantado com tamanho saber, lhe deu carta de alforria.

O ensinamento de Jesus é superior ao do fabulista. Encontra-se no Evangelho, segundo João, 8:32: “Conhecereis a Verdade [de Deus], e a Verdade [de Deus] vos libertará”. Eis a diferença – a verdade dos homens, em geral, costuma deixá-los malogrados, porque às vezes é apenas razão, que pode variar conforme os mais diversos fatores, incluídos os de longitude e latitude, apesar da globalização infrene. A Verdade de Deus eleva-nos ao esclarecimento maior. É razão embasada na Justiça e firmemente no Amor, por conseguinte distante de fanatismos ou de certas espécies de convicções radicais. A Verdade de Deus, até nas dúvidas mais recônditas, premia os seres humanos, quando justos, pacientes e pertinazes, com a Emancipação Espiritual. Ela jamais os surpreenderá, adiante, com as mais tristes frustrações. Isso ocorreu a célebres pensadores que viram suas certezas abaladas, ou mesmo derruídas, com o estremecimento de ideologias brilhantes, porém pouco eficazes. Entretanto, como esclareceu Lavoisier (1743-1794): “Na Natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma”. Ninguém é culpado, sendo crente ou ateu, por realmente querer o melhor para o povo.

 

(José de Paiva Netto, jornalista, radialista e escritor. [email protected] – www.boavontade.com)

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