Felicidade por escolha
Redação DM
Publicado em 22 de junho de 2017 às 02:57 | Atualizado há 9 anos
Somos todos voláteis. No mínimo, haveria três visões para isso. Primeiro, como seres terrenos passageiros que insistem em cravar pequenas marcas entre o nascimento e a morte. Segundo, como seres espirituais que momentaneamente percorrem inúmeros caminhos infrutíferos numa jornada breve. E por último, como seres de corpo, alma e espírito, numa caminhada de aprendizados mal aproveitados.
Claro que haveria outras conotações mais sensíveis, defendidas por poetas, e mais ácidas e incrédulas, defendidas por agnósticos. Mas todos acabam se esbarrando na futilidade da correria diária, a velha luta pela sobrevivência, a mania de trabalhar em excesso (aqueles menos abastados de berço afortunado), e usufruir tão pouco as essencialidades alegrias da vida.
Cecília Meireles, em sua sã melancolia, dizia que a felicidade é precária e veloz, momentos tristes medidos por tempos inventados, onde as horas passam num tempo despovoado e profundo, que persiste.
É bacana a atitude de se fazer um balanço diário do dia. Mas não haveria necessidade de tanto peso como disse Saint-Exupéry, no sentido de ser duro consigo mesmo, por importar tanto a vida interior, a ponto de julgar os próprios valores e renegar nos outros o que se renega ou corrige em si mesmo. Talvez pela própria imperfeição de todo ser humano e da incapacidade real de julgar seus semelhantes num prisma que não seja os próprios padrões.
Talvez não devemos ser como já disse o poeta Benedetti, que há alegria na tristeza pelo simples fato de podermos senti-la. As negatividades são próprias para a admoestação, e geralmente nos molda aos freios, quebrando nossa expectativa, nosso imediatismo ansioso, e nos move a torcer e insistir sempre diante das agruras.
De fato corremos demais. Muitos são escravos de botões, do relógio. Pouco se deita numa rede, se aprecia uma paisagem natural, ou se aventura num livro. O fato é que muitas alegrias são introspectivas relacionadas com o sentimento. E sentir é uma ação que se faz de fora para dentro. O correr, o fazer e o agir, normalmente são de dentro para fora. Por isso o barulho das festas são comuns na juventude e na imaturidade.
Muitas vezes falamos além da conta, explodindo e oscilando, aumentando todo o barulho do mundo. Quando se sente em introspecção, podemos aprender com o alimento da nossa quietude.
Por isso é tão difícil equilibrar os nossos rompantes. Até mesmo a um monge beneditino a vida é mais célere do que as tardes e dias de entretenimento de uma criança. A sensação que se propicia na idade adulta é a própria correria pela sobrevivência capitalista, o erário do trabalho às vezes temido pelas violências de bandidos, os entraves e gastos psicológicos decorrentes de nossas próprias imperfeições.
No final das contas parece que a felicidade é feita por pequenas escolhas, pela desaceleração dessa correia, de concretizarmos planejamentos, ou de, às vezes, o furarmos. É justamente essa falta de sentimento, compaixão da vida, uma das causas da violência. Tente escolher certo, mesmo nos momentos errados. Até a próxima página!
(Leonardo Teixeira, escritor)