Homenagem aos anônimos
Redação DM
Publicado em 19 de dezembro de 2015 às 22:27 | Atualizado há 11 anosQuando a gente se forma em medicina quase toda solenidade e convite traz uma homenagem ao “Cadáver Desconhecido”. Sempre achei estranho homenagear pessoas que já morreram, muitas delas sem nenhum mérito ou interesse pedagógico, ao passo que aos verdadeiros heróis, os professores, sempre sobra só o ignóbil anonimato.
Anteontem formou-se meu filho caçula, em medicina. O mais velho já havia se formado , também no mesmo curso, há três anos atrás. Este já “nasceu pronto”, tanto para os pais quanto para os professores, nunca teve e nunca deu dificuldades pedagógicas, onde estudou sempre foi aluno exemplar, ótimas notas, ótimo comportamento. Já o filho caçula tinha alguns problemas de aprendizado, dislexia, disfasia, déficit atencional, fobia social, ansiedade antecipatória. Um colégio pré-vestibular famoso em Goiânia meio que o “rejeitou”. Apesar de mensalidade paga a quase peso de ouro, me chamaram quase no fim-do-ano e me disseram que ele estava com notas e com rendimento irrecuperável, que não era aluno para aquele colégio. Não tinham nenhum programa e nenhum interesse em sua recuperação, segundo eles havia muitos que “queriam estudar” e meu filho não queria… Minha esposa queria que eu me conformasse com isto, mas conversei com muitos professores e me disseram que não era bem assim, que eu deveria lutar, sim, pela pedagogia adequada dele. Em outubro de 2007, então, saí meio que “mendigando” apoio pedagógico para ver se era possível recuperar a trajetória de meu filho, querendo saber se ele “tinha conserto”. Bati na porta de oito escolas de ensino médio, todas me “desenganaram”, disseram que o garoto “não tinha muito futuro” pedagógico, notas ruins demais, desempenho pífio demais. No entanto, neste momento difícil, fui muito apoiado pela Professora Lurdinha do Colégio Simetria ( diretora ), no Bairro Feliz, assim como, no decorrer de todo Ensino Médio, pelos brilhantes e paternais Professor Arnaldo Zoccoli ( matemática/ coordenador pedagógico ) , hoje no Colégio Ideal em Aparecida e Colégio Objetivo Goiânia, Professora Patrícia Spíndola ( Português/Redação ), Professor Rafael Caixeta ( Química ). Todos professores com “P” maiúsculo. Esses todos acreditaram no meu “filho desenganado”. Este último, já desanimado com escolas rejeitantes e com seu desempenho pedagógico, um dia me disse : “pai, acho que quero ser caminhoneiro”. Mas estes professores, num diagnóstico que eu pedi para ser sincero e isento, me falaram : “não, Marcelo, este menino seu tem muita lenha pra queimar” ( palavras que não esqueço , proferidas pelo Professor Arnaldo ). Então eu acreditei neles e no trabalho deles. Não desanimamos, não entregamos os pontos ! Quase não acreditei quando vi o nome do meu filho entre os 47 aprovados na PUC ( foram 40 aprovados em primeira chamada; ele depois foi chamado em segunda chamada ). Num vestibular imediatamente no semestre anterior , na mesma faculdade, ainda cursando o ensino médio, ele havia ficado em 800, o que havia ajudado ainda mais a derrubar minhas esperanças, durante algum tempo. Mas seus professores do ensino médio, aí inclusos todos do Colégio Flamboyant, onde também estudou, foram incansáveis e nunca desanimaram. Acreditei neles e eles acreditaram no aluno. O sucesso da aprovação em vestibular difícil ( quase 90 candidatos por vaga na época ) foi inteiramente deles. Eles é que estruturaram , cientificamente, afetivamente, pedagogicamente, toda a estratégia de aprovação. Depois , na Faculdade, Medicina PUC-GO, meu filho ainda teve o enorme apoio pedagógico, afetivo, paternal mesmo, de toda aquela equipe, que não posso nomear toda, mas enumero como insignes representantes os Professores Paulo Francescantônio ( diretor ) , Manoel Reis ( patologia ), Rosane Ribeiro ( ginecologia ) , João Alves ( infectologia ) , Sebastião Pinto ( coordenador ), Fernando Amorim ( morfofuncional ), Luciana Pineli, Cáritas Franco, Isabel Francescantônio e tantíssimos outros que não posso enumerar aqui ( enumerei só aqueles com os quais tive contato mais pessoal ). Eu estava acostumado com uma certa frieza e “deixa-prá-lá” – com honrosas exceções – de universidade pública ( onde me formei e também meu filho mais velho ) e na Faculdade de Medicina da PUC encontrei verdadeiros amigos, até mais que isso, encontrei uma “família”, que me compreendia e a meu filho com todo desvelo e dedicação paternais e maternais. Família , inclusive, com muitos “irmãos”, entre eles os inesquecíveis colegas Pedro Ernesto, Karla Santos, Mariana Almeida, que foram mais que irmãos na trajetória pedagógica do meu filho, auxiliando-o e apoiando-o sempre. Nunca vim a público demonstrar isto, antes da formatura de meu filho, para não dizerem, alguns, que eu poderia estar “puxando saco” com algum interesse. Agora que ele está formado, pelo mérito próprio ( esforçou-se demais para superar as próprias dificuldades ) e de todos estes abnegadíssimos professores, posso agradecê-los e homenageá-los com toda isenção. Num país onde só quem tem valor e páginas de jornal é político corrupto, jogadores de futebol, autoridades engravatadas e mulheres de bunda de fora, nada me dá mais prazer do que homenagear os humildes e anônimos Professores.
(Marcelo Caixeta, médico psiquiatra)