Império do fisiologismo
Redação DM
Publicado em 13 de maio de 2016 às 02:19 | Atualizado há 10 anos
Eduardo Cunha é um dos nomes mais representativos da inversão de valores que tomou conta da política brasileira de alguns anos para cá. De consequência, não tem tamanho a estranheza de todas as pessoas bem informadas ante o papel que lhe foi confiado pela grande maioria da Câmara Federal. Mesmo tendo o país inteiro conhecimento dos ilícitos dele – objeto até de comunicação oficial de superiores autoridades da Suíça – essa grande maioria o colocou no comando da Casa para conduzir o mais rumoroso dos processos a ela submetidos em toda a sua história. A comissão do impeachment foi inteiramente constituída por Eduardo Cunha, todos, obviamente, da sua absoluta confiança, inclusive e principalmente o relator.
Em sua edição desta semana a revista Carta Capital, na sua matéria de capa, textualiza:
“Imolaram o homem bomba.”
“Sem utilidade no jogo do golpe desde a aprovação do impeachment na Câmara, Eduardo Cunha é retirado de cena.”
É realmente curioso que a imolação tenha ocorrido quando o peemedebista carioca não mais tinha utilidade para os articuladores da apropriação do governo da República.
Acima de tal curiosidade, porém, está a projeção em corpo inteiro que está a acontecer do quadro político sob os ângulos da ética e da moralidade. A própria substituição de Eduardo Cunha acabou por ser mais um fato desse quadro desolador. O substituto Waldir Maranhão deu um show de burrice e, com as revelações havidas a seu respeito – nelas se incluindo naturalmente o caso do seu filho imoral e absurdamente nomeado para o Tribunal de Contas maranhense – outras nuances apareceram da corrupção que assola o País.
A outra sucessão – a da presidente Dilma – também já está a ocupar espaços negativos no noticiário. Registrou anteontem a Folha de São Paulo que “o MST invadiu uma fazenda em Duartina (SP) ligada ao vice-presidente, Michel Temer (PMDB). O grupo acusa o dono do imóvel, João Batista Lima Filho, de atuar como laranja do peemedebista no local”.
O mesmo jornal, com o título Isto é Temer, noticia que o vice avalizou compra suspeita no governo Fleury nos anos 1990. Texto da matéria: “Atual vice chancelou polêmica importação de equipamentos de 91. Como procurador geral do Estado de São Paulo, Temer deu aval a compra de material israelense com suspeitas de superfaturamento. Procurador-geral do Estado de São Paulo no governo de Luiz Antônio Fleury Filho, o vice-presidente Michel Temer teve sua passagem pelo cargo marcada por uma polêmica: a importação de equipamentos eletrônicos israelenses, com acusação de superfaturamento.”
Do que não se tem dúvida é de que o governo a ser formado por PMDB, PSDB, DEM, PTB e outros partidos, ou seja, o governo Temer terá de enfrentar as terríveis dificuldades que os interesses fisiológicos impõem. Vive-se hoje o império do fisiologismo. Segundo já noticiou a imprensa há na Câmara dos Deputados quase 300 parlamentares envolvidos em processos criminais, sendo que 80 deles já condenados. Fora do âmbito parlamentar, sobretudo os partidos formados única e exclusivamente com a finalidade de usufruir o poder, o impulso e a inspiração também não se vinculam ao interesse coletivo e ao aperfeiçoamento democrático.
(Eurico Barbosa, escritor, membro da AGL e da Associação Nacional de Escritores, advogado, jornalista e escreve neste jornal às quartas & sextas-feiras – E-mail: [email protected])