Ingratidão e ingenuidade
Redação DM
Publicado em 13 de novembro de 2015 às 22:29 | Atualizado há 11 anosNa última semana vi em edições do DM noticiário bastante destacado em que apareceram os prefeitos de Catalão e Jataí em fotos que ocuparam quase meia página a demonstrar grande euforia por atos do governo federal por meio dos quais foram criadas universidades para as duas importantes municipalidades. A fim de dar confirmação oficial dessas grandes realizações esteve em Catalão e Jataí a presidente Dilma Rousseff. Evidentemente justificava-se a euforia. Uma Universidade Federal representa, sobretudo para a população de dois municípios há vários anos em enorme expansão, como são os casos catalano e jataíense, instrumentos de singular magnitude, sobretudo para as gerações mais jovens que aspiram à formação universitária representativa de habilitação profissional em várias áreas técnicas.
No dia seguinte à divulgação da matéria, quem apareceu em notícia longa e também em grande destaque foi o governador do Estado: também procurava tirar proveito daquelas realizações, o que é natural em se tratando de político permanentemente voltado, desde a década de 1990, à conquista dos mais importantes mandatos eletivos em uma unidade federativa – deputado estadual, deputado federal, senador e governador do Estado. Para a chefia do Executivo Estadual já alcançou nada menos do que quatro mandatos. Evidentemente tal trajetória faz prova de grande vocação política, para a qual é imprescindível não perder oportunidades de autopromoção, muitas vezes velada e sutil, como é o caso das duas universidades federais.
O que não se viu em todos esses noticiários foi a proclamação dos méritos do governo federal. Ninguém manifestou o reconhecimento de que se trata de duas obras que devem ser creditadas à presidente da República e ao ministro da Educação.
O fato de não se proclamar perante a opinião pública que as universidades de Jataí e Catalão são benefícios – e indiscutivelmente extraordinários benefícios – proporcionados a Goiás pelo governo da União, faz lembrar o que aconteceu em 2014. Em pleno ano eleitoral as duas instituições oficiais de crédito mais importantes do país – o Banco do Brasil e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) – socorreram o Estado de Goiás como mais de 10 bilhões de reais por meio de empréstimos a longo prazo. A aplicação desse dinheiro em pleno período de campanha eleitoral se traduziu nas obras de duplicação de rodovias asfaltadas bem à vista do povo – a que liga Goiânia a Bela Vista, de consequência ao Sudeste e ao Sul do Estado; o início da pavimentação de outras estradas importantes; a construção, se não me engano, do Hugo II, que veio a ganhar o nome do ex-governador Otávio Lage; a aplicação de cerca de 100 milhões de reais na manutenção e melhoria da ligação asfáltica Morrinhos – Caldas Novas e outras realizações importantes para a infraestrutura goiana. É óbvio que esse cenário foi fundamental para a reeleição do governador.
Mas o povo goiano não leu nem ouviu declaração alguma de qualquer dos políticos dos partidos da base aliada da administração estadual agradecendo tão decisivo apoio do governo federal. Houve apenas aquele gesto do governador Marconi Perillo de prestigiar a presença da presidente Dilma Rousseff em Goiânia, alguns dias após as eleições de 2014. O próprio PT jamais fez qualquer pronunciamento a respeito.
Esses fatos indiscutivelmente retratam no mínimo ingratidão, de um lado. E de outro imensa ingenuidade dos dirigentes do BNDES e do Banco do Brasil, já que se tratava de ano eleitoral.
(Eurico Barbosa é escritor, membro da AGL e da Associação Nacional de Escritores, advogado, jornalista e escreve neste jornal às quartas & sextas-feiras)