Lembranças dos tempos de escola – Parte XXIII
Redação DM
Publicado em 10 de novembro de 2015 às 01:19 | Atualizado há 11 anosNaquela fazenda fomos muitos bem recepcionados pelo capataz, sua esposa e filhos, desde o início. Após saborearmos um rústico e delicioso café da manhã, à base de requeijão, queijo, pãozinho assado num fogão caipira, pamonha, bolo de fubá, leite e café, começamos a jogar futebol, vôlei, cartas, dominós e outros jogos, pena que a bola que eu havia levado furou, após um forte chute de Vando em direção a uma árvore espinhosa. Antes das dez horas da manhã, começara a chover novamente, as nuvens agora derretiam como picolé ao sol e a chuva parecia não mais cessar… O céu estava disposto a desabar sobre as nossas cabeças. Mas nada nos impediam de inventar brincadeiras, assar carnes bovina e suína, numa fogueira acesa embaixo das árvores, no quintal da sede da fazenda. Um de nossos colegas se dispôs a tomar uma bola emprestada do filho do zelador e, com o terreiro estampado de água das enxurradas, chutávamos aquela bola sem parar. Ao passo que brincávamos nossas roupas encharcadas de água e pesadas de lama, grudavam em nossos corpos como parasitas nutrem do hospedeiro e nos deixávamos parecendo estátuas, irreconhecíveis.
Vi Maick, meu convidado e, por um momento não o reconheci, estava imóvel, cheguei a confundi-lo com um cupinzeiro, juro, pois até mesmo seus cabelos estavam cobertos de barro vermelho, feito ninho de cupim sobre o solo. Gelei de medo de suas roupas não mais ficarem limpas e sua mãe brigar comigo, uma vez que naquele passeio, eu era a principal personalidade responsável pelo moleque e pelos seus atos. Ironia. Logo, fiquei despreocupado, já que Paty me informou que o barro daquela região não encardia nenhuma espécie de tecido.
Aproximando a hora do almoço, a chuva cessou, paramos com as brincadeiras e fomos cuidar de nossa higiene pessoal. Jota e Zezé não estavam muito sujos, uma vez que mesmo tendo brincado, gastaram mais o tempo, até aquele momento, próximo do fogaréu assando e saboreando variados tipos de carnes, mesmo em plenos chuviscos. Ainda assim, eles nos acompanharam ao tanque para banharmos. Ali no tanque, ficamos durante muito tempo, alguns nadando, outros tentando pescar coisa alguma e outros ainda sujando a água no leito do tanque. De repente, Edu, Paty, Eleno, Gil, Jota, Zezé, Mari e outros mais saíram às pressas para fora do tanque, correndo, gritando e se coçando… Por um momento, Maick e eu chegamos a pensar que eles estivessem sendo atacados por animais aquáticos como jacarés, piranhas etc. logo, percebemos que ali não havia jacaré nenhum, tampouco piranhas! Minto. Piranhas talvez sim (pois nossas colegas, umas viviam chamando as outras por esse nome), e, notamos que aqueles fanfarrões estavam sendo atacados por sanguessugas! Bem feito!
Passada aquela aflição, nossos estômagos gritavam escandalosos e já sentíamos o cheiro aromático da comida que parecia exalar das panelas e se espalhar por toda a fazenda, nos deixando impacientes para nos livrar logo da fome provocada pela queima de energia durante as brincadeiras. Assim sendo, voltamos para a sede, pois chegara à hora do almoço. Mesmo assim, antes de entrar em casa, sentir algo estranho, parecendo faltar algo em mim. Quando olhei para o lado que notei minha camiseta secando ao sol preguiçoso, nos galhos duma mamoneira, recordei de que, ao sair para tomar banho com os outros, Lucíola que contribuía com as tarefas domésticas, se oferecera para lavá-la com sabão e eu a entreguei. Quando fui em direção à camiseta para apanhá-la e vestir-me, a gatinha saiu de detrás, alcançou-a primeiro que eu e, voluntariamente a entregou em minhas mãos. Em seguida, me acompanhando até a copa da casa onde estava sendo servida uma deliciosa comida, preparada em fogão caipira, Lucíola me ajudou a fazer o meu prato e em seguida fez o dela. Nisso, Maick não perdeu tempo e atrás de mim, repetia o ritual que ia sendo copiado por todos aqueles que vinham em seguida. De posse dos pratos feitos, tivemos tempo para fazer uma oração em agradecimento ao Senhor. Enquanto almoçávamos arriscávamos algumas piadas, mas não tivemos tanto tempo e, ainda que tivéssemos, não precisava, pois além de o clima ser muito descontraente, bastava olhar para Vando que ele já era uma anedota em pessoa. Daí duas maneiras de tirar uma gargalhada duma pessoa: uma é lhe contando uma piada engraçada e a outra é lhe apresentando o Vando. O cara era extremamente cômico, anedótico!
(Gilson Vasco, escritor)