Brasil

Lembranças dos tempos de escola – parte XXVII

Redação DM

Publicado em 1 de dezembro de 2015 às 22:41 | Atualizado há 11 anos

Durante as férias, eu trabalhava numa loja, como auxiliar, estava assumindo o cargo de meu irmão Finim, que fora embora. Um dia enquanto trabalhava, tive certeza que Lucíola ia embora, com a sua família, para outra cidade, muito longe. Antes ela já falava que embora não quisesse teria de se mudar para outro município e quando chegou o dia da partida, telefonei do local de trabalho para a sua residência. Sua mãe atendera, mas a emoção foi mais forte que a necessidade de falar, criou um nó em minha garganta, as palavras não saíram, tentei engolir o nó, mas não tive êxito, pois ele continuava grudado na minha garganta feito sanguessuga na pele dos humanos até que se derreteu, virou lágrimas e estas rolaram dos meus olhos para banhar todo o meu rosto e, quase sem querer, desliguei o telefone.

Ela se foi, minha grande e eterna amiga se fora e ficaram só as lembranças dos momentos que compartilhamos, tostando a minha cabeça e ardendo no meu ego.

Ao sair do trabalho fui à estrada numa tentativa frustrada de pelo menos ver o caminhão de mudança que já havia passado há muito.

Depois de alguns dias, resolvi abandonar o emprego e partir para outra cidade, próxima a minha, com o meu irmão. Soube que Cal, Ámer e Thaty também iam, para a mesma.

Iniciado o nono ano escolar, ali naquela nova cidade, nova escola, novos mestres, novos colegas e novas disciplinas, era como se eu estivesse em outro planeta. Sorte que Cal, Thaty e Ámer se matricularam na mesma escola e, Ámer, talvez por coincidência, ficou na mesma sala que eu estudava.

Eu queria ficar ali, aprender novas coisas, conhecer novas pessoas, fazer novas amizades e encontrar um trabalho, prova disso é que me matriculei no período noturno, a fim de trabalhar durante o dia, claro que eu ainda era muito novo para pegar qualquer tipo de trabalho, porém meus conceitos, pensamentos e atitudes ultrapassavam a minha idade.

Demorei mais de um mês para voltar à minha terra natal, para visitar meus pais, parentes e amigos, mas esse tempo foi o suficiente para perceber que algo havia mudado, não muito, mas mudou. Ido à primeira vez, o tabu se fragmentou, foi quebrado, voltar à minha cidade virou um hábito.

De início passei a ir quinzenalmente, depois semanalmente e, finalmente passei a faltar às aulas, nos últimos dias da semana para ir à cidade. Cal, Thaty e Ámer também iam muito. Nessas nossas estadas à cidade, era o nosso momento de minimizar a saudade. Íamos para as festas, dançávamos, curtíamos, namorávamos e visitávamos antigos colegas de aula e amigos. Edu, Roney, Érick e Maick pareciam ter deixado de ser meus amigos ou eu os deixados de escanteios, pois se por um lado eles não me procuravam, por outro eu não os viam. Mas não era isso, o fato é que como eu já vinha da outra cidade acompanhado por Cal, Ámer e Thaty, era ruim quando chegar à cidade eu me separar deles. Também tinha a questão de nos fins de semanas eles ir às fazendas, mas eles sabiam que eu os considerava, eu estava na memória deles e eles em minhas lembranças.

Mesmo morando e estudando em outra cidade eu sempre recebia notícias deles. Soube até que Edu, que até então era muito tímido na sala de aula, se soltara e perdera a timidez. Maick ajudava seus pais com as tarefas num bar, localizado na principal praça no centro urbano. Numa das minhas idas à cidade eu o visitei. Roney também auxiliava o seu irmão no comércio. E Érick sempre estava com o pai.

Depois de alguns meses, ainda sem encontrar um emprego, tive que regressar à minha cidade, definidamente, devido ao fato de o meu irmão ter adoecido, viajado para outra cidade em busca de tratamento e eu não podia ficar sozinho lá. Nessa época, minha ex-professora Zeni, passara a ocupar o posto de diretora e, conseguir a minha vaga de volta na escola foi fácil.

 

(Gilson Vasco, escritor)

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