Língua Portuguesa: a mais linda e difícil forma de comunicação do mundo
Redação DM
Publicado em 29 de outubro de 2015 às 22:12 | Atualizado há 11 anosA língua portuguesa, com cerca de 10 mil verbos e uma coleção de sinônimos, parônimos, antônimos, palavras variantes é uma das lindas e difíceis da comunicação ocidental e mesmo mundial. O inventário inclui 300 mil palavras. Escrever com exatidão e emoção, policiar verbos, advérbios, adjetivos e retratar uma realidade é a sina de quem se debruça sobre o idioma de Machado de Assis e Luiz de Camões. A língua portuguesa tem diversas origens e funções, sendo formada pelo português de sete países. No Brasil há cerca de 200 línguas faladas, das quais são 180 de origens indígenas e 20 com as origens europeias. Será que um dia ainda haverá um brasilerês, uma língua estritamente do Brasil?
A Língua Portuguesa e a abundância dos estrangeirismos
Nos diversos casos da comunicação há uma avalanche de palavras incorporadas ao nosso cotidiano. Quem domina a economia também tem sua linguagem exportada, daí brota toda sorte de palavras estrangeiras. O espetáculo virou show, apagar foi substituído por deletar, fazer um autorretrato virou sinônimo de fazer uma selfie. Os brasileiros se sentem felizes e potentes por usar um termo em inglês, como se cada habitante ficasse mais rico por usar um termo inglês da pátria dos Estados Unidos ou Inglaterra. Como se diz na linguagem popular “o brasileiro” é baratinho até no seu idioma. O coerente seria haver um termo em português para cada expressão importada, mas ocorre o contrário. Será que não poderemos ser donos nem de nossa própria expressão, linguagem e jeito de falar? A linguagem de Shakespeare deve ser mais famosa que a de Paulo Coelho, Monteiro Lobato, Bariânio Ortêncio, Cora Coralina e Machado de Assis? Incorporação sim; dominação, não.
Nos comerciais, músicas, relacionamentos, relações internacionais há um domínio da língua estrangeira. Um dia o escritor Ivan Junqueira comentou numa palestra em Goiânia que nenhum escritor brasileiro ganha o Prêmio Nobel de Literatura porque quase ninguém gosta de ler em português. Escrever, ler, racionar, ter os termos afins para ligar verdades e emoções são expedientes usados na comunicação diária. Saber ser poliglota na própria língua é ser rei de sua linguagem e expressão. Nossa estranha mania de expressar tudo em inglês está presente na TV com Luciana by night e outros programas de variedades. Nós fazemos divulgação gratuita para os americanos e nem nos damos conta de que estamos sendo usados, menosprezados, adulterados na nossa essência. Com o Acordo Internacional sobre a Língua Portuguesa parece que surgiram mais confusões de que acertos em relação aos países que dominam este código linguístico. A Língua Portuguesa não pode ser apenas um meio medíocre de expressar sentimentos e razão, embora o povo brasileiro goste mais de curtir o Rock Rio porque a maioria das músicas é americanas, inglesas, de outros países. É coerente afirmar que quem aprende uma segunda língua (quase sempre o inglês) tem mais chances de sucesso numa profissão, mas todo exagero deve ser coibido. A língua portuguesa ou brasileira merece prestigio e estudos, como sempre afirma a professora de linguística Ana Cláudia Garcia de Carvalho, educadora em Rio Verde. Conhecer os códigos, variações, regras gramaticais é exemplar para fazer parte da elite intelectual, não se deixando levar por modismos fora do cone sul. Será que em outros países são usadas expressões brasileiras? Até onde vai a nossa autoestima linguística? Pensar em português e expressar em inglês é a sina do povo brasileiro, mesmo com diversos neologismos tupiniquins. Será que a frase “eu te amo” só fica emocionante e bela em inglês? Ser dono de sua língua é ser portador de sua cultura. Quem exporta sua cultura também deve exportar a linguagem presente nas músicas de Marcelo Barra, Nilton Lamas, Roni Cardoso, Roberto Carlos, Chico Buarque, Tom Jobim, Ivete Sangalo, Chitãozinho e Xororó, Djavan, Zezé Di Camargo e Luciano e outros representantes da última flor do Lácio. Um dia, quando nossa economia estiver mais potente, aí sim poderemos falar em português ou mesmo em brasilerês. Fazer comercial de graça para o resto do mundo é chocante. Brasil, mostre a sua cara e língua, a expressão mais linda de um povo honesto, trabalhador, dinâmico, criativo e original. Ser poliglota em português pode ser uma revolução dos costumes. Para você, leitor do Diário da Manhã, fica meu recado final em português: seja dono de sua língua e hóspede autêntico de seu destino. Alguém sabe falar brasilerês ou é tudo culpa de nossa atual economia? Assim um dia Paulo Coelho ainda poderá ganhar um Prêmio Nobel de Literatura. Assim seja, falando a nossa língua. Povo educado é povo liberto.
(José Carlos Vieira, escritor, jornalista do Jornal Folha da Cidade, Rio Verde, E-mail [email protected])