Brasil

Loucos pela política, desinteressados pelos problemas

Redação DM

Publicado em 3 de junho de 2016 às 02:20 | Atualizado há 10 anos

“Sou louco pelo poder, seduzido pelo poder… É para isso que eu vivo.” A declaração não foi de Temer, não foi do Renan,   não foi da Dilma ou  do Lula. Foi de Ulysses Guimarães, o dom Sebastião do PMDB, numa entrevista à jornalista Sylvia Popovich.  Com a orgásmica  reflexão, Ulysses revelava a vocação de um grupo de pessoas que circulam pelo poder do Estado,  pouco sensíveis aos problemas da corrupção, às dificuldades na Previdência,  despreocupada com os  índices da inflação, com o salário mínimo, com o emprego e o desemprego. Uma patologia,  supostamente benigna, mas, no fundo, marcada pela indiferença à angústia da população. Incorporaria facilmente  o raciocínio daquele ditador, segundo o qual “ A morte de uma pessoa é dramática, a de milhões é apenas uma estatística.”

De Ulysses para cá, mesmo diante de  sucessivas crises, parece que nada mudou. Os políticos vieram  distraiam-se em tramas, enquanto a população se desorientava. Nem Temer, nem Meirelles, nem Aécio, nem a esperta Marina falou ainda ao coração dos cidadãos. E os que falaram mentiram. As diretrizes dadas não são suficientes para dar maior tranquilidade.  Mesmo porque  é difícil para o homem comum compreender  porque Temer é acusado de  “ não ter legitimidade”, Dilma de ser impedida de governar, Jucá de ter  atentado contra a Lava Jato, oito ministros com processo na justiça governarem o País. Como digerir o fato de Gilmar Mendes ter devolvido ao Ministério Público a investigação sobre Aécio? Sergio Machado e outros continuarem a acusar os correligionários? Metade do PMDB  não fechar com o Governo? Confunde também partidos como o PSol, Partido Verde e o Solidariedade  não enxergarem a corrupção que o Tribunal de Contas denunciou, nem conseguirem explicar o déficit orçamentário, anunciado inicialmente em R$ 24 bilhões, e que foi oficializado em R$ 170 bilhões. São situações e valores tão extraordinários que não dá, sequer  para imaginar a sua materialidade monetária.

O cotidiano da vida política parece algo tão confuso que o cidadão termina por sentir-se desamparado  e, ao mesmo tempo, inibido.  De tal forma  que  o indivíduo  evita emitir opiniões políticas  para se preservar, diante do imponderável. “A vida voa na sua cara, esbarra no seu rosto, suja sua vaidade, corrompe suas certezas, e você não pode fazer nada, a não ser lavar o rosto e começar tudo de novo” (Tati Bernardi). O homem comum desconhece  como funciona a política.

Apesar do “contrato social” – relação de interdependência e confiança entre a sociedade e o governante, o político –  as expectativas dos cidadãos estão colocadas no que se chama de políticas públicas , que não é a mesma política a que se referiu Ulysses. Há uma clara distinção entre a política como a disputa e conquista do poder do Estado  e a política como  espaço de gestão dos problemas da sociedade por meio das políticas públicas. São dois institutos  ligados entre si, porém distintos.

A política tem como motivação imensos privilégios que transformam cidadãos comuns em autoridades,  membros do Legislativo, do Executivo ou do Judiciário (os Três Poderes). Pelas prerrogativas dos cargos, esses indivíduos passam a desfrutar do  poder de coerção  sobre a sociedade, de manuseio do dinheiro, do patrimônio e dos cargos públicos,  da gestão das forças armadas  e da soberania nacional ante outros estados. Daí a insistência em tomar ou permanecer no Poder.  Para ampliar a base de apoio, o político seduz  colegas  e até inimigos, a maioria das vezes, com dinheiro público.

Então tem-se, de um lado, a política, essa figura tresloucada e orgásmica, e lá dentro, na pluralidade segmentada do Executivo, as políticas públicas. São estas que dão  materialidade às ideologias partidárias e aos sonhos exclusivos de alguns indivíduos de se apoderar da política  agrícola, de educação, de saúde, de economia, de transportes e outras. São áreas cujas gestões exigem conhecimentos especializados. Contudo, por serem de fácil fluxo de recursos, atraem  os políticos para a disputa ávida de cargos de  ministros, presidentes, diretores, assessores. As funções de gestão da máquina do Estado terminam por premiar pessoas de qualificação duvidosa ou que não tiveram o respaldo das urnas.

Seria ideal que as políticas públicas estivessem desvinculadas da política enquanto espaço de luta pelo poder. O nosso presidencialismo é um suicídio: um dia você tem um presidente socialista, um progressista; no outro, um conservador, um liberal. Uma descontinuidade assistemática que vulgariza o empoderamento de sujeitos e cúmplices , confundindo a população, desviando os rumos das políticas públicas e dos próprios políticos, com reflexos negativos sobre a estrutura da sociedade e para a imagem do País. Assim, não sobra espaço para pensar numa alternativa parlamentarista.

 

(Aylê-Salassié F. Quintão, jornalista, professor, doutor em História Cultural)


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