Mulher corta barriga de grávida para roubar o bebê
Redação DM
Publicado em 29 de junho de 2017 às 22:59 | Atualizado há 9 anos
O crime ocorreu esta semana, em Nerópolis-GO, sendo que tanto a grávida quanto o bebê morreram após o tal procedimento “cirúrgico”. A criminosa relatou que tinha perdido uma gestação há 2 meses e “queria um bebê”. O bebê foi encontrado morto, enrolado em lençóis , sobre a cama da assassina. A mãe foi enterrada no quintal, numa cova paga a um servente, sob a alegação de que “era para plantar cebola”. O trabalhador, desconfiando, denunciou a mulher.
Estudos psiquiátricos mostram uma alta incidência de depressão em mães que perderam uma gestação, abortamento, tanto voluntário quanto espontâneo. Os estudos mostram que quando essas mães que tiveram a gestação interrompida se deprimem, futuras gestações também estão sob maior risco psiquiátrico, sobretudo para transtornos ansiosos, depressivos, mas também psicóticos.
São bem conhecidos os casos de infanticídio, mariticídio, que é quando a puérpera (mulher que deu à luz recentemente) mata o filho ou o marido, em acessos de loucura depressiva ou confusa, quadro chamado na literatura médica de “psicose puerperal” .
Alterações hormonais (p.ex., queda abrupta de estrogênios/progestágenos/oxitocina) podem produzir psicoses, depressões, obsessões, fobias, ansiedades, na mulher puérpera, sobretudo naquelas que já tinham uma predisposição genética para transtornos afetivos ou outras doenças psiquiátricas.
Muitas vezes tais transtornos assumem a forma de uma “psicose sem delírio/alucinação”, coisa que pode confundir o leigo, como nesse caso de Nerópolis (“ela não é doente mental, planejou, escondeu, dissimulou, portanto é uma criminosa pura, pura maldade”). Em tais casos ocorrem alterações neuroquímicas cerebrais, p.ex., aumento de dopamina, diminuição de opióides e do firing do tipo sigma, que levam à um tipo de depressão obsessiva, ou seja, uma espécie de “idéia fixa”, um comportamento onde a pessoa só pensa naquilo e pensa que “sem aquilo jamais será feliz”.
Porém nem todas pessoas com esse tipo de pensamento doentio cometem esse tipo de crime. Isso acontece porque têm uma formação familiar/religiosa/moral adequada ou então porque têm um lobo frontal (região cerebral) que funciona bem – é a região que controla o comportamento moral. Muitas mães que têm tendência para transtornos afetivos (aquelas sob maior risco para psicoses puerperais) também têm alterações nesta região cerebral e estas alterações diminuem os sentimentos morais. Acresce-se a isso o fato de que, em algumas formas depressivas, há um tipo de aplainamento afetivo, um tipo de “sentimento de falta de sentimento”, a pessoa torna-se “fria”, ou apenas concernida com os próprios pensamentos negros e obsessivos. Essas alterações não tornam a pessoa completamente “louca”, completamente psicótica, ou seja, elas sabem o ilícito do ato criminoso que estão perpetrando, tentam planejá-lo ou escondê-lo.
A “frieza” da depressão, e/ou a “frieza” da alteração frontal, tornam este “conhecimento cognitivo do crime” algo inócuo, pois não adianta “saber que um ato é um crime, é preciso “sentir” que este ato é um crime”. “Sentir o ato como um crime” significa : ter medo das conseqüências, ter medo de matar alguém, ter medo de cortar, de ver ou sentir o sangue, ter nojo/repulsa por vísceras, ter medo de matar o bebê, ter dó da gestante e do bebê, ter medo de ir presa, vergonha da própria família, dó de ver os pais sofrendo por terem uma filha criminosa, vergonha de ser reconhecida por todas num crime hediondo como esse. Ou seja, são vários sentimentos que estão em jogo num caso como esse, sentimentos estes que foram “esfriados” por uma disfunção frontal (que leva a estados psiquiátricos amorais), ou por uma depressão, ou ainda por ausência de uma adequada formação familiar/religiosa/moral. Tudo isso pode estar junto, configurando-se assim a tal “tempestade perfeita”.
Neste caso de Nerópolis nota-se o aspecto psiquiátrico do fato por vários modos: motivação patológica (“eu quero um filho a qualquer custo”), falta de juízo crítico (achar que , sendo completamente leiga, conseguiria fazer uma cesariana e dar cuidados neonatais adequados ao bebê), impulsividade (sedar e matar a mãe asfixiada), nexo temporal com a perda da gestação.
(Marcelo Caixeta, médico psiquiatra ( hospitalasmi[email protected] ). Escreve às terças, quintas, sextas, domingos, no Diário da Manhã, Goiânia. Acesso gratuito em WWW.impresso.dm.com.br)