Nhanhá do Couto: música e vida por Goiás
Redação DM
Publicado em 24 de setembro de 2016 às 02:45 | Atualizado há 10 anosSempre me impressionou fortemente o caráter universal da música como meio de comunicação da humanidade. O filósofo, ensaísta e poeta libanês Khalil Gibran certa vez afirmou que “a música é a linguagem dos espíritos” e o fato é que, com notas e acordes, os corações se entendem e se aproximam.
A história da arte e da música em Goiás, o desenvolvimento dessa linguagem que aproxima e enriquece a alma das pessoas, não pode ser devidamente contada sem referência destacada ao pioneirismo de Maria Angélica da Costa Brandão, carinhosamente chamada de Nhanhá do Couto (1880-1945). Natural de Minas Gerais, nascida em Ouro Preto, aos 13 anos ela já era uma virtuose do piano, que se apresentava no Rio de Janeiro executando peças de Mozart e de Beethoven. Nhanhá, no entanto, foi muito além: pianista, cantora lírica e professora, usou seu enorme talento para incentivar a música erudita em Goiás.
Conta a história que o piano chegara pela primeira vez ao Brasil em 1808, ano da vinda da família real portuguesa e da abertura dos portos. No Estado de Goiás, o primeiro piano teria chegado em 1835. Pelas veredas e estradas de terra, no lombo de burros e carros de boi, os pianos rompiam o sertão goiano, trazendo novos ventos e estímulos renovadores para a diversidade cultural do Estado.
Dessa forma também chegou, na antiga Vila Boa, o piano de Nhanhá do Couto. Um pesadíssimo piano, carregado por meses em carro de boi que, ao chegar a Goiás nos primeiros anos do século 20, mudaria de forma profunda a paisagem cultural de Goiás.
Nhanhá foi responsável pela criação da primeira orquestra da antiga capital goiana. Essa mulher visionária, comprometida com o enriquecimento e a promoção cultural goiana, fundou a primeira orquestra feminina do Brasil, além de criar diversos grupos de música e de teatro em várias cidades goianas.
A história da musicista, professora e agitadora cultural, também está atrelada ao desenvolvimento e à história da sétima arte na antiga capital de Goiás que, hoje, sedia um dos maiores festivais de cinema e vídeo ambiental do mundo, o Fica. Nhanhá desempenhou o pioneiro trabalho de coordenar, entre 1914 e 1918, uma orquestra (um pequeno grupo musical com cerca de onze pessoas) que executava os fundos musicais durante as projeções do Cinema Luso-Brasileiro. A música ajudava a compor o sentido do filme, enriquecendo a experiência estética dos espectadores.
O poder transformador da música é incomensurável. O trabalho de Couto acompanhou o movimento da transferência da capital para Goiânia, cidade para onde se mudou na década de 1940. Maria Angélica ajudou a criar a primeira Escola de Música da nova capital e lecionou aulas de canto e de piano até o ano de 1942.
O espírito vivo de Nhanhá do Couto vitalizou a nova capital. Couto inspirou e formou as novas gerações de artistas que marcariam a história da arte brasileira. Tem entre os seus descendentes e discípulos a consagrada pianista Belkiss Spenzièri, ícone grandioso de nossa cultura, neta de Nhanhá do Couto.
A música erudita em Goiás tem a colaboração especial e indelével de Nhanhá e Belkiss. Ambas pioneiras e protagonistas na missão de levar a arte para a vida de todos os goianos. Nhanhá do Couto montou a primeira orquestra da cidade de Goiás e ajudou a criar a primeira Escola de Música de Goiânia. Anos depois, sua neta seria uma das responsáveis pela criação do Conservatório Goiano de Música que, posteriormente, foi integrado à Universidade Federal de Goiás (UFG).
O trabalho árduo desempenhado por Nhaná do Couto e Belkiss Spenzièri, dentre tantas outras mulheres e homens de grandiosa importância, legou para nós um rico cenário cultural que necessita de estímulos constantes. O Governo de Goiás, em 2015 e em 2016, terá investido mais de R$ 70 milhões na arte goiana por meio do Fundo de Cultura e da Lei Goyazes. Reconhecemos o papel transformador da arte e a necessidade de se perpetuar o avanço e o acesso à cultura em nosso estado.
Nós já colhemos frutos positivos desse investimento. Temos hoje, reconhecidamente, uma das melhores orquestras filarmônicas do Brasil. Os goianos também dispõem de uma grandiosa oportunidade de estudo e de aprimoramento na Orquestra Sinfônica Jovem, que encanta a todos nós com o repertório, o brilhantismo e o talento de nossos jovens, que podem ter acesso a vários projetos de cultura.
A educação musical e artística, de maneira geral, é um poderoso instrumento de edificação da sociedade. A história de Nhanhá é um exemplo vivo de que vale a pena investir em cultura. A cultura transforma e, por meio da cultura, transformamos o Goiás.
(Marconi Perillo, governador de Goiás)