Nossas lembranças de Natal
Redação DM
Publicado em 22 de dezembro de 2016 às 01:50 | Atualizado há 10 anosDe acordo com cientistas das Universidades de Princeton e Stanford, nos EUA, nós, os humanos, não conseguimos nos lembrar de toda a nossa vida, mas possuímos habilidades extraordinárias de armazenar lembranças e recordar de uma maneira muito eficiente. Região do nosso cérebro é capaz de armazenar dois tipos principais de memórias, a de curto prazo – que dure alguns segundos e minutos – e a de longo prazo – que faz a pessoa lembrar de algo vários dias, meses ou anos. Situa-se no córtex entorrinal o processamento das chamadas memórias declarativas, que são aquelas memórias carregadas de emoção.
Nesta época do ano, quando a atmosfera natalina começa a tomar conta das pessoas, creio que nossos compartimentos de memórias são ativados ao extremo. De fato, são muitos os motivos para que o período natalino não passe alheio às nossas lembranças, por mais vagos, por mais distantes que sejam. Até mesmo para aquelas pessoas que insistem em repetir que o Natal lhe-é indiferente ou que “odeia o Natal”, é inegável que tais sentimentos só existem por alguma razão que a memória teima em lembra-los, todo ano. Um momento, um lugar, uma música, uma pessoa, várias pessoas… algo inevitavelmente despertará em nossas lembranças, nesse período de Natal, que nos fará, de alguma forma, mais ou menos intensamente, tristes, alegres, revoltados. É possível que choremos, sorrimos ou as duas coisas em intervalos ou simultaneamente. Haverá sempre a lembrança de alguém que está distante ou que nos deixou, partindo eternamente.
Certa vez, li algum texto do teólogo Leonardo Boff onde ele dizia que quando sua mãe estava viva a presença da ausência era mais constante. Como ambos moravam em países diferentes e muito distantes, a saudade que ele sentia fazia-o imaginá-la exatamente onde ela se encontrava: distante. E essa lembrança sempre a posicionava em um ponto, um lugar fixo: no país, na cidade, na casa onde sua mãe morava. Desta forma, toda vez que a saudade batia vinha a lembrança de onde ela estava. Sob esse aspecto, a morte nem sempre significa a absoluta ausência. Ela pode converter a pessoa amada em uma constante presença, uma eterna transposição do plano físico, geográfico, tornando-a habitante incessante de nossos corações e mentes, em inseparável companhia, aonde quer que vamos ou estamos. A morte, quando leva consigo, do plano físico, alguém que amamos muito, em um ato de compaixão – eu diria – ela permite que aquela pessoa possa ser sentida em nossos pensamentos, em nossa saudade, aonde quer que estejamos.
O Natal, por sua grandeza e cosmopolitismo simbólico, representativo, funciona como uma espécie de arquétipo de nossas memórias, de nossas lembranças – as recentes e as mais remotas. Muito dificilmente as lembranças que nos invadem sejam adstritas a um único episódio de nossa vida. Elas são reprises de uma sucessão de eventos, bons ou ruins, alegres ou tristes, mas importantes na moldagem de nosso caráter, de nossa personalidade, na forma como expressamos nossos sentimentos, como convivemos com nossos semelhantes, na construção de nossa identidade pessoal. Nós somos, inevitavelmente, constituídos de cada momento vivido, de cada pessoa que passou por nossas vidas e que deixou um pouco de si, com algum gesto de carinho, de afeto, de ternura, de gentileza, de amor. Este último, o amor, permanecerá latente, com muito mais intensidade.
Para mim o Natal é isso. Apesar de tantos momentos ruins, tantas tristezas, principalmente em razão da extrema pobreza que tanto marcou a minha infância, valho-me dessa contagiante energia para refletir sobre as minhas melhores lembranças. Houve um tempo em que essa data sempre rondou-me como um espectro. Havia um temor, um sentimento de provocação e tormento, pois, para mim, tudo não passava de um espetáculo artificialmente criado pelo capitalismo, gerando e difundindo uma cultura onde só é incluído quem tem poder de compra, de consumir. Não que isso não seja verdade, pois o Natal é sim a celebração do consumo, mas o tempo incumbiu-se de moldar no coração das pessoas algo mais que a troca de presentes materiais. Há uma magia entre as pessoas que transcende a relação mercantil, muito semelhante ao palhaço e o circo. Há muito tempo, quando surgiu o circo através das companhias de teatro itinerante, o palhaço servia apenas para entreter o público vendendo alguns produtos, geralmente guloseimas, durante os intervalos dos espetáculos para a troca dos cenários ou das vestimentas dos atores. Com o passar dos tempos o palhaço tornou-se a atração mais emblemática e, mais que isso, o verdadeiro espírito do circo. Aprendi com a vida que o Natal, embora idealizado pelo comércio, adquiriu contornos próprios e condizentes com o sentimento e o espírito de cada pessoa. Não por acaso, as manifestações de solidariedade, de fraternidade, de perdão, de reconciliação, de amor, despontam com tanta intensidade. Acaso não tivesse o Natal a magia de tocas os nossos corações, não aconteceria de sermos tomados por tantos sentimentos de lembranças de cada época, de nossa infância, de nossos pais, de um sorriso, de uma dor e, principalmente, de saudades de uma pessoa amada que está distante ou que tenha nos deixado e partido para outra dimensão cósmica. Cada um de nós tem sempre alguma lembrança boa. Cada um de nós tem alguma pessoa especial para ocupar nossos pensamentos, nossas lembranças. Enquanto escrevo este texto sou tomado pela presença afável, em meus melhores pensamentos, de meu pai e de minha madrinha que, já a alguns anos, partiram desta vida, mas que nunca deixaram de habitar meu coração. É inefável como eles estão sempre presentes em cada momento de alegria, de celebração da vida. Também nos momentos de atribulação, de medo, de sentimento de desamparo, eu converso com eles e os peço que não descuidem de mim. E não há uma única vez que não sinto que sou atendido. Mas eu não me ocupo apenas das lembranças dos que já se foram. Tenho, comigo – e no Natal isso se manifesta com mais proeminência – as lembranças traduzidas em saudade de muitas pessoas que o tempo ou as circunstâncias se incumbiu de afastá-las de mim. Recordo-me da minha infância, dos amigos daquela época, dos brinquedos simples, mas tão significativos… tenho lembrança do longo período de estudante secundário e universitário quando morei em pensionatos e em casa de estudante. A solidão era tão grande, mas eu sempre me sentia fortalecido para superar todas as barreiras e dificuldades da vida, pois eu me alimentava de sonhos, de esperanças.
Todos nós temos nossas lembranças, pois todos temos nossas histórias. Às vezes lembranças boas, às vezes tristes. Mas tudo é parte de um processo de forjação, de modelação de nossa identidade como pessoa. Talvez existam pessoas que durante esta época do ano o que mais deseja seria ter a capacidade de perder a memória como uma forma de fugir de lembranças tristes, de saudades pungentes, dilacerantes. Calma, meu amigo, minha amiga. É vida que segue. Uma trajetória nem sempre é feita de um movimento retilíneo. Nessa estrada da vida existem curvas, ganhos, perdas, danos, estações onde haverá sempre quem chega, quem fica, quem segue. Se você está aqui, significa que a viagem ainda não chegou ao fim. Não há uma lógica para a vida, ela é uma dádiva fatal, simplesmente para ser vivida.
Desejo aos meus diletos amigos e leitores que neste Natal seus pensamentos sejam repletos de boas lembranças. Aos que imaginam não as ter, então que comece agora a construí-las.
Feliz Natal a todos!
*Post Scriptum: vou ausentar-me deste querido DM até o dia 10 de janeiro, para merecido descanso e introspecção.
(Manoel L. Bezerra Rocha, advogado criminalista e professor universitário – E-mail: [email protected])