Brasil

O cerco e o arco etrusco

Redação DM

Publicado em 5 de março de 2017 às 01:57 | Atualizado há 9 anos

Vejo-me na Itália, mais precisamente em Perugia, capital da Umbria, contemplando um muro etrusco. Desses muros feitos de blocos de pedra que cercam os núcleos de civilizações antigas. Trata-se de um portal em arco marcando a entrada e a saída da cidade. Eu contemplava não exatamente o muro, mas o arco do muro. O arco etrusco que fora herdado pelos seus sucessores romanos.

As pedras são superpostas e trançadas com perfeita amarração formando blocos compactos. A forma arredondada da abóbada delineando o espaço arquitetônico, deixa entrever, na hora vesperal, o sol se pondo atrás da linha do horizonte. Ali, diante do arco etrusco, eu ficava horas em contemplação, absorto entre o arco do muro e o por do sol.

Tinha eu a companhia de Michèle, olhos azuis translúcidos refletindo nos meus olhos a profundidade do céu. O que víamos além da linha do horizonte? O que víamos aquém do muro etrusco? O que imaginávamos além do tempo cronológico? O que prescrutávamos no espaço aquém do infinito? O que pensávamos em silêncio e o que o silêncio nos revelava sem palavras?

Não cogitávamos de explicações, mas de nossa integração no todo que nos envolvia desde o arco etrusco ao arco-íris que dividia o céu com a terra. Assim eu me transportava ao meu cerco de origem e Michèle ao seu universo de atratividades visuais, que transpareciam no seu olhar rico de linhas e formas em que eu via uma cidade de sonhos maior do que aquela que contemplávamos além do muro etrusco.

 

Cidadão do mundo

Aqui deixo Michèle e vejo-me no quintal da infância onde eu brincava sozinho no oitão da casa e por vezes seguia os caminhos das formigas que desfilavam carregando folhas às costas para seus esconderijos. Elas entravam em filas nas suas tocas, dali sumindo para um mundo subterrâneo fora do meu alcance. Eu voltava a recompor minha boiada de vaquinhas de osso que eu recolhia no oitão da casa, ao por do sol.

Ali eu conversava com o sol e o vento, com as árvores e as sombras, desenhava símbolos enigmáticos no chão de imagens invisíveis, acreditando naquilo que eu criava com o poder da palavra pronunciada ao acaso, vendo-me por vezes diluído nas coisas que revelavam minha intimidade sem forma em meu corpo sem nome, fazendo com que eu me sentisse apenas eu.

Mais tarde eu me daria um nome a mim e me chamaria Emilius, vendo-me assim chamado pelos meus semelhantes, como que evocando outro de mim mesmo que existira antes de mim e que, ali, era um menino de eu mesmo vendo-me viver o que antes já havia vivido em lugar parecido com aquele. Quando era criança, eu me sentava em colossos de sonhos, agora me debruço nos escombros da história. E vejo o que uns homens fazem enquanto outros destroem.

Volto ao arco etrusco, agora com a imaginação. Compreendo, sem Michèle, que sou um Emílio romano que foi um Emilius etrusco e que é um Emílio brasileiro, ou um simples grão de milho no cerco de um quintal, que deixou de ser um infante municipal para ser um cidadão do mundo e que apesar de ser cidadão do mundo, voltou a ser um vivente já sem quintal, passando debaixo do arco-íris e migrando entre a terra e o céu, carregando fantasias como fazem as formigas.

 

(Emílio Vieira, professor universitário, advogado e escritor, membro da Academia Goiana de Letras, da União Brasileira de Escritores de Goiás e da Associação Goiana de Imprensa. E-mail: [email protected])


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