O franguinho perneta
Redação DM
Publicado em 4 de novembro de 2015 às 22:58 | Atualizado há 11 anosDomingo à tarde. Resolvi pegar a família e dar um passeio na casa de um amigo que acabara de se mudar para a roça. Depois de xícaras e xícaras de café forte, ele me convidou para darmos uma volta pelo quintal, onde atenciosamente me mostrava as mudanças já feitas no local, apesar do pouco tempo que estava lá, e as que pretendia fazer. Dizia, com os olhos brilhando e sempre apontando com o dedo, que mangueiro seria ali, daquele outro lado a plantação de milho, lá em baixo a de pimenta, perto daqueles pés de tamarindo vai ser a horta, acolá plantaria quiabo também, e naquele bico, lá adiante, pimentas. Seguia ele me contando detalhadamente suas intenções, para que o trabalho na terra lhe desse retorno suficiente para pagar o aluguel dos quatro alqueires e lhe sobrasse alguma soma de mês a mês.
Eu seguia acompanhando essas explicações, até que um franguinho me furtasse parte da atenção. No meio dos outros, não dava para perceber nele a particularidade; somente quando se afastava dos demais se podia notar que tinha apenas uma perna. E enquanto prestava atenção no que meu amigo dizia, eu acompanhava com os olhos o jovem galináceo saltitando como saci, tentando acompanhar a marcha dos franguinhos pelo terreiro. E o mais interessante é que nunca ficava muito para trás, em grande desvantagem.
Sem tirar os olhos do bichinho perneta, seguimos conversando. Conversa vai, conversa vem, perguntei ao meu amigo se iria criar muitas galinhas caipiras. Ele me respondeu empolgado que sim e que venderia os ovos e os frangos na cidade. Num dado momento, toquei no assunto da reforma agrária, que hoje em dia não se fala mais como antes, e pessoas como ele precisavam de um pedacinho de terra para tirar o sustento, já que tem como ofício, reconhecidamente, a lavra da terra e a criação de animais. Humilde, ele concordou comigo, erguendo o boné e coçando a cabeça, como se isso tivesse despertado nele alguma incredulidade. Nesse instante, vendo que um assunto tão delicado lhe causara alguma desconfortante descrença, resolvi lhe perguntar sobre o franguinho perneta. Ele, suavizando um pouquinho o semblante, explicou que o coitadinho levara uma pisada da vaca lá no pasto, perdendo a perninha, e que nunca mais, depois disso, voltou lá pro rumo das vacas. Ficamos olhando silenciosamente o bichinho pulando, e, como os outros, procurando o que comer em meio aos matinhos rareados. Uma pergunta me chegou num átimo: como faria o pobrezinho do franguinho para ciscar? Tão logo pensei, já comentei com o meu amigo sobre esse possível percalço e emendei que isso poderia afetar a procura por alimentos, sobretudo dos que estiverem debaixo da terra. É mesmo, disse ele, mantendo-se pensativo.
Antes de irmos embora, entramos em sua casa e tomamos mais café. Meu amigo e sua esposa, lado a lado, estampavam em seus rostos um contentamento desmedido por terem se mudado para lá, continuando a falar dos planos, de prosperidade e tranquilidade, de paz. Despedimos-nos desejando-lhes com sinceridade e fé que tudo desse mesmo certo na nova empreitada, e que pessoas como eles merecem tudo de bom na vida.
Eis que na saída, embora muitas das reflexões desta tarde estivessem, de alguma forma, assolando meu espírito, olho para o lado, debaixo de um pé de limão, e vejo algo que me trouxe uma nesguinha de conforto. Apontei para todos verem. Meu amigo ficou boquiaberto. As crianças aplaudiram. É que o franguinho perneta estava sentado e, tranquilamente, escarafunchava e revirava a terra usando o bico, tirando dela sementes, raízes e insetos. Um ciscado à sua maneira.
(Hailton Correa, graduado em Letras pela UEG de Inhumas, é agente prisional e escritor – E-mail: [email protected])