Brasil

O jerico da discórdia, ou só frouxo é quem mata valentão

Redação DM

Publicado em 21 de junho de 2017 às 02:51 | Atualizado há 9 anos

Faz um tempão, lá nas rodeanças do Duro, pros lados da Cachoeira da Luz, morava um tal Negro Li, cujo nome mesmo não sei, mas era um pacato rapazola dali mesmo daquelas bandas, aparentado de uma tal Joana Pra-Que-Veio, meio agregada de meu pai na fazenda Santo Antônio.

Negro Li era amigado com uma caboclinha baixota de pernas grossas, cabelos bosta-de-rolinha, meio atoleimada, que lhe fazia o de comer, batia suas roupas e passava o dia nas ajudanças com o companheiro Li.

La dentro do Duro, morava um tal de Félix não sei de quê, que vivia da lida de açougueiro: alto, moreno claro, queixo afinado no feitio daquele personagem “O amigo da onça”, sempre calçado de botas, amontado numa mulona e apatrochado de uma guaiaca cheia de balas, embora jamais o tenha visto carregando uma arma de fogo para justificar aquela vistosa indumentária de valentão; mas jamais se apartava de um punhalão de cabo de prata que descia cá da cinta e morria a ponta quase no joelho, de tão grande.

Nordestino – acho que de Alagoas – Félix contava um bando de propaganda e  era temido por seus causos de valentia que, nunca confirmados, espalhava nas redondezas, com presepadas de coragice e desmandos, como se tivesse se esguaritado de um bando de cangaceiros e butucado lá no Duro.

E que é que o Negro Li tem a ver com Félix, que nem sei se se conheciam?

Nas suas mercancias de compra de gado pro açougue, num negócio lá pelo sertão de Conceição do Tocantins, veio no contrapeso pra inteirar o dinheiro, um jegue já escolado nas lidas costumeiras: carregar lenha, servir de transporte pra quem tem paciência e outras coisas.

Mas Félix, que não tinha fazenda, nem roça de pasto e era um andejo, não ia trocar sua mulona para andar escanchado num jerico quase sem serventia pra ele. E acabou foi até se esquecendo de seu inservível bogue, que acabou sumindo.

Um certo dia, surgiu um negocinho pra Félix, e o outro aceitava o jegue como parte do pagamento.

Aí, ele saiu caqueando informações sobre o paradeiro de seu animal, e – lugar pequeno, todo mundo dá notícia de tudo – soube que seu animal estava sendo usado pelo Negro Li, pois, aparecendo ali sem dono ali na Cachoeira da Luz, ficou usando o jumento nos serviços, que para ele eram preciosos. Inclusive, Li estava se mudando pra pertico da rua, na Cabeceira do Brejo, e usava o jerico na mudança.

Nesse ínterim, Félix foi bater na Cachoeira da Luz ont´ava Li, pra buscar seu jegue, botando o causo como se seu bichado tivesse sido furtado. E saiu escumando de raiva, disposto a dar um corretivo no inocente Li, que só estava usando o animal até que o dono aparecesse.

Mas a poesia de Félix era outra: temido por sua decantada valentia que não tinha sido experimentada por ali, já chegou no rancho de Negro Li com raiva, disposto a fazer uma besteira de valentia pra deitar fama, e, não o encontrando ali na hora, achou de descontar foi na mulherzinha dele, entretida arrumando as trouxas da mudança. Deu uns empurrões nela e até arrastou a pobrezinha pelos cabelos assanhados, sem deixar de dar-lhe uns tapas, como se ela fosse a ladrona do jegue.

A notícia se espalhou como rastilho de pólvora. E tomando informação, soube que Negro Li estava ali na Cabeceira do Brejo, logo depois da Maria dos Reis, a coisa de quilômetro e meio da rua.

Estava o inocente Li recostado numa rede na meia-água do rancho, descansando do um corte de cana, quando Félix desapeou da mulona e já entrou com a mão no cabo do punhal preso à cintura, remoendo xingamentos pra riba de Negro Li, que ele era ladrão, negro safado, que isto, que aquilo, dando um safanão no punho da rede, que quase o derrubou no chão batido do rancho.

E caindo da rede meio descalqueado, e Félix fazendo menção de desembainhar o punhal para sangrar Negro Li, este já se levantou empunhando instintivamente a ferramenta, de cortar cana, já cobó, ali do lado, e naturalmente com medo daquele homão mal-afamado, tacou-lhe na barriga duas ou três cuteladas, que Félix emborcou ali mesmo, banhado de sangue, com o fato saindo pelo buraco dos golpes.

É o causo: quem matou Félix não foi Li, mas o medo, num típico instinto de defesa.

E não foi um caso isolado: se formos olhar com vagar, podemos constatar que os chamados valentões nunca morrem pelas mãos de outros da mesma categoria, mas pelas de frouxos que matam com medo de morrer.

 

(Liberato Póvoa, desembargador aposentado do TJ-TO, membro-fundador da Academia Tocantinense de Letras e da Academia Dianopolina de Letras, membro da Associação Goiana de Imprensa (AGI), escritor, jurista, historiador e advogado, [email protected])


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