Brasil

Os sinos choram pela alma de Ronaldo Filho

Redação DM

Publicado em 6 de julho de 2022 às 13:02 | Atualizado há 4 anos

“E como levava uma existência divina,
Deus tomou para si, e ninguém o viu mais” – (DIÁRIOS, de Franz Kafka)

I
Bandeiras a meio mastro
defronte ao palácio.
Passos de sentinelas
pralá e pracá, sombrios.

O cinza-amarelo do amanhecer,
na praça.
A zoeira auroreal dos periquitos.
Vento álgido. Aléia vetusta de
árvores.
A volta dos operários
aos cansaços da labuta.

II
Murmúrios e silêncios.
O luto sobre a mesa de
despachos do governador.

Não é querência de Deus
os pais enterrarem os filhos.

A dor é cáustica e cabe
no ritual das orações.

III
Que notícia devastadora para
o pai Ronaldo, no meio da tarde,
rezando.

Deus buscou de volta Ronaldo Filho
e seu garbo de viver. Foi (não foi)
ficou (não indo): quarenta chamas
deixaram de respirar,
sobre as alcatifas do verde
lá da fazenda dos gerais
de Nova Crixás.

E meu pesar é gorjeio
de passarinho lúgubre.

IV
A luz é complacente, governador.
Não chores.

Os sinos choram por ele,
o moço, de solene donaire:
chegado ontem, 3 de julho,
à confraria dos anjos.

V
Não sei onde dói a alma
nas lágrimas de dona Thelma.
Sei que dói uma montanha
de prantos, no vazio
de tua ausência.

E que o milagre da argila
desabou-se, na eternidade.
(Poema escrito ao amanhecer de 4 de julho de 2022, durante caminhada do autor em redor da Praça Cívica)

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