Pirenópolis corre risco de descaracterização urbana
Redação DM
Publicado em 20 de dezembro de 2016 às 01:31 | Atualizado há 10 anosO desembargador Walter Carlos Lemos, do Tribunal de Justiça de Goiás, tomou uma decisão que causou surpresa e apreensão. Sua excelência cassou a liminar que suspendia as obras da Quinta Santa Bárbara Eco Resort em Pirenópolis.
O judiciário, com a autorização da retomada das obras do resort, pode contribuir para a descaracterização de uma cidade que é referência histórica e turística.
Pirenópolis não pode perder a sua característica de cidade colonial, advinda dos bandeirantes que conquistaram a região e fincaram pé aqui. Seu estilo, uma verdadeira reminiscência portuguesa atrai turistas de todo o mundo.
Em sociedades que prezam o seu passado urbanístico, jamais se permite a sanha imobiliária e de construtoras inescrupulosas. Na Europa, Ásia, Oriente Médio não se vê tamanha violência. Cidades milenares mantêm ruas, avenidas, praças intactas obras, verdadeiras relíquias de dois mil, três anos.
Assim é Jerusalém, cidade surgida antes de Cristo, Tel Aviv, cidades européias e até o Plano Piloto em Brasília, onde não se constrói edifícios. Tudo isto para ferir uma estrutura deixada por seus construtores. Ainda bem que em Goiás, a Vila Boa é preservada.
Na Praça Cívica, em Goiânia, o então prefeito Hélio Mauro Umbelino Lobo achou por bem alterar o perfil do coreto. A reação da sociedade foi tão grande que ele, em pleno regime militar, desistiu da idéia. Depois ele próprio se penitenciou, mantendo o coreto que praticamente despontou com a nova Capital em 1942.
Se atualmente obra assim pouco representa, o coreto fazia parte da cultura da época.Era palco para a prática das artes, da música, com ênfase para as bandas da polícia militar, dos colégios públicos e complementava a parte urbanística.
Os gestores da atualidade precisam compreender essa importância, esse valor histórico, que necessita ser preservado. Não pode ser destruído. Poderia citar dezenas, centenas de cidades, verdadeiros templos universais, onde o poder público, a sociedade em si, o cidadão, jamais permitirão uma idéia de transgressão de destruir ou implantar outros modelos de valor.
No caso da cidade de Pirenópolis, onde o seu tradicionalismo deve ser conservado em sua forma original, outras edificações consideradas modernas devam ocorrer fora do perímetro urbano original.
Caso contrário, será o dilaceramento de suas ruas, de suas casas e a cidade terá perdido por completo a sua característica. E com certeza todo o seu processo histórico, que tanto atrai pessoas, entre elas escritores, artistas, jornalistas e notáveis do mundo inteiro. Será, então, a vala comum.
(Wandell Seixas, é jornalista voltado para o agro, bacharel em Direito e Economia pela PUC-Goiás, ex-bolsista em cooperativismo agrícola pela Histradut, em Tel Aviv, Israel, e autor do livro o Agronegócio passa pelo Centro-Oeste.)