Plantando favas
Redação DM
Publicado em 29 de outubro de 2015 às 21:13 | Atualizado há 11 anosDurante toda a vida de casado, o casal vivia sofrendo os rigores da miséria, mas sempre com muita resignação e humildade, e nunca os cônjuges tiveram sequer uma discussão; viviam em perfeita harmonia e havia paz naquela casa.
Um dia a mulher ganhou mil cruzeiros na Loteria Federal e acreditou-se bastante consolidada financeiramente, chegando mesmo a expulsar o marido de casa, mandando-o “ir plantar favas”, procurar outro rumo, enfim, que “se virasse” por lá.
No entanto, chegou o dia em que o seu dinheiro acabou, e grande foi a desdita da mulher. Não supunha que o prêmio lotérico durasse tão pouco e o que era pior, não podia contar mais com os mirrados trocadinhos que o marido levava para casa, à tardinha, depois de exaustivas horas carregando sacos nas portas dos armazéns.
Agora, mais do que nunca, a fome tomou conta do seu ninho doméstico. Não sabia que o dinheirinho que o esposo ganhava com tanto sacrifício representava tanto na manutenção do lar. Somente depois de havê-lo enxotado dali, é que veio a saber disso. Mas já era tarde demais.
O que fazer nestas circunstâncias?
Teve que deixar suas três crianças sozinhas no barraco e foi passar o dia todo à beira do córrego, lavando roupas para os outros.
Certa feita, quase anoitecendo, depois de um dia muito cansativo, após o trabalho, a mulher chegou em casa e viu que os filhinhos estavam radiantes, limpinhos, roupinhas novas, sapatinhos novos, barriguinhas cheias e a mesa da cozinha estava repleta de mantimentos para a família.
– O que houve aqui? Exclamou a dona do lar.
– Papai esteve aqui. Foi a explicação de uma das crianças.
– Como seu pai conseguiu tudo isso?
– Trabalhando, ora! Esclareceu a filha maior.
– Então, o malandro esteve aqui? Do que ele está trabalhando?
E a garota maior, com a maior naturalidade, respondeu-lhe:
– Ele disse que ultimamente anda “plantando favas”…
Sempre há uma grande razão para sermos pobres, razão esta que às vezes desconhecemos.
A Lei Divina é sábia e distribui os patrimônios da vida de acordo com o discernimento de cada um.
Convém, por isso mesmo, abençoar a miséria que nos acompanha os dias, muito trabalhando, servindo e crescendo em espírito, porque se não estamos preparados para enfrentar um teste de promoção, procedido pela Providência Divina junto às nossas vidas, pode ser que acabamos por complicar, mais ainda, a nossa situação.
O companheiro (ou companheira) que Deus uniu ao nosso coração, malgrado as suas imperfeições, sempre é a muleta que nos faltava.
Os trocadinhos aparentemente sem importância, que o marido (ou esposa) amealha para o sustento do lar, depois de muito trabalho honesto e de muito esforço na retidão, conseguem, apesar de representar pouco, barrar a fome e a miséria total que tentam invadir o nosso domicílio; e é bom nos lembrarmos sempre de que o maior oceano existente no mundo é constituído de pequenos rios que se convergem para ali, e que essas correntes d’água são formadas gota a gota.
O dinheiro não dá independência a ninguém.
Todos nós necessitamos uns dos outros. Os homens que retêm as maiores fortunas do mundo não podem dispensar a colaboração do sapateiro, da cozinheira e de ninguém.
Jesus, que retém todo o universo na palma da mão, quando esteve entre nós, precisou de quem O ajudasse no momento da Via Crucis, e aceitou a valiosa colaboração do Cirineu amigo, e do caridoso gesto de Verônica, a lhe enxugar o rosto em sangue.
Se Ele precisou, e precisa, de todos nós, podemos nós, acaso, dispensar os préstimos uns dos outros?
Quando o dinheiro nos sobe à cabeça, pesa tanto que chega a nos desequilibrar os passos.
(Iron Junqueira, escritor)