Brasil

Precisamos falar sobre a cultura do estupro

Redação DM

Publicado em 28 de maio de 2016 às 02:36 | Atualizado há 10 anos

Tem dois dias que escuto ou leio com bastante frequência a expressão “cultura do estupro”

Beatriz é o motivo. Uma jovem de 16 anos que sofreu um estupro coletivo por 33 homens no estado do Rio de Janeiro.

“Alguma coisa ela fez para merecer isso”, “se ela não quisesse, não devia estar sozinha na rua essas horas”, “ela provocou com aquela roupa, com aquele jeito vulgar”, são os pensamentos dominante quando falamos sobre estupro. As vítimas de estupro são ensinadas a se sentirem culpadas.

Precisamos deixar algo bem claro: estupro não é um crime relacionado a sexo ou desejo sexual. O estupro se refere a uma relação de poder. Trata-se de um processo de intimidação pelo qual os homens estupram em nome de sua masculinidade e mulheres são estupradas em nome da sua feminilidade.

A violência sexual, patrimonial, física, moral e psicológica contra mulher acontece todos os dias. Está naturalizado nessa sociedade que não só tolera como incentiva essas violências.

O termo cultura do estupro nasceu na década de 70, quando as feministas americanas promoviam campanhas de conscientização da sociedade sobre a realidade do estupro. Acontece que desde pequenas, não estamos em pé de igualdade nessa competição. “Lutinha é coisa de menino. Meninas precisam brincar de bonecas”. Somos treinadas desde a infância a entender que precisamos temer a força de um homem. É requisito básico na nossa educação.

Como combater a cultura do estupro em uma sociedade que acredita que debater gênero na escola é doutrinação marxista ou pauta da esquerda? Como tirar a violência contra mulher do ranking de crimes cometidos quando o tema da redação do Enem do ano passado foi visto como desnecessário?

E os casos que o disque 180 ainda desconhece? Onde estão e como estão essas filhas, mães, primas, tias ou avós? Como levar informação para essas mulheres num momento em que o feminismo é repudiado?

Sei que todas querem andar pela rua sem nem imaginar que possam ser estupradas, porque a rua também é nossa. Que a nossa competência seja observada e analisada e não as curvas do nosso corpo. Que nossas filhas decidam e exerçam a profissão dos seus sonhos e que não ganhem mesmo apenas por serem mulheres. Que homem nenhum se ache no direito de gritar, calar, agredir fisicamente ou psicologicamente qualquer mulher que cruzar seu caminho. Sei que Beatriz e milhares de mulheres não querem desculpas. Querem que vocês parem.

Sobre os que somaram nessa luta pelo fim da cultura do estupro, vão aqui algumas dicas. É importante discutir gênero. É importante que mulheres vítimas de violência sejam atendidas e acolhidas por mulheres que compreendam sua situação. É necessário que parem de vender cerveja ou revistas que dão um falso consentimento sobre as mulheres. É significativo conquistarmos paridade de gênero em todos os espaços de decisão e poder. Estão prontos?

 

(Claudia Herlaine, mulher e feminista)

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