Quando o passarinho começar a cantar as penas vão voar
Redação DM
Publicado em 12 de maio de 2016 às 02:27 | Atualizado há 10 anos
O filme político em cartaz anunciado pela mídia nacional e internacional não representa nenhuma novidade para a nação brasileira, mas, somente uma repaginada no cenário em que os atores, afora um ou outro, são os mesmos, mas, excepcionalmente com o fim de provocar maior dramaticidade e impacto foram realocados por obra e (des)graça da reiterada intromissão de um Poder sobre o outro, numa clara invasão de competência e um grave anacronismo no principio de separação dos Poderes.
Negar a extensão da asseveração é olvidar o ocorrido entre o Supremo e a Câmara em dois recentes episódios. O primeiro, no ano passado, durante a votação de instalação da Comissão Especial do Impeachment em que os opositores votaram e venceram, e o segundo, este ano, no afastamento do presidente da Câmara Federal sem qualquer amparo legal, quer na Constituição ou em qualquer outro diploma legal, numa clara demonstração de ativismo e inovação de sua prerrogativa constitucional de julgador e não de legislador.
É reveladora a dialética erística acobertada pelos parlamentares defensores do governo, num golpe bem forjado, visando legitimar o golpe tramando durante o processo eleitoral que vitimou os humildes que acreditaram num projeto de Brasil melhor e mais digno. O “justo” preço que se paga agora é um país mergulhado num abismo injusto, milhões de desempregados e famílias desesperadas e sem rumo por conta dos desmandos, mentiras, tapeação e estelionato de quem se apropriara do poder para assaltar o povo e os cofres da nação. O cruel espetáculo não é pior, por contraditório que possa soar, graças à enérgica, rápida e providencial ação da justiça. O momento contrapõe até o contestado.
A mais interessante das lições que se apresenta aos homens não se encontra gravada nos anais dos Parlamentos, palácios e instituições daqui e nem do mundo afora, mas, sim, quando ele decide encontrar-se, revelar-se e confessar-se olhando em seus próprios olhos sem a necessidade de espelhos exteriores, mas, única e tão somente naquele que reflete a sua alma e o desejo de acertar-se consigo mesmo.
É impossível imaginar que alguém tão influente na vida pública alcance posição destacada e que se sobreponha a outros ilustres e brilhantes membros de um mesmo grupo por sua incompetência, incapacidade, impopularidade e outros incontáveis requisitos necessários para ser um líder, sobretudo pela habilidade dos liderados.
Mas, não houve tempo de ser ouvido pelos pares. O país não teve a chance de ouvi-lo. Independente do juízo que se tenha, repercutir é preciso. Causa espécie o proceder de ilustres homens sapiens, diante da quadra do continente Brasil, mesmo por não ignorar que um senador cara-lavada nem de rubra vergonha se pinta já que lhe faltam a mesma tinta e verve usadas na caçada e não cassada do presidente que com ele hoje compartilha o Senado, assim como uma colega parlamentar, cujo comportamento e discurso se alteram conforme o interesse pessoal ou do grupo, em detrimento da coisa pública, e que se encontra na mira do Procurador Geral da República.
Examinando situações equivalentes é plausível acreditar, pelas razões já esposadas, que a cassação do mandato do senador, que foi líder da presidente no Senado Federal, vai continuar rendendo e produzindo efeitos devastadores para os envolvidos nos crimes levantados e assim considerados por quem de direito, porque a delação premiada ainda não é de toda conhecida pela sociedade, mas, pelo que já foi divulgado, e agora com a perda do mandato e o consequente prejuízo do fórum privilegiado, todos os envolvidos merecerão citação pormenorizada, com riqueza e clareza de detalhes e, certamente, quando o passarinho começar a cantar as penas vão voar.
(Miron Parreira Veloso, jornalista, radialista, escritor. Bel. C. Contábeis, g. público. Livro publicado: Gestão Pública – Prática e Teoria -UEG)