Quanta ofensa aos romanos e aos cachorros
Redação DM
Publicado em 22 de setembro de 2016 às 02:24 | Atualizado há 10 anosQuando o mundo inteiro e o Brasil viram as patéticas cenas dos senadores Lindbergh Farias(PT-RJ) e Ronaldo Caiado( DEM-GO) se injuriando mutuamente com os xingamentos de canalhas, canalhas, canalhas, certamente que muitas pessoas devem ter ficado escandalizadas com tais comportamentos. Mas, não os brasileiros que assistem no dia a dia as sessões de nossos parlamentares. Não! Definitivamente aqui em nossas terras brasis tais atitudes e diálogos já não pasmam as pessoas. Afinal, no parlamento temos um pouco de hospício , como o hospício também tem muito de parlamento, e cá entre nós, com trocadilho, tudo para lamento a perder de vista .
Tudo ocorreu na sessão do congresso nacional, no julgamento final do impeachment da presidente Dilma Rousseff, 31 de agosto de 2016. Esse ato da dantesca peça que foi o teatro do julgamento de impedimento da 1ª presidente (‘mulher’). Ops, ela gostava de ser chamada de presidenta do Brasil. Todo o enredo teve a duração cabalística de 7 dias, que terminou num 31 (13 invertido) de agosto (mês de muitos maus agouros). Tal data e mês lembram-me até o trágico fim de outro presidente, Getúlio Vargas, em 24 agosto de 1954, ele suicidou-se.
Em outro ato, do mesmo teatro que foi esse impeachment, muitas outras esquisitices: platitudes, abobrinhas, um infindo rosário de dissimulações, mentiras e perfídias, atitudes nada republicanas, sandices e outras injúrias que já vinham sendo permutadas entre os nominados juízes (senadores) de tão assistida solene sessão. O certo é que tudo parecia mais um teatro mambembe e de horrores de nossas casas legislativas, de onde emanam as leias que nos governam. Por isso o desgoverno em que andávamos e nossa grande nau na iminência de um naufrágio.
Renan Calheiros, senador presidente do senado, em um aparte anterior, em alto e bom som já tinha asseverado ao ministro presidente do julgamento, ministro Ricardo Lewandowski (emprestado do STF). Disse sua excelência, o senador Renan Calheiros (investigado na operação Lava Jato): vossa excelência, referindo-se ao ministro Lewandowski, parece estar presidindo um hospício.
No fundo foi até risível assistir àquela pantomímica sessão julgadora, nominada pelos próprios componentes de egrégia; coitadas das muitas igrejas; de excelsa, coitado do Celso Furtado, de colenda; dá vontade de sair correndo. Porque rima mesmo é com horrendo.
Assistir então a inaudita e burlesca sessão lembrou-me uma outra peça, obra literária, do nosso magnânimo e eterno Machado de Assis com o seu conto O Alienista, cujo protagonista é o insigne e impostor Dr. Simão Bacamarte. Médico de renomada formação em universidades de Lisboa, Pádua e Coimbra. Ele que recusa convite do Rei de Portugal a cargo importante, na época, e vem se instalar em suas origens na vila de Itaguaí, Brasil.
Nessa vila do interior, Dr. Bacamarte se dedica às doenças psiquiátricas, cria um manicômio, a casa verde, e começa internar pessoas que ele considera dementes. Mas, não sem protestos da maioria das pessoas, que consideram ele próprio (Simão Bacamarte) o único alienado, como de fato se concluiu ao final do conto, na internação do próprio alienista (uma autointernação), no hospício que ele fundara . Um lance que muito assemelha com os nossos tempos se dá quando a câmara de vereadores de Itaguaí pede imunidade para os vereadores e vota tal decreto em prol de seus membros, para que nenhum deles seja recolhido e tratado como demente na casa verde, do então afamado e respeitado cientista, Dr. Simão Bacamarte. Qualquer semelhança com algumas casas legislativas de nossos dias não é mera coincidência.
Senado vem de senatus, o alto conselho da antiga Roma, nada mais significava do que conselho dos mais velhos, de senex, senil, idoso. O papel ou função dessa casa de leis naqueles tempos era formar uma espécie de tribunal composto de os mais sábios, idosos e experientes. Era ali no senáculo, local de suas reuniões, onde se tomavam as mais lúcidas, sábias e invioláveis decisões. Tratavam-se de uma câmara legislativa e um tribunal, sem inimigos, cujas leis eram promulgadas em prol de todos, do Estado e do bem comum. Não era uma reunião de inimigos raivosos e briguentos, de aloprados, nem de fugitivos de qualquer hospício, nem da Justiça.
Nosso congresso brasileiro, desses tenebrosos tempos de mensalão, petrolão e lava jato, mais parece uma casamata ou valhacouto, onde muitos acusados e indiciados pela Polícia Federal e Ministério Público, se homiziam das garras e dos alcances das Leis.
Sem desmerecer muitos canalhas de nosso congresso e senado (não são todos); o termo canalha vem do latim canalia, de canis, matilha de cachorros. Agora sintetizemos o sentido do verbete: os cães que sempre trabalham solidários e amigos entre eles. Que se tornaram os melhores amigos do homem. Logo eles que emprestam seu nome para atitudes, comportamentos e diálogos tão vis, tão infames, tão mesquinhos e nauseantes. Que ofensa aos bichos .
Juntando os dois termos: senado romano e matilha de cães, o quanto de injúria aos antigos senadores de Roma, o quanto de ignomínia e falta de respeito aos nossos cachorros amigos. Setembro/2016.
(João Joaquim de Oliveira, cronista DM / [email protected])