Quem tem medo do lobo mau?
Redação DM
Publicado em 1 de julho de 2017 às 22:39 | Atualizado há 9 anos
Muito se fala sobre o foro privilegiado para detentores de mandato eletivo. Parlamentares são os que detém para si a gama maior de privilégios, pois podem lucubrar verdades factoides e ferir a honra e a dignidade dos cidadãos comuns sem que, por isso, sejam contestados judicialmente – como chamar os desafetos de bandidos, por exemplo.
Os mandatários de cargos do Executivos nos três níveis são alvos da nossa constante irritação por tudo o que nos falta ou nos é tirado em nome da escassez de recursos ou da “necessidade” do aumento de impostos – bandeira essa com que o todo-poderoso ministro da Fazenda nos ameaça a cada palestra.
A Internet – essa nova “casa” (da mãe-joana) instituída em âmbito mundial – deu voz aos que, até vinte anos atrás, não sabiam onde dizer nada, onde reclamar de nada. E, com isso, nota-se que o repúdio à classe política, hoje, está se tornando uma nova unanimidade.
Dois dos juízes do maior patamar da Justiça – Teori Zavaski e Edson Facchin – foram além da letra metálica da Lei e feriram seriamente o Legislativo. O primeiro afastou do cargo e mandou prender um senador; o segundo afastou do cargo e limitou drasticamente os movimentos de outro senador – mas somente o primeiro teve, efetivamente, seu mandato cassado e suas vantagens ceifadas drasticamente. Já o segundo mereceu o retoque caprichoso de um terceiro alto magistrado, Marco Aurélio Mello. Ele “corrigiu” o “abuso” (não usou essa palavra nem se referiu diretamente a Facchin, mas não foi necessário) do colega e, ao “aplicar a lei” em respeito “aos votos do povo”, embasou seu discurso em exaltação aos méritos (?) políticos e pessoais do neto de Tancredo.
Se Facchin pecou em sua decisão, o bom senso sugere que a questão poderia ser corrigida no colegiado – ou seja, na apreciação pelo plenário de 11 ministros, e não na contestação pura e simples de um de seus iguais. Ou será que, também lá, uns são mais iguais que seus iguais?
Há incontáveis acusações contra a cúpula do PT, partido que se rege não por essa cúpula, mas pelas orientações autocráticas de um só líder. O juiz Sérgio Moro condenou o tesoureiro Vaccari, mas o regional o absolveu, limpando-lhe totalmente a ficha. Parece que o prêmio não foi bem absorvido na mídia ou nos comentários das redes sociais, mas é um indício de perdão geral para os petistas – e, pelas novas notícias, também aos do PMDB, do PSDB etc.
Fala-se que Lula, hoje, torce para que Temer continue no cargo – ele seria um anti-herói, um presidente que tenta emplacar medidas antipáticas, antipopulares, e assim pavimentar o caminho de seus adversários. Acredito, também.
A popularidade de Michel Temer, na faixa de 7%, é uma das mais baixas de que se tem notícia em todo o mundo. Ele não suportaria sequer o boato de uma consulta popular, agora. O Brasil carece de líderes. As duas casas do Congresso, as 27 assembleias estaduais e as mais de cinco mil câmaras municipais do país colecionam fatos e atos criminosos contra si – e há o consenso de que nenhuma delas escapa a uma auditoria.
O mais triste é saber que a cara-de-pau, hoje, não tem limites. Antes, há algumas décadas, havia um ligeiro pudor até mesmo entre esses corruptos que deixaram o seu legado para os filhos e netos (as oligarquias são as mesmas sempre, transmitem-se de pai para filho e, não raro, agregam novos segmentos familiares porque os casamentos existem para isso também). O triste é constatar que antes era tudo igual, mas o populacho não tinha acesso às informações.
E ante tudo isso, ainda há quem venha, no turbilhão de tantas más notícias, pregar a honestidade dos ditadores.
Isso é pior do que acreditar no Saci Pererê.
(Luiz de Aquino, jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras)