Quem tem um aliado como Temer
Redação DM
Publicado em 22 de dezembro de 2015 às 23:15 | Atualizado há 11 anosPartícipe da fundação do MDB Estadual em 1966 e do PMDB 14 anos depois, assalta-me enorme tristeza assistir ao declínio e à total perda de identidade desse que foi o maior baluarte do processo da redemocratização brasileira. Seus erros, sua desfiguração, sua mediocrização, entristecem a todo lutador democrata.
O atual presidente nacional do Partido, Michel Temer é o retrato nítido da falta de conteúdo ideológico, de espírito de luta, de coerência, de princípios programáticos do partido que foi a agremiação política nacional combatente contra os governos ditatoriais presididos por generais de 4 estrelas. É o antípoda de Ulisses Guimarães. E se se tornou vice-presidente da República tal fato se explica por várias razões. Com a sua crescente descaracterização, o partido, desde a derrota de Ulisses Guimarães, em 1990, com apenas 3% da votação geral na disputa pela Presidência da República; e de Anthony Garotinho, terceiro colocado em 2002, não mais teve condições de candidatura própria, passando a mero coadjuvante. Apoiou Lula em 2006. Fez aliança com PT em 2010 e 2014, ganhando a vice-presidência da República, com Dilma Rousseff na Presidência. Foi assim, portanto, que Michel Temer se tornou vice-presidente. Nome eleitoralmente fraco, inteiramente destituído de carisma, elegeu-se na garupa, já que não se vota individualmente em vice. Se ele, Michel Temer, disputasse qualquer cargo majoritário diretamente jamais se elegeria. Suas credenciais para disputa eleitoral não passam de eleição proporcional, mesmo assim com números inexpressivos.
Aconteceu que a atual crise política que domina o noticiário nacional veio a gerar ensejo, perante Michel Temer, à ilusória perspectiva de se tornar presidente da República, já que o substituto constitucional da presidente é ele.
Ao impulso dessa suposta perspectiva e dessa consequente ambição, Temer passou para as fileiras anti-Dilma Rousseff. Suas manifestações por efeito desse impulso têm sido deploráveis. Entre elas sua carta à Presidente cujos termos foram inteiramente revelados. Um amontoado de contradições. Diz ele, por exemplo, que a presidente não tem confiança nele. Ora, depois de quatro anos vice-presidente dela, foi por ela mantido na chapa que disputou a reeleição. Não é uma insofismável prova de confiança?
Neste segundo mandato presidencial Dilma Rousseff confiou a Michel Temer a importantíssima tarefa da articulação política junto aos representantes do povo no Congresso Nacional e a todas as lideranças partidárias governistas e oposicionistas. Podia haver maior demonstração de confiança?
A verdade é que o sonho de se ver presidente da República embalou uma conduta absolutamente desleal, oportunista e incoerente do inexpressivo vice-presidente. Na sua carta pontifica inclusive aquela ridícula alegação de que tinha de estar presente na conversa da presidente com o vice norte-americano Joe Biden. Michel Temer há de convir que um presidente da República ter de conduzir a tiracolo o seu Vice para uma conversa com outro vice é uma exigência que toda opinião pública considera uma infantilidade.
Diz também o vice de Dilma que esta desprestigia o PMDB e neste também não confia. A temeridade (sem intenção de trocadilho) e a injustiça dessa afirmação são facilmente demonstráveis. Já no primeiro governo Dilma o partido presidido por Temer tinha seis ministros na equipe de governo, além de dezenas de cargos nos outros escalões. Neste segundo governo o número de ministros peemedebistas aumentou para sete. Foi o único partido beneficiado por aumento de participação.
Assim Michel Temer está a parecer aquele lobo da fábula que quando desmentido em todas as afirmações disse ao cordeiro: “Então, se não foi você foi seu pai…”
Todo golpismo tem a farsa como pano de fundo.
(Eurico Barbosa, escritor, membro da AGL e da Associação Nacional de Escritores, advogado, jornalista e escreve neste jornal às quartas & sextas-feiras – E-mail: [email protected])