Sonho e realidade
Redação DM
Publicado em 22 de dezembro de 2016 às 01:10 | Atualizado há 10 anosAlguma vez, por acaso, você já se preocupou com a linha tênue que permeia absurda entre o sonho e a realidade? Um sonho que parece realidade, ou vice-versa, confundindo qualquer neurônio! Isso já causou diversos dramas na vida de muitos. Talvez até na sua, quem sabe? Leia esta:
Zinho era metalúrgico, numa das funções mais insalubres. A exaustão era rotina comum nas 10 horas de trabalho, todas inspecionadas pelos olhos ardentes de sua folha de ponto. Chegava sempre em cima da hora, nos segundos em que o alarme berrava o mais estridente sopro de agonia. Qualquer atraso lhe legava um salário reduzido, além de uma multa como gorjeta. Com exceção dos fins de semana, tinha que correr os três quarteirões que o separavam da fábrica.
A manhã cinzenta estava fresca como as gotículas de orvalho sobre a lataria de um velho carro: manhã gostosa de dormir! Zinho levanta-se. A mulher está na cozinha a vasculhar o vazio do armário para forrar a barriga do filho. O homem lava o rosto e veste o macacão azul, enquanto caminha em direção à porta, mas antes de encostar na fechadura, o menino chora alto, espremido no canto da sala, balançando o sininho que ganhara do papai-noel, em pleno dia natalício.
Não era o sino; ele estava sonhando: o despertador é que estava tendo convulsões. Zinho acorda, lava o rosto pálido e se assusta com a hora. “Não vai dar tempo: salário reduzido!” Coloca o macacão azul, enquanto cambaleia na sala. Vê a mulher se certificar do vácuo triste do armário. E quando quase abre a porta (o liame entre o mundo e a residência) seu filho chora alto no canto da sala e balança o sininho.
“Não é possível!” Exclama ao ver os tremeliques sonoros do despertador. Era sonho. Acorda, lava o rosto, de imagem horrível, mostrada pela ironia realista do espelho. O atraso vai gerar-lhe aquela gorjeta. Veste de azul no meio da sala, em meio a tropeços. A mulher confirma a inexistência sombria de provimentos no armário. A porta. O choro contínuo é ritmado pelo sininho do menino.
“Meu Deus, mais um sonho!” É o ataque epilético do despertador. Quase uma hora de atraso. A folha de ponto vai lhe dar o peso aviltante da multa. Rosto lavado. Azul na sala. Tropicões. Breve oração antes da cozinha: “que eu esteja acordado, definitivamente!” A mulher e o filho estão dormindo no quarto. O cantinho da sala está livre e o “liame” da maçaneta é aberta.
Fria estiagem, mundo calado. Ninguém aparece na rua. Não há homens, nem veículos, só algum ônibus no longínquo da avenida. Será sonho? Não: realidade! “Ufa!” Cabe até um poemeto, disfarçado de trocadilho: Zinho anda só, sozinho.
O alambrado da fábrica está trancado. “Devem estar trabalhando… Ah, essa não!” Suspira ao perceber o vigia. Pula o muro e cai estrategicamente tão bem quanto um gato gordo. Abre sorrateiramente a porta da entrada e vê, no calendário, a folhinha do dia registrar o vermelho da letra do dia: Domingo!
(Leonardo Teixeira, escritor, escreve às quintas-feiras neste espaço. Contato: [email protected])