Trump – e agora?
Redação DM
Publicado em 15 de novembro de 2016 às 00:39 | Atualizado há 10 anosPassada uma semana da eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos, persiste uma sensação de perplexidade, tanto na mídia como entre cidadãos comuns. Isso porque o futuro 45º presidente americano apresenta-se como o típico “gringo”: arrogante, sem papas na língua, parece alguém embevecido consigo mesmo e com os bilhões de sua fortuna pessoal.
Além da figura pesada e das feições talvez preenchidas com botox, Trump exibe postura desafiadora e olhar sem emoção nem empatia. O quadro – quase caricato – completa-se com a cor alaranjada (ou seria acenourada?) da peruca. Assim, ele consegue reunir em si mesmo os estereótipos do magnata antipático, personificação do capitalista sem entranhas, explorador dos pobres e oprimidos.
Revelações e acusações apontam-no como desrespeitoso com as mulheres e sonegador de impostos, além de propor projetos insanos, como a construção de um muro na fronteira com o México e a expulsão de milhões de imigrantes, a começar pelos muçulmanos. A imagem apocalíptica completa-se com a falta de experiência em política e em administração pública, “virtudes” que o candidato fazia proclamar.
É tanta ruindade que dá para desconfiar. Trata-se, afinal, da escolha do primeiro mandatário dos Estados Unidos da América – a nação mais poderosa do mundo, com uma história de vitórias e acertos grandiosos. Para começar, veja-se a constelação de presidentes que se sucederam desde 1789. Em maioria, são personalidades ilustres e respeitadas, que conduziram seu país de modo a que ali se desenvolvesse uma sociedade livre e soberana, embasada em princípios democráticos. A utopia iluminista da igualdade, liberdade e fraternidade materializou-se na Constituição americana, uma das mais antigas do mundo e quase inalterada ao longo de séculos.
Toda a gente sabe – eu, inclusive – que na sociedade americana há tenebrosas zonas de sombra e de tragédia: individualismo e ganância, preconceito racial, herança de violência que se materializa em paranoicos assassinatos coletivos e assim por diante.
Há que lembrar, contudo, que em nenhum outro lugar se encontram tantos mecenas das artes, tantos contribuintes de causas filantrópicas e até amalucadas, tantos bolsistas do mundo inteiro em universidades de ponta, tantos voluntários para ajuda humanitária. Lembre-se também que os Estados Unidos são o maior ganhador de prêmios Nobel, em áreas tão distintas como a Medicina, a Física e o Nobel da Paz.
Donald Trump foi eleito em disputa pesada, com recursos e artimanhas do marketing eleitoral. Na campanha, gastaram-se bilhões de dólares, até porque estão em jogo os interesses da maior economia do planeta, com ramificações e influência globais. Que me perdoem os profissionais do ramo, mas “marketing” é enganação.
Em política, repaginam-se candidatos e definem-se e refazem-se mensagens conforme o humor e as idiossincrasias do eleitorado. Ao que parece quase a metade dos que votaram nas eleições americanas sentiam-se esquecidos e marginalizados durante os anos de governos democratas, insistentemente voltados para as minorias. Esquecendo e mesmo vilipendiando o americano médio, branco, conservador, assalariado ou pequeno empreendedor capitalista. Essa gente anda temerosa, vendo empregos se mudarem para países distantes e imigrantes ilegais disputarem os postos de trabalho em solo americano, nivelando-os por baixo.
Trump e seus apoiadores radicalizaram o discurso e conquistaram os votos da chamada “América profunda”, derrotando o charme e a sofisticação dos liberais das grandes cidades e centros universitários. Agora é a hora da verdade: tanto o presidente eleito (Trump) como o que está de saída (Obama) entenderam que o jogo foi jogado e falam em união em torno de ideais e objetivos da pátria comum.
Aqui no Brasil, artimanhas de marketing, pagas a peso de ouro por nós, contribuintes, transformaram o “poste” Dilma Rousseff em gerentona eleita com as bênçãos e o aval do então presidente Lula, pai dos pobres e guia das multidões. Deu no que deu: tão sábia administradora conseguiu levar o país à maior crise econômica e política de nossa história.
Vamos torcer para que nos Estados Unidos o demoníaco Trump não se saia tão mal assim. A despeito da carantonha e do discurso assustador, quem sabe passe a ranger os dentes e a mostrar os músculos para corrigir rumos e reengatar a locomotiva americana nos trilhos do desenvolvimento. Viabilizando o slogan de campanha: Make America great again.
A alternância do poder é sempre saudável.
(Lena Castello Branco, escritora. E- mail: [email protected])