Um debate real
Redação DM
Publicado em 15 de dezembro de 2015 às 00:35 | Atualizado há 11 anosLeitor 1 diz- Marcelo, num de seus artigos você diz que a doença mental e os desequilíbrios psíquicos de qualquer ordem podem condicionar o indivíduo e sua família à pobreza. Já adianto que não sou médico e não compactuo com sua visão médica que vê as coisas de modo reducionista, ou seja, sob o prisma do condicionamento biológico das desigualdades. Só vejo um sistema político-sócio-econômico, capitalismo, que produz o sentimento de incapacitação, limitação, nas classes menos favorecidas. Vocês médicos falam em esforço individual, p.ex., para estudar, passar num vestibular, enfrentar os desafios da profissão, enfrentar as políticas governamentais, mas estas justificativas não resolvem o problema da falta de oportunidades iguais para todos. Estas oportunidades não existem. Em suma, “pobre dificilmente faz medicina”.
Leitor 2- Caro leitor 1, quanto à “desigualdade de oportunidades” pré-medicina (ou seja, “só ricos entram na medicina”), eu preciso discordar. Meus pais sempre foram pobres; e eu, desde o ensino fundamental I até o ensino médio, por minha própria força de vontade, obtive notas excelentes a fim de “valorizar meu passe” para as escolas particulares em que estudei, sempre como bolsista. Além disso, fiz cursinho na melhor escola da minha região, através do mesmo expediente: por aprovações em outros vestibulares concorridos, eles me davam bolsa de estudos integrais e material didático. Eu cheguei a não ter nem o q comer na cidade onde eu estudava; professores chegaram a me pagar lanches pra eu aguentar assistir as aulas, mas mesmo assim eu construía resultados tão expressivos, que nessa escola, até para os meus dois irmãos mais novos eu consegui bolsas integrais. Por ter vivido a falta de oportunidades e ter superado ela por conta própria, na marra; eu não posso compactuar com o discursozinho dos oprimidos pelo sistema. Quem quer de verdade realizar um sonho, dá um jeito, quem quer moleza aplica essa historinha da justiça social aí. Aos “broken-boys” (coitadismo) da sociedade atual, meus pêsames. Homens como eu são mais frequentes do que vocês podem imaginar . Abraço.
Leitor 3- Caro leitor 1, não existe tal coisa como oportunidades iguais pois na partida todos são diferentes. Como médico, a gente vê, na prática e na ciência, a cada dia, que cada individuo nasce completamente diferente em suas aptidões e capacidades. Forma-se diferente em seus valores e desejos. Falar em igualdade é piada! Dar oportunidade é uma coisa! Querer manipular indivíduos diferentes para “equalizar” por engenharias sociais me soa nazístico! Indivíduos diferentes com necessidades diferentes! Afaste o Estado dos cidadãos que eles saberão buscar o que quiserem! Chega de manipulação Estatal com a desculpa que “vão dar oportunidades iguais”.
Leitor 4- Leitor 1, pelo menos no Brasil esta história do Estado dar oportunidade para todos só tem servido para minar as forças produtivas da sociedade.
Oportunidades existem para quem as aproveita, para quem abandona a auto-comiseração socialista e o coitadismo estatista-ressentido-raivoso.
Um dia, dando um seminário em escola pública , um auto-comiserado aluno se dizia revoltado por não ser elite e – entre outras coisas – não ter dinheiro para comprar nem um livro do Machado de Assis que iria cair no vestibular.
No outro dia cheguei para o seminário com um punhado de livros e coloquei sobre a mesa. Perguntei: sabem o que é isto?
Duas coisas: a coleção completa de Machado, às traças e abandonada na biblioteca aqui dessa escola pública, onde ninguém os lê, e três livros do autor que comprei num sebo a 3 reais cada… Onde está a falta de oportunidade para quem, de fato, quer?
Leitor 5- Quem diz que é a pobreza que induz a incapacidade? Por que não o contrário, ou seja, a incapacidade (p.ex., alcoolismo, drogas,desequilíbrio, prostituição, etc) produzindo a pobreza?
Moral da história: o que tem acontecido no Brasil é que alguns médicos, enquanto classe fora do sindicalismo convencional, cansados de serem detonados pelo Governo, estão, pela primeira vez, aprendendo a “viver sem o Estado”, ao passo que outras profissões muito estatizadas ainda dependem dele praticamente para tudo? Será que é isso que está por trás de tais discussões?
(Marcelo Caixeta, médico no Hospital Psiquiátrico de Goiânia, artigos às terças, sextas, domingos – [email protected])