Brasil

Um etrusco brasileiro

Redação DM

Publicado em 2 de dezembro de 2015 às 22:34 | Atualizado há 1 ano

Há situações existenciais que parecem imitar a ficção, assim como a ficção é uma imitação da realidade fática. A vida nos mostra em múltiplas  facetas – objetivas e subjetivas –, mas só conseguimos tocá-la no plano transcendente por meio de representações simbólicas. Assim recompomos a imagem da vida como um prisma de realidade e sonho.

Por vezes sentimos a sensação de termos nascido ou vivido em outro tempo e em outro lugar. Levados por nossas utopias, migramos de um mundo para outro, como que em busca de nós mesmos. Há os que escavam no tempo os segredos do passado, como antropólogos de si mesmos. Há os que descortinam, como os cientistas, as oficinas do futuro. E há os que desvendam realidades invisíveis, como fazem os videntes.

Muito antes da chegada do homem à Lua, já Júlio Verne descrevia em ficção uma inusitada viagem ao centro da Terra, com uso de submarinos e mergulhadores em perfeita sintonia com futuros mecanismos técnico-científicos já existentes na sua imaginação. Como explicar, por sua vez, o sonho de Dom Bosco, o santo italiano que previu o surgimento de Brasília como futura capital do Brasil? Descreveu com precisão até mesmo os paralelos de sua localização no Planalto central.

Há lugares que parecem flutuar dentro de nós, assim como parecemos flutuar em certos lugares entre múltiplas direções que às vezes nos confundem. Nessa esfericidade da vida no tempo e no espaço, às vezes reconhecemos, ou desconhecemos nossa própria imagem, como se outros fôssemos. Haveria, quem sabe, um centro magnético que registraria nossas passagens por onde quer que andássemos, de modo a formatar um dossiê de nossas sucessivas vivências. Por que a nossa memória nos transporta a um tempo metafísico? E a lugares imaginários, onde revisitamos o passado e antevemos o futuro?

 

O impulso migratório

Há quem abandone centros civilizatórios para refugiar-se em núcleos primitivos, como quem busca uma identidade original que o ser humano só encontraria em estado de naturalidade e simplicidade, como no mito do bom selvagem de Rousseau. Um exemplo é o do pintor francês Paul Gauguin, que antes mesmo da globalização que chegaria como ameaça às culturas indígenas, retirava-se da vida sofisticada de Paris para ir viver no Taiti, cuja cultura exótica interpretou em suas telas ricas de simbolismo.

Há uma espécie de adoção natural de pessoas por um processo de assimilação cultural, como se verificou também no Brasil desde o período imperial, com a presença de viajantes estrangeiros e dos pintores de costumes a quem devemos o primeiro retrato colorido de nosso país, antes mesmo da invenção da máquina fotográfica.

Foi por meio de representações pictóricas que primeiro conhecemos, na mídia artística, os tipos raciais formadores da etnia brasileira, as tradições populares, nossos usos e costumes nacionais, retratados em telas magistrais como do francês Debret, do alemão Rugendas e do argentino Carybé (ilustrador predileto de Jorge Amado), que por último se tornou um dos maiores intérpretes dos tipos sociais afrobrasileiros, figurantes dos autos populares do folclore da Bahia.

Um lugar dentro de nós

Transportemo-nos agora para um lugar dentro de nosso imaginário. Quem sabe, na vetusta Itália. Quem sabe, revisitando um remoto centro de civilização etrusca. A cidade de Perugia, por exemplo, na milenar Etrúria.

Fechamos os olhos e visualizamos ruinas de um castelo ao fundo de uma paisagem desolada que se estende ao pé de uma coluna, onde palmilhamos um caminho estreito, que se desfaz numa elevação em meio a uma vegetação seca e amarelecida pelo tempo. Chegando a esse ponto, esgota-se o cenário antigo e termina de repente nosso caminho percorrido: aí teríamos encerrado nosso calendário existencial.

Abrimos os olhos e o lugar desaparece junto com as silhuetas do castelo, a vegetação rasteira, o caminho interrompido, a subida inacabada. Aí temos a certeza, mais do que a sensação de termos vivido em um lugar como esse que continua a existir dentro de nós. A imaginação se encarrega de associar a esse cenário descrito algumas cogitações, como ocorrem ao autor destas linhas.

Primeiro, a indagação de semelhança dessa paisagem visualizada com outra paisagem pictural, talvez vista e internalizada em algum momento da vida, não se sabe onde ou quando. Paisagem esquecida e que estaria arquivada no subconsciente. Soma-se  a isso a circunstância de quem fora educado por professoras italianas, que falavam sempre desse paese meraviglioso que é a Itália, onde surgiu nossa civilização latina.

Mas por que, mesmo visitando a Itália, aquela paisagem onírica continua a descortinar-se no plano imaginário? Um dia surpreendeu este escriba, dentro de um museu arqueológico em Perugia, ao verificar a semelhança de seus traços fisionômicos com os dos pequenos e fortes etruscos, que ali na antiga Etrúria antecederam os romanos.

Imaginou que teriam antecipado sua própria imagem – é claro, geneticamente aperfeiçoada – dado que se achou mais bonito que seus ancestrais protótipos. Então atentou para dois curiosos detalhes.

Primeiro, que ao falar italiano, seu aparelho fonético parece mais adequado para articular os sons da língua de Dante que da língua de Camões. Segundo, a singularidade de seu nome: por que chamar-se Emílio (nome etrusco Aemílius), se nasceu num lugar onde todos se chamavam João, Joaquim, José? Por que logo Emílio, que passaria a ser também um nome romano?

Por que um dia veio parar na Itália a revisitar lugares onde houvesse vivido – em sítios, que nunca viste, de um país que não existe – como no poema Cotovia, de Manuel Bandeira? Será que as pessoas migram mesmo em busca de si mesmas? Não seria este autor um etrusco renascido no Brasil?

(Este artigo foi originalmente publicado no livro Itália Mater, de Emílio Vieira, Goiânia: Kelps, 2012).

 

(Emílio Vieira, professor universitário, advogado e escritor, membro da Academia Goiana de Letras, da União Brasileira de Escritores de Goiás e da Associação Goiana de Imprensa – E-mail: [email protected])

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