Vamos falar do amor
Redação DM
Publicado em 23 de novembro de 2015 às 23:43 | Atualizado há 11 anosNão quero falar do ódio. Porque o ódio já foi exaltado nas ultimações de seus ataques e sempre o é em cada ato em que se manifesta. Porque o ódio já foi consumado. Aliás, das pouquíssimas e limitadas coisas que o ódio sabe fazer é consumar-se. Fazer-se pronto e acabado. Sempre estático, imóvel, estéril. Só destrói. Nunca edifica. Nunca constrói nada. Nem transforma. Nem renova. Nem frutifica. Porque o ódio já foi consumado. Do mais abjeto tipo de ódio. O mais bárbaro, cruel e desumano. Funesto. Já se materializou. Já saiu de mentes mórbidas e foi concretizado em horror e tristeza. E no dia 13 deste novembro de 2015, depois de atentados de terror contra a liberdade e contra a vida humanas, Paris inda chora um choro sentido, pranteado com a França inteira, comungado com todo o mundo.
Paris perdeu 129 filhos, de sangue ou acolhidos. Hoje vejo Paris como uma mãe. Vejo Paris como a Notre-Dame, a quem presta homenagem sua Catedral. Paris chora seus filhos assassinados como Nossa Senhora chorou a morte doridíssima do seu Filho tão amado. Permitam-me, queridos irmãos e irmãs de todos os credos, permitam-se usar o lindo exemplo dessa mãe que tanto amou. Em verdade, Nossa Senhora pode representar todas as mães do mundo. Todo o amor desses corações maravilhosos de mãe. Todas as dores que golpeiam esses corações de mãe maravilhosos. Paris é uma mãe que hoje tem fundas chagas abertas no peito, duma dor inimaginável, intangível, cravadas por espadas crudelíssimas, por gládios sem sentimento. Que Paris também são as mães de Paris. E, na figura mátria, Paris são as famílias dos filhos mortos de Paris, de qualquer parte do mundo.
Quanta dor no peito dessa mãe Paris em que vejo tantos rostos sofridos de dezenas de mães e pais e irmãos e familiares e amigos. Quanta dor sente a França e seu povo e os irmãos em humanidade da Terra inteira. Uma dor que traspassa o peito e faz dissolver os limites racionais do entendimento. Dor essa que não é só essa dor, senão que reabre e rememora feridas antigas de dores outras sofridas por outros povos, em dias idos da nossa história.
Quanta dor chega até Deus. Quantos rogos e angústias. Lamentos lacerantes. Incompreensões sem medida. Incertezas das filhas e filhos Seus. E um Deus que é só Amar. Um Deus que quer a paz para a humanidade. Jamais se presta a justificar atos de ódio, de horrenda crueldade. Nunca se serve a isso Quem nos criou. Jamais Quem nos ama tanto. Não é pela fé em Deus que os homens perpetram truculências e desumanidades, senão pela fé em suas próprias insânias. As causas das barbaridades não têm e nunca encontrarão raízes verdadeiras nas religiões em si e muito menos em Deus, já que são apenas usados, deturpados e abusados como pretextos a temperar suas vilezas. Quem faz e justifica suas atrocidades são tão somente os próprios homens da nossa raça. Aliás, é preciso citar do Corão, livro sagrado dos muçulmanos, estes belos versículos: “Aquele que tira a vida de uma pessoa, é como se tivesse tirado a vida de toda a humanidade. E aquele que salva uma vida, é como se tivesse salvado toda a humanidade.”
A propósito, proclamam-se muitas injustiças e mentiras contra o islamismo e soem vinculá-lo ao fundamento ideológico de grupos terroristas. Faz-se, entretanto, imperioso firmar: é uma religião que prega a paz. Jamais o ódio e a morte. Nunca a intolerância e o terror. Aliás, islão, judaísmo e cristianismo pregam a paz. Mesquitas, sinagogas e igrejas são templos de paz. O que cabe aos seguidores dessas e de todas as religiões é buscar e realizar efetivamente essa paz que Deus inspira e quer dos Seus povos.
Na verdade, fomos todos criados diferentes – pessoas, cores e gêneros diferentes, pensamentos, religiões e culturas diferentes: tudo vário, diverso, plural e, por isso mesmo, tudo tão rico e sublime – para que nos reconheçamos uns aos outros, para que convivamos em harmonia, para nos amarmos e nos respeitarmos, para admirarmos a riqueza e a diversidade da vida, para aprendermos sempre e evoluirmos juntos em comunhão com as irmãs e irmãos que nos cercam. Somos todos irmãos. A inteligência suprema do Criador não seria – como não foi – tola a ponto de criar seres todos idênticos. Muito pelo oposto, fomos criados magistralmente com diferenças de embevecer, o que não impede – senão exorta – que nos amemos e nos respeitemos e convivamos para fruir a vida e lutar nossas dignas batalhas de justos ideais pelo desenvolvimento dos seres e dos povos. O Criador ama a todos os seus filhos em sua riqueza plural, e quer que efetivemos a igualdade e o amor na diversidade.
Estive, este ano, em terras do nordeste da África e do Médio Oriente, que padecem grandes conflitos por motivos diversos, especialmente enleados a questões religiosas. E a despeito das profusas distorções dos instrumentos midiáticos – que fazem nascer em nós tantos preconceitos e falsas impressões –, pude ver e sentir o carinho fraterno de irmãos de distintas religiões. Encontrei afeição e amabilidade em muitos irmãos árabes no Egito e na Jordânia, em irmãos cristãos em Israel e também no Egito, em irmãos judeus em Israel, em irmãos muçulmanos na Palestina. Encontrei nos olhos, nos sorrisos, nas palavras, nas ações desses meus irmãos o respeito e o amor que gosto de ver, que me vitalizam, alegram-me a alma, que fortalecem minha seiva crente na vida e no humano. Sinto-me abraçado por meus irmãos. E quão rico é o mosaico de viver!
Então não venham dizer o absurdo de que as religiões pregam ou fundamentam guerras! Pois se de todas as religiões há inúmeros seguidores – ainda que fosse um – que pregam a paz e respeitam e amam seus irmãos de crenças diferentes, então – ao contrário do querem fazer crer os discursos céticos, bélicos ou hipócritas – as religiões demonstram que podem, sim, bem conviver e podem dar exemplos de que anseiam por isso, ainda que da forma mais tímida e incipiente, e não se ignorando a assaz árdua e delongada vereda que devemos trilhar para alcançar esse desígnio.
Vivemos em dias em que o terror tenta impor o medo à humanidade e aos seus valores mais caros. Mas ocorre que nunca o medo foi e nem será capaz de vencer a vida. O medo é demasiado pouco diante da ânsia e do ânimo vitais que pulsam com o sangue em nossas artérias e arejam nossos pulmões com alento. Pois a vida sempre aprende e sempre supera suas mazelas, e cresce e se desenvolve e floresce. A vida é luta nobre, que o medo só tenta aterrorizar. Mas não logra vencer quase nada. O medo é fraco. E a força radicada na brutalidade e no desamor é a força mais frágil, mais débil, mais indigente de que se tem notícia. É a força mais estúpida e alienada, pois que totalmente ignara de sua debilidade.
Quanto mais atacada, a vida mais se fortalece, mas nobre se torna, mais querida, mais buscada, mais valorizada, mais engrandecida. Para combater atos contra a vida, o único remédio é mais vida. Defronte atentados contra a democracia, só mais democracia. Diante de golpes contra a liberdade, só mais liberdade. Em face de vilipêndios à fraternidade, só mais fraternidade. Diante de bombas contra o amor, só mais amor. Assim, o medo é vencido. É esse o seu único e infausto fadário. Sempre perde a tramontana em face do amor. E a vida vence. Sempre. Não pode aquele grandes coisas contra esta.
Nesses dias em que vejo a alma de Paris chorar sangue, em que vejo o espírito da França verter suas vísceras numa dor atroz, vejo também a divina capacidade humana de compadecer-nos, de doermos junto com nossos irmãos. Nossos dons grandiosos de abraçar, com os braços ou em preces, os nossos irmãos que sofrem, de doar o auxílio e a ternura de que carecem, de acariciar com infindas luzes de velas e flores sinceras, suaves, os corações de famílias enlutadas, em meio a grande pesar. Vejo o mundo todo que se veste com as cores da França – a França de Revoluções que inspiraram a civilização –, em sinal de irmandade humana, em sinal de exprobração do desgraçado ideário do terror, em sinal de comunhão dos nossos melhores valores, como se todos os cantos deste planeta bradassem estentóricos, fazendo retumbar: “Estamos juntos, irmãos! Sempre!”
Partilhamos a dor, mas partilhamos o Amor. Que força magnânima, prodigiosa, invencível é essa que nasce dos corações e abrasa a Terra inteira! Sim: vamos falar do Amor! Precisamos falar do Amor! Precisamos Amar! Não do amor cosmético, superficial e efêmero que vive vagando nesses dias. É preciso Amor do bom, do profundo, do que transforma homens e humanidades. É preciso Amor do que se enraíza nos cernes e se alastra pelas nossas veias, pelos nossos espíritos – dotados que somos dessa capacidade estupenda –, e se realiza em ações concretas entre as pessoas e em transformações nas sociedades. Digo do Amor real, feito em espírito e praticado no espírito e na carne do próximo. Digo do Amor de Gandhi, de Irmã Dulce, de Luther King, de Chico Xavier, de Dalai Lama, de Tawakel Karman, de Madre Teresa, de Desmond Tutu, de Kailash Satyarthi, de Dom Hélder, de Betinho, de Malala, de Francisco, de Nelson Mandela. E do Amor de tantos humanos amorosos e anônimos ao redor do mundo inteiro. Do puro Amor pelo ser humano em si, pela liberdade e dignidade das nossas vidas. Vale dizer que a maior afronta para o ódio não é respondê-lo com mais ódio. Ante o ódio o melhor insulto é amar. Ódios morrem prematuros quando não correspondidos com mais coisas da sua mesma laia.
O mundo precisa de Amor do mais visceral, do mais natural, do mais despojado de todos os rótulos, estereótipos, idiossincrasias. Precisamos do Amor sem roupas, sem etiquetas, sem preços, com muita fé, mas sem religiões ou com todas elas. Precisamos dar Amor – concebido como substância da nossa própria humanidade – tal qual nos pedem os irmãos que de nós precisam e não como queremos ou podemos dá-lo. E precisamos receber Amor com gratidão aos irmãos que nos amam, vendo-os como nos amando com tudo o que têm a oferecer, vendo-os generosos, fraternos, doando tudo o que podem, com todas as suas forças, da melhor forma que podem.
Claro que vão dizer que sonho demais. E sonho demais deveras! Muitos pensarão que estas linhas nasceram e fadadas estão ao perene, incorpóreo, irrealizável e difuso limbo descampado da utopia. Mas sonhar é parte ínsita ao Amar. Que Amor que não sonha é morno e morre. E não só sonhar exige o Amor dos que amam – de nós. Exige sonhar e sonhar bem grande, com os pés firmes na estrada da busca.
Quiséramos nós fosse possível aprender as mais duras e acerbas lições da vida sem precisar perder vidas amadas. Ou, em se as perdendo, pudéssemos recuperá-las indenes. Todavia, não o podemos. Temos que aceitar e carregar a cruz. Entanto, como dos mais suaves toques da vida, também dos mais cruentos podemos e devemos depurá-los e deles colher o que de bom nos fica, como algo a aprender, sempre, sempre.
Nosso mundo, nossos povos, tão robóticos e insensíveis, tão estúpidos e burros de amor, tão maquinizados e corridos no capital, tão duros, desarmônicos, maldosos, frívolos, pedem mais Amor. Pedem mais parar a correria para beijar gostoso e abraçar apertado as pessoas, tanto as que já amamos como as que temos que aprender a amar. Pedem mais fazer o bem sem câmeras e fotografias e postagens. E para seguirmos sempre avante e porfiados no propósito da evolução de nós mesmos e de todos, em razão da magnífica e divinal dinâmica da natureza – sempre avante, jamais retroceder –, é que nos momentos mais dantescos da vida podemos colher das mais valiosas e prolíferas aprendizagens. É tempo de aprender. Aliás, sempre é. E aí temos que parar um pouco, reavaliar coisas velhas, posturas velhas, sujidades inúteis do espírito, peçonhas perniciosas da alma, valores velhos das sociedades. E, no fim das contas – pelo menos pelo que minha curta vida me ensinou até agora –, o que sempre sobra tanto das pequenas como das imensuráveis tempestades é uma grande súplica de amor. É uma imensa prece de amor. Um preito ao dom excelso da Vida, que nos pede, impreca-nos: Amai! Amai-me! Amai-vos!
O manto de Notre-Dame cubra – e cobre – todas as mães de Paris, e os pais e irmãos e familiares e amigos dos filhos de Paris, de sangue ou perfilhados. E Paris, banhada por um Sena de lágrimas, das mais doídas, é também banhada por um Sena de Amor, do maior. O mundo inteiro faz preces por Paris. E a prece é movimento do espírito, é ato de pura ternura, gesto que frutifica no ser de quem a faz e de quem a recebe.
Paris não é só Paris. E me desculpem os mais entendidos que podem ter visões mais amplas, mais assisadas, mais maduras que a minha. Mas a Paris que me inspira estas linhas não é só Paris. A Paris que estou mirando é várias cidades. São os refugiados das guerras. São os refugiados das desditas políticas e econômicas e sociais de seus países. São os vitimados pelas misérias da humanidade doente. São os perseguidos por suas ideias, origens, culturas e religiões. São os chagados pelo racismo e por preconceitos vários. São todos os que sofrem por causa do desamor, por causa das ignorâncias e ignomínias do espírito. Por causa das atrocidades dos homens que, em podendo amar, escolhem matar. O símbolo que ora vejo em Paris poderia ser visto em qualquer cidade do mundo que encarne, simultaneamente, testemunhos de dor e de luta da vida para viver. Poderia ser visto em cidades pobres ou ricas, de países ricos ou pobres, pequenos ou grandes, de gentes de todas as cores, de todos os credos, de quaisquer continentes. Paris está como uma metáfora nestes parágrafos, pela simples razão de ter-me inspirado neste momento em que vivemos. Está como um símbolo, mas não solitário, não único e tampouco isolado. É como uma estrela que, pelo que tocou meu coração, resolvi pinçar duma ingente constelação. Assim como também é-nos símbolo de vida a La Paz do sorriso aberto duma chola, das cholas valentes de suas alturas e misérias e mazelas sociais bolivianas. Assim como é símbolo a Daca das mulheres valorosas que lutam por seus direitos, contra o ácido de homens bengaleses jogado nas faces que merecem pétalas. Assim como é símbolo a Jerusalém do israelense que respeita e ama seu irmão palestino, como pode sê-lo a Belém do palestino que respeita e ama seu irmão judeu. Assim como a Soweto da resistência negra contra a nojeira do racismo legalizado, na luta intrépida pela igualdade, pela dignidade humana, por direitos fundamentais, em desfavor de um apartheid que impunha dementes segregações numa África do Sul dividida. Assim como é símbolo a Mariana do povo mineiro, do povo brasileiro lutador, perseverante, resiliente, dum povo, sobretudo, forte, que enfrenta mares de lama, perdas enormes, danos e desastres imensuráveis à natureza, pesadelos dolorosos, desabrigos, enfrenta seu Rio Doce amargado, mas um povo que vai atravessando tudo com fé e amor à vida e aos seus irmãos, que vai seguindo adiante, denodado, cultivando fraternidade, união, doação do pão e do ser, esperançar.
A Paris que vejo hoje, ou tento ver pelas retinas destas palavras, representa todos os que lutam pelo anseio maior da vida, por nosso âmago fraterno, pela liberdade, pela dignidade, pela felicidade, pela união humana em torno dos nossos mais caros valores e em defesa dos nossos mais basilares direitos, pela graça de poder caminhar sem ser alvo, de poder fazer o que gosta sem espreitas, de poder respirar sem medo, de poder ir, de poder voltar, de poder simplesmente viver, meu Deus!
Sim, oremos por Paris. Oremos por Mariana. Oremos pela humanidade.
Vamos falar muito desta força, e, mormente, vamos praticá-la e realizá-la. Vamos realizar a força mais poderosa do universo. A força que, aliás, criou o universo inteiro e nos criou. Da força suprema que habita o coração de Deus e dos homens, à Sua semelhança criados.
Vamos falar do Amor. Vamos viver no Amor.
(Rafael Ribeiro Bueno Fleury de Passos, nome literário Rafael Ribeiro Rubro, advogado, escritor, poeta, cantor e mochileiro. Colaborador do jornal “O Vilaboense” e articulista do “Diário da Manhã”. Membro da Ovat (Organização Vilaboense de Artes e Tradições), da UBE – Seção Goiás (União Brasileira de Escritores) e presidente da Comissão Permanente de Licitação do Município de Goiás – [email protected])