Brasil

Vazio político ou política vazia?

Redação DM

Publicado em 29 de dezembro de 2015 às 22:41 | Atualizado há 11 anos

Para mim, os dois. A política virou miolo de pote. Sem importância, uma bobagem. Se é que ela ainda existe. A minha análise se baseia no pensar do próprio povo, que dela fala como se estivesse falando de nada.

Os gatos pingados que vão às ruas para protestar, mais parecem pessoas passeando pelos calçadões à procura de ar fresco. E a cada passeata mínguam mais. As reportagens ampliam os ângulos das lentes de suas câmaras, mas nada, é aquele tanto mesmo, sempre bem menos do que a última. Há um desencanto.

Atribuo o fenômeno ao vazio político e à política vazia. Tem um preço. Altíssimo. Os danos são irreparáveis e entram na conta mensal de cada brasileiro.

Concorde ou não, cada erro político entra no corpo e na casa de cada pessoa. O que equivale dizer que cada sujeito, do seu agrado ou não, passa a ser um político passivo. Sem militância partidária, sem direito a voz, sem mandato, mas paga o pato. O senhor não sabia? Sim, senhor, o senhor é um político passivo. E não adianta espernear. O político ativo, aquele que é partidário, que tem mandato ou outro cargo relevante, já colocou todos os políticos passivos no bolo tributário como os únicos responsáveis pelas fontes de receitas. Você é gente pra chuchu, e não sabia? Pois é!

Vou tentar pegar o fio da meada. A confusão começa quando o espaço é grande e quase mínguem, ou ninguém, para ocupá-lo. Exatamente isso. A política está em todo lugar, o problema é que ela foi ocupada pela mediocridade. E o pior, os homens e as mulheres de bem não querem nela entrar. Como resultado da evidência do fato, a política se tornou vazia. Essa, a tese. O caso concreto, a atual conjuntura em que estamos enfiados até o pescoço: desgoverno.

Cheguei com esta crônica até aqui, para responder ao internauta que me perguntou se as redes sociais estão com força suficiente para pressionar o mundo político e fazê-lo tomar as posições que os tempos de desvarios estão cobrando. Respondo que não! Nas redes tudo vira piada, charge, gozação, caricatura. Até o próprio esculhambado ri.

Sabe do que político tem pavor? De manifestação de rua, de povo mostrando o volume de descontentes. Nas redes são manifestações individuais, frias. Pense num estouro da boiada. Com as ruas cheias de gente o efeito é o mesmo: ou acompanha a vontade ou fica pisoteado pelo caminho.

Você já observou como diminuiu o “fora” fulano(a)? É assim que tudo fica como dantes. Aí é chorar pitangas.

 

(Iram Saraiva, ministro emérito do Tribunal de Contas da União)


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