Brasil

Zé Goela Azeda, o tirador de bendito de Missões

Redação DM

Publicado em 7 de março de 2017 às 02:22 | Atualizado há 9 anos

Voz grave e apressada, dava gosto ouvir Zé Goela conversar. Embora conhecido por este apelido (que o nome real não lhe sei), só duas pessoas – que eu saiba – chamavam-no pela alcunha: Zeca Póvoa, velho amigo de longos anos, e meu irmão Solon, comerciante, que sempre foi cheio de patacoadas e senvergonhices, fazendo lérias com o povo do mato (“Que é que o idiota vai querer comprar?”, “Tá bom, fresco?”, e assim por diante).  Assim mesmo, Zé Goela recebia o chamamento com um resmungo.  O resto do povo podia chamá-lo de “seu” Zé, que o “Goela” era capaz de ser recebido com uma lapada de facão.

Morava em Missões, onde outrora houvera uma aldeia xerente, a duas léguas de São José do Duro, vivendo da roça e gozando de bom conceito, mercê de sua vida direita.  Todas as semanas, lá ia com um saco às costas vender dois pratos de feijão-de-corda, um salamim de farinha nova, uma cabeça de guariroba e outras coisinhas do mato, para passar na casa de meu irmão Nélio e trazer da “Casa Ponto Certo” o fumo, o café, além das encomendas que cabiam todas na capanga de catingueiro em que carregava sua muçuraca de pitador e cheirador de simonte.

Religioso, religiosíssimo, era presença obrigatória nas rezas das redondezas, puxando ladainhas e tirando o “bendito”.  Vinha gente de longe buscá-lo para os terços, novenas e lamentações da época dos Dias Grandes.  Era quem adjutorava o padre nos rituais da missa e dos batizados, tirando rezas ou mesmo botando ordem na igreja para conter a falta de costume do povo de Missões na época das desobrigas.

Seu profundo sentimento religioso estava acima de tudo, sacrificando até mesmo a reverência quando ousavam quebrar a ordem dos momentos sacros, estivesse onde estivesse, fosse com quem fosse.

E isto aconteceu numa das missas anuais na velha igreja de Missões: ele, ali, firme, diante do altar comandando a multidão de fiéis, nas cantorias de louvor ao padroeiro São José.  E cantava entoado, mas sem desgrudar os olhos ordeiros do povão, para não atrapalhar o santo ofício.  Mas – época de festa, cachaça muita – aconteceu entrar na igreja um cachaceiro, que pegou a conversar lá atrás, perturbando o desenrolar na cerimônia.  O padre estava na elevação da hóstia, momento soleníssimo da consagração; o povo, ajoelhado, contrito; o padre, no seu “dominus vobiscum”; Zé Goela, diante do altar, sem poder concentrar-se nas orações devido à conversa pastosa e renitente do pinguço.

E quando mais solenidade havia no ambiente, Zé Goela levantou-se de supetão e esbravejou, com o vozeirão que tirou toda a contrição do povo:

– Bota esse disgraçado pra fora!  Esse fio duma égua, in vez de curá a iscumungada da pinga na casa dele, tá pensano qui aqui é senzala! – e unindo as palavras à ação, abriu caminho no meio do povo e agarrou o biriteiro, jogando de qualquer jeito, de pé na bunda, pra fora.

O padre quase não conseguiu segurar o riso, que estava estoura-não-estoura, enquanto Zé Goela, como se nada tivesse ocorrido, voltava a seu lugar, todo contrito.

Na época da Revolução, estava Zé Goela, como de costume, na casa de Nélio (que fora seu vizinho em Missões), e este lia um jornal que dava as últimas.  As notícias em voga na época eram as cassações de mandato.  Zé Goela só assuntando: sentado no balcão, pernas cruzadas, chapéu de palha em cima do joelho, salga-bunda nos pés, chupitando o cigarro de palha de fumo forte.  Acabando de ler, Nétio comentou:

– Tão cassando muita gente, compadre.

– É mesmo? – estranhou, chegando mais pra perto pra escutar mais.

– É. Já cassaram Ademar, Juscelino, cassaram Jânio Quadros, cassaram Mauro Borges.. .

Num crescendo de espanto, Zé Goela interrompeu:

– E acharo, curnpadre?

 

(Liberato Póvoa, desembargador aposentado do TJ-TO, membro-fundador da Academia Tocantinense de Letras e da Academia Dianopolina de Letras, membro da Associação Goiana de Imprensa (AGI), escritor, jurista, historiador e advogado, [email protected])


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