Política

Aliados goianos abandonam Cunha

Redação DM

Publicado em 14 de setembro de 2016 às 02:21 | Atualizado há 2 anos

Jovair Arantes (PTB), Pedro Chaves (PMDB) e Alexandre Baldy (PTN) foram os únicos deputados federais de Goiás que não participaram da sessão que cassou o mandato do ex-presidente da Câmara Federal Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Juntamente com outros 39 deputados, eles não compareceram à sessão de cassação, realizada na noite do dia 12. Cunha foi cassado com o voto de 450 deputados, 10 votaram contra, 9 se abstiveram e 42 se ausentaram. A ausência foi uma tentativa de salvar o  pescoço daquele que era um líder para este grupo, que trabalhou para elegê-lo à presidência do Parlamento e o acompanhou em todas as suas investidas contra a Constituição e contra a democracia.

Jovair, Baldy e Chaves  trabalharam desde o início pela eleição de Cunha. Eles podem ser vistos na foto da vitória de Eduardo Cunha na eleição da presidência da Câmara Federal em janeiro de 2014. Em troca, foram prestigiados. Jovair Arantes era cotado para suceder Cunha na presidência em 2017, e por isto apoiou a eleição de um aliado, o deputado Rogério Rosso (PSD-DF) para o mandato tampão, após o afastamento de Cunha pelo STF (Supremo Tribunal Federal). Em troca, Jovair foi o relator da comissão especial do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT).

Pedro Chaves foi mantido na Comissão de Orçamento, a qual pertence desde o seu primeiro mandato (1999-2003), já Alexandre Baldy foi indicado para presidir a Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado, e talvez por isto mesmo deveria ter participado da sessão que julgou um político que é réu na Operação Lava Jato acusado de participar de desvios na Petrobras, evasão de divisas, corrupção ativa e passiva e de receber propinas que somam R$ 52 milhões.

Num levantamento feito pelo site Congresso em Foco, dois dias antes da votação, Pedro Chaves e Jovair Arantes não confirmaram a presença na sessão, enquanto Alexandre Baldy informava que iria votar. Nas justificativas para a ausência, cada um teve uma explicação diferente.

A assessoria do deputado Pedro Chaves alegou que ele está de licença médica, mas não informou qual é a sua enfermidade ou se havia sido internado em algum hospital. Alexandre Baldy relatou que havia indicativos de um acordo para adiar a sessão, e que por isto não se deslocou a Brasília, mas quando soube que havia quórum, se dirigiu à capital federal, mas só chegou de madrugada, após o término da votação.

Jovair admitiu desconforto com a votação. A mesma sensação, no entanto, não o abateu ao fazer o relatório pela cassação da presidenta Dilma Rousseff (PT-MG), sobre a qual não pesava nenhuma prova, nenhum indício de culpa, ou seja, teve pruridos de cassar um corrupto notório e não os teve em cassar uma inocente.

Bancadas

A bancada de Goiás votou majoritariamente a favor da cassação do mandato e dos direitos políticos de Eduardo Cunha, que agora está inelegível até 2027. Dos 17 deputados, 14 votaram pela cassação (ver box). No Tocantins, todos os deputados votaram pela cassação, sem nenhuma ausência ou abstenção, assim como os parlamentares do Amazonas, Pernambuco e Mato Grosso.

Dos 42 deputados que não compareceram à sessão, a bancada do Rio de Janeiro, estado de Cunha, apresentou o maior número de ausentes: sete deputados, seguida por Minas Gerais, com cinco ausentes, São Paulo, quatro e Goiás, Paraná e Amapá com três ausências. Das nove abstenções, três foram de Minas Gerais, duas do Paraná, duas do Distrito Federal, uma do Sergipe e uma do Maranhão.

 Apogeu e queda

Em Goiás,  o deputado Eduardo Cunha recebia apoio da bancada ruralista, dos deputados federais Roberto Balestra (PP),  Heuler Cruvinel (PSD) e do senador Ronaldo Caiado (DEM), e na bancada empresarial tinha a simpatia dos deputados Alexandre Baldy (PTN) e Magda Moffato (PR).

No PMDB, era prestigiado pelos deputados Daniel Vilela e Pedro Chaves. Na bancada evangélica tinha o respaldo do pastor Fábio Sousa (PSDB) e do deputado João Campos, que trocou o PSDB pelo PRB, era alvo de elogios do pastor Silas Malafaia e do deputado pastor Marcos Feliciano (PSC-SP), um dos poucos que lhe honrou com um voto contra a cassação.

Eduardo Cunha está atolado até o pescoço em denúncias de corrupção. É acusado pelo Ministério Público da Suíça de ser dono de uma conta com US$ 5 milhões. O delator Nestor Cerveró o acusa de cobrar propina de R$ 45 milhões junto ao banco BTG Pactual, de André Esteves (preso juntamente com o senador Delcídio Amaral).

O empresário  Milton Lyra, que teria intermediado o pagamento da citada propina de R$ 45 milhões do BTG Pactual a Cunha e outros peemedebistas, propôs  delação premiada antes de ser detido pela Justiça. Lyra era lobista do banco no Congresso quando da discussão da Medida Provisória 608/2013, que tratava de créditos tributários, abrindo para novas formas de capitalização para bancos. A Procuradoria Geral da República também apresentou denúncia contra Cunha sobre uma série de mensagens trocadas por ele e o ex-presidente da construtora OAS Léo Pinheiro, onde, em várias ocasiões, o peemedebista cobra do empreiteiro repasse de dinheiro para ele e para aliados políticos.

Apesar das gravíssimas acusações, Eduardo Cunha tinha apoio dos próceres da oposição anti-Dilma para levar à frente o processo de impeachment pedido pelo PSDB do senador Aécio Neves (MG) e pelo DEM, dos senadores Ronaldo Caiado (acusado de receber doações do pecuarista José Carlos Bumlai) e Agripino Maia (acusado por suposta prática de corrupção passiva e lavagem de dinheiro no Detran do Rio Grande do Norte).

Até que ponto a queda de Eduardo Cunha prejudica a imagem destes parlamentares? É difícil dizer. O senador Aécio Neves, por exemplo, que tramou o tempo todo com Cunha nas “pautas-bombas” no Congresso Nacional, apostando no “quanto pior, melhor”, não deu um pio sobre sua cassação.

Os integrantes do  MBL (Movimento Brasil Livre) e do “Revoltados on Line”, que posaram para fotos no gabinete de Cunha, com faixas alusivas ao combate à corrupção, também sumiram do mapa. Reportagem publicada na Folha, pelos  jornalistas Pedro Lopes e Vinícius Segalla, revelou que o Movimento Brasil Livre, liderado por Kim Kataguiri, recebeu apoio financeiro e material dos quatro principais partidos que se engajaram no impeachment da presidente Dilma Rousseff: PSDB, DEM, Solidariedade e, claro, o PMDB. Estes movimentos de direita chegaram a sair às ruas com as famosas faixas “somo um milhão de Cunhas”, incentivando o então presidente da Câmara a dar entrada no pedido de impeachment de Dilma.

Na hora da verdade, Cunha ficou só. Não foram ao seu socorro nem o MBL, nem o Revoltados on Line e nem os 225 parlamentares do Centrão, bloco formado por PP, PR, PSD, PTB, Pros, PSC, SD, PRB, PEN, PTN, PHS e PSL.  Assim como outros que estimularam traições, Eduardo Cunha foi traído pelos seus pares.  Na cassação de Dilma Rousseff (PT), ele mobilizou 363 votos contra a presidenta, que foi defendida por 137 parlamentares. Contra si, viu o que fazem as hienas, na selva, quando encontram um leão ferido: foi devorado sem clemência.

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