Política

Cadê o delegado Waldir Soares?

Redação DM

Publicado em 10 de janeiro de 2017 às 00:53 | Atualizado há 2 anos

O deputado Waldir Soares tomou chá de sumiço. O parlamentar goiano, que exige ser chamado de “Delegado Waldir”, foi um assíduo frequentador das redações dos jornais goianienses até os dias que antencederam as eleições municipais do ano passado. Depois das eleições, desapareceu de cena.

Bobagem ligar para o telefone celular dele. Uma voz, soando um tanto familiar – se é que me entendem – dirá que o demandante ligou para  a pessoa errada. No Facebook do deputado não há novidades. Apenas os votos protocolares de boas festas e postagens mais ou menos antigas em que o deputado debate seu projeto de lei que obriga os presos sentenciados a pagar suas despesas de carceragem.

Especula-se que Waldir talvez esteja viajando por aí, com a família, aproveitando o recesso parlamentar. Ele, afinal, gosta de viajar, de conhecer o mundo. O probema é que não se sabe quem, atualmente, lhe presta assessoria. Quem nos dá notícia do policial parlamentar?

Parece que Waldir ficou desapontado com o resultado eleitoral. Ele achava que iria vencer as eleições para prefeito. Cantou muita vitória antes do tempo. De fato, em determinados momentos ele chegou a liderar as pesquisas de intenção de voto. Isto aconteceu durante a fase de aposentadoria político-eleitoral de Iris Rezende Machado. Com Iris fora do páreo, o nome de Waldir disparou nas pesquisas. O voto irista foi todo para ele.

Ele alimentou o mesmo tipo de ilusão que, em 1990, custou muito caro ao então senador Iram Saraiva. Iris se movimentava para ser candidato a presidente da república. Durante todo esse tempo, o nome de Iram passou a liderar as pesquisas de intenção de voto. Era o voto irista sendo atraído pela candidatura de Iram. Quando Iris, perdendo a convenção nacional do PMDB para Ulysses Guimarães, regressou ao cerradão para tomar o PMDB goiano de assalto, e se lançar candiato a governador, a candidatura de Iram entrou em colapso. O fato dele ser o melhor, o mais preparado, o mais avançado de todos os candidatos daquele páreo, não impediu que ele chegasse melancolicamente ao final como ganhando apenas do candidato do PT, o dr. Waldir Camárcio. Mas, também, naquele tempo o PT entrava na disputa apena para marcar posição.

Quase todo mundo em Goiás caiu no logro da aposentadoria de Iris, exceto, modéstia à parte, este repórter, que comentou o assunto à época, afirmando que a anunciada aposentadoria de Iris não era para valer. Era apenas uma jogada de marketing, afinal vitoriosa.

Um mês depois da anunciada aposentadoria, Iris se desaposentou. Voltando do recesso, partiu com força total para a campanha eleitoral. A partir daí, a candidatura de Waldir foi murchando. Iris o ultrapassou como um foguete.

Mas sete não foi a questão. Qual o problema em ser derrotado nas urnas por Iris Rezende, ou por Marconi Perillo? Problema nenhum. Tomemos o caso de Lula. Perdeu três eleições seguidas para presidente da República até vencer na quarta tentativa. O próprio Iris foi três vezes batido por Marconi Perillo. Perder eleições é da contingência do esporte, como diriam os antigos comentaristas de futebol.

Perder é uma coisa. Ser derrotado é outra. Em certas circunstâncias, o candidato pode perder uma eleição mas sair dela vitorioso politicamente. Waldir teria sido vitorioso, do ponto de vista político, se tivesse ido para o segundo turno com Iris Rezende Machado. Waldir, contudo, não soube segurar a segunda colocação. Perdeu-a para Vanderlan Cardoso. Vanderlan, mesmo não vencendo, acabou se firmando como liderança emergente. Acumulou forças para novos embates eleitorais. Quando a era Iris passar, ele talvez se eleja prefeito de Goiânia com razoável facilidade. Só não será deputado estadual ou federal daqui a dois anos se não quiser. Se sismar de se candidatar a senador, tem boas possibilidades de vencer – se não fizer bobagem, é claro.

Vanderlan esteve a um passo de derrotart Iris no segundo turno da eleição passada. Mas fez uma bobagem. Iris o agrediu violentamente. Era uma provocação. Vanderlan, num ataque de infantilidade, mal asessorado, mordeu o anzol. Passou a revidar os ataques de Iris. Não percebeu que Iris foi assumindo o papel de vítima e Vanderlan, o de agressor. Vanderlan não tinha que bater boca com o Iris. Bastava perseverar na sua campanha propositiva, que vinha dando bons resultados.

Foi o que fez Darci Accorsi em 1985. Naquele ano, cinco candidatos se apresentaram. Daniel Antônio, pelo PMDB, era de longe o favorito. Darci Accorsi, do PT, nem era citado nas pesquisas espontâneas e marca traço nas estimuladas. Surpreendentemente, Darci chegou em segundo lugar. Teria vencido a eleição se, naquela época, tivéssemos segundo turno. Teria vencido se a eleição fosse adiada por mais um dia.

Como explicar o fenômeno Darci? É claro que o marketing criativo, revolucionário para a época, contribuiu muito para a subida meteórica do candidato petista. Mas o próprio marketing só funcionou porque estava dirigido por uma estratégia política inteligente. Darci sabia que não poderia bater Daniel Antônio. Percebeu, no entanto, que estabelecer hegemonia sobre a oposição ao irismo seria um objetivo importante. Concentrou-se nisso. Dedicou-se a deixar para trás Maria Valadão, Adair Lima e Valdir do Prado. Soube explorar os erros cometidos por Daniel.

Mesmo não ganhando em 1985, Darci pavimentou seu caminho para a Câmara dos Vereadores, depois para a Assembleia Legislativa, e depois para a própria Prefeitura de Goiânia. Abriu caminho para que Pedro Wilson e Paulo Garcia também chegassem lá. De 1985 a 2016, o PT foi a segunda maior força partidária em Goiânia. Perdeu a condição em virtude da derrocada nacional do PT e, também, em razão dos equívocos políticos de Paulo Garcia.

Chegando em segundo lugar em 2016, Waldir estaria se habilitando para se eleger prefeito em 2020. Mas o parlamentar policial, que nunca teve nenhuma experiência partidária, e que somente agora está adquirindo, na adversidade, alguma experiência política, não percebeu que perder para Iris em um segundo turno seria extremamente honroso. Seria uma vitória política.

Mas o delegado cometeu muitos erros estratégicos. Sua campanha foi toda errada. Seu marketing foi de ponta a ponta um equívoco só. Sua postura ideológica também o prejudicou. Ao votar pelo empeachment de Dilma, por exemplo, perdeu o voto do eleitor petista, que é pequeno, mas soma. Iris não teve este problema, pois não era congressista. Mesmo assim, evitou o quanto pôde o assunto. Waldir se desvaneceu com sua votação fenomenal para deputado federal, não conseguindo, porém, tansformar popularidade em liderança política. Até agora, ele é apenas uma celebridade das redes sociais. Falta muito para ser líder político.

Ter milhares de seguidores em redes sociais pode ajudar a eleger vereador e deputado. Mas para cargos executivos, o eleitorado ainda prefere os líderes. Liderança é algo que se conquista com olho no olho, compromisso, aperto de mão, presença física constante.

O eleitor goianiense não é de direita. Também não é de esquerda. É no centro que ele se concentra. Quem quiser se eleger prefeito de Goiânia, é para lá que deve se movimentar.

Tags

Leia também

Siga o Diário da Manhã no Google Notícias e fique sempre por dentro

edição
do dia

Impresso do dia