Política

“Capaz de tudo, Temer adota programa liberal-conservador de centro-direita”

Redação DM

Publicado em 22 de maio de 2016 às 01:38 | Atualizado há 2 anos

  • Doutor em História diz que nacional-estatismo vive crise aguda
  • Escritor afirma não compartilhar a ideia de que Lula está “acabado”
  • Ele crê que conceitos de Casa Grande e Senzala não explicam capitalismo atual
  • Professor analisa que PT necessita de ‘la cure d’opposition – a cura de oposição’

Doutor em História da Universidade Federal Fluminense [UFF], Daniel Aarão Reis Filho, do alto de sua experiência e de suas leituras e produções teóricas em seus longos e aventureiros 70 anos de vida, completados em janeiro de 2016, lembra que o ‘velho’ Getúlio Vargas, que suicidou-se em 24 de agosto de 1954, dizia que haviam dois tipos de políticos. Os incapazes e os capazes de tudo, recorda-se o professor. O autor de ‘A Revolução Faltou ao Encontro’ [1991, Brasiliense, CNPQ] e de ‘Luís Carlos Prestes – Um Revolucionário entre Dois Mundos’ [2014, Cia. das Letras] afirma que o presidente interino Michel Temer, classificado por ele como um político conservador, centrista e essencialmente oportunista, é capaz de tudo. O ex-‘carbonário’, capa preta da mais charmosa organização de luta armada contra a ditadura civil e militar no Brasil, o MR-8, relata que o PT precisa urgente de ‘la cure d’opposition – a cura de oposição’. Trocando em miúdos: reinventar-se fora do poder. Os franceses usam essa expressão, muito própria para o PT atual, observa. O PT, realmente, está precisando de uma ‘cura de oposição’, pontua. Nesta linha, considero que a perda de posições de poder, e do governo em particular, poderá ser positiva para o PT e para o próprio Lula, caso consigam se ‘reinventar’ e encontrar plataformas reformistas, que, embora sendo suas, foram abandonadas ao longo dos anos 1990, dispara.  Cáustico, ele sublinha, porém, que não existem identidades entre as crises e golpes em Honduras, 2009, Paraguai, 2012, e Brasil, 2016. Cenários diferentes, insiste. Não vejo identidades entre as crises hondurenha e paraguaia e o que está acontecendo hoje no Brasil, aponta. O que está havendo no Brasil, em termos políticos, é o acionar de um dispositivo constitucional – o impeachment – essencialmente antidemocrático e antipopular, registra. O triste é que as esquerdas – e o PT em particular – nunca se preocuparam em criticar e tentar revogar este dispositivo autoritário, ataca Daniel Aarão Reis Filho. Ao contrário, usaram e abusaram do mesmo, armadilhando-se, agora, ao sentir o veneno que usaram se voltar contra si mesmo, lamenta o pesquisador da história do golpe de 1964, das manifestações de 1968, das esquerdas revolucionárias e reformistas e dos socialismos, além de modernidades.

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Irônico, Daniel Aarão Reis Filho fuzila:

– O perfil do novo governo? Está na cara deles: um ministério das ‘elites brancas’.

 

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LEIA A ÍNTEGRA DA ENTREVISTA

Diário da Manhã – Mídia, coronéis, Congresso Nacional conservador e classes médias enfurecidas: o que há de 1954 e 1964 em 2016, no Brasil?

Daniel Aarão Reis Filho – É sempre possível efetuar comparações – contrastes e semelhanças – entre diferentes conjunturas. O exercício, caso seja bem feito, pode ser útil.  Penso, no entanto, que está havendo um exagero, uma distorção, nas comparações atuais que procuram encontrar identidades entre as crises de 1954 e 1964 e a atual. O procedimento me faz lembrar debates de história militar, onde é frequente certos estrategistas entrarem em “guerras futuras” com critérios da “guerra passada”…os resultados são sempre desastrosos. Quando os atores políticos equivocam-se de tempo histórico, o resultado não pode ser positivo, principalmente para os que se deixam armadilhar por estes equívocos. A atual crise é produto de uma nova conjuntura, original, derivada do sistema político construído pela Constituição de 1988 e pelas dificuldades, também originais, suscitadas pela reiteração da cultura política nacional-estatista pelos governos petistas (Lula e Dilma). Ver na atual crise uma repetição do que houve em 1954 e 1964 é demonstrar uma notável miopia política e, no mesmo movimento, incapacitar-se para agir e lidar com os desafios do atual momento.

 

DM – Honduras, 2009; Paraguai, 2012; Brasil, 2016: existem identidades?

Daniel Aarão Reis Filho – Sempre é possível comparar e extrair da comparação elementos úteis para a reflexão,  mas não vejo identidades entre as crises hondurenha e paraguaia e o que está acontecendo hoje no Brasil. O que está havendo no Brasil, em termos políticos, é o acionar de um dispositivo constitucional – o impeachment – essencialmente antidemocrático e antipopular. O triste é que as esquerdas – e o PT em particular – nunca se preocuparam em criticar e tentar revogar este dispositivo autoritário. Ao contrário, usaram e abusaram do mesmo, armadilhando-se, agora, ao sentir o veneno que usaram se voltar contra si mesmo.

 

DM – Gilberto Maringoni diz que a Venezuela é o próximo País latino-americano a sofrer um golpe constitucional. A análise procede?

Daniel Aarão Reis Filho – Escrevi há meses um texto, mostrando que a cultura política nacional-estatista na América Latina estava vivendo um período de crise aguda, literalmente jogada nas cordas, pois seus pressupostos e sua doutrina de conciliação de classes tinham entrado em crise. No contexto de crise econômica, os governos nacional-estatistas veem-se, como em conjunturas anteriores, emparedados pelas contradições sociais. Precisam optar – e definir – quem pagará a conta da crise. Entretanto, as lideranças nacional-estatistas, nestas situações, contorcem-se desesperadamente, pois suas propostas conciliatórias já não se sustentam mais. É muito impressionante como Dilma e seus partidários agarram-se aos argumentos jurídicos e tentam “resumir” a crise atual a interpretações jurídicas, esquecendo-se do óbvio – a crise é política, fruto de contradições políticas que se acirraram no contexto de uma profunda crise econômica. Evidenciar o caráter político da atual crise é mais do que muito importante, é essencial,  para superarmos a indigência do debate jurídico e da polarização – de um pobreza franciscana – entre golpe X não golpe.

 

DM – Qual o seu balanço da Era Lula, 2003-2006 e 2007-2010?

Daniel Aarão Reis Filho – A “era Lula”, que engloba os governos Dilma, sua criatura, ainda não terminou, embora o prestígio do criador esteja bastante abalado. Não compartilho, porém, a ideia de que “Lula está acabado”. Penso que amplas camadas populares continuarão associando Lula a um tempo de “ouro”, de prosperidade, distribuição de renda e prosperidade econômica. Quanto mais passar o tempo, e mais profunda a crise, mais esta associação tenderá a prevalecer. Na mesma linha, considero que a perda de posições de poder, e do governo em particular, poderá ser positiva para o PT e para o próprio Lula, caso consigam se “reinventar” e encontrar plataformas reformistas, que, embora sendo suas, foram abandonadas ao longo dos anos 1990.

 

DM – Analise o tempo presente de Dilma Rousseff – 2011-2016 e 2015-2016?

Daniel Aarão Reis Filho – Dilma teve muitas dificuldades de perceber a profundidade da crise econômica, extraindo dela propostas reformistas claras e favoráveis às camadas populares.  E cometeu um erro político maior na campanha de 2014: não apenas escondeu o tamanho da crise, enganando as gentes, como, depois, cometeu um estelionato eleitoral condenável, ao nomear como ministro da Fazenda um preposto do capital financeiro, o exato oposto do que havia defendido no curso da campanha, em especial no segundo turno. A manobra foi um desastre: perdeu suas bases populares, que ficaram perplexas e desorientadas, e não seduziu as elites sociais. Ficou isolada. No isolamento, potencializado por sua completa falta de vocação para a articulação política e para a formulação de um discurso congruente, acabou vendo liquefazer-se sua maioria parlamentar, permitindo que fosse acionada contra ela o dispositivo autoritário – mas constitucional e legal – do impeachment.

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DM – Paulo Henrique Amorim diz que MP, PF e magistratura são instrumentos da Casa Grande. Concordas?

Daniel Aarão Reis Filho – Não penso que a metáfora da “Casa Grande” aplica-se ao Brasil atual. O capitalismo neste país já alcançou níveis de complexidade que não mais podem ser expressos por esta metáfora, própria para períodos onde predominava aqui uma sociedade escravista e agrária. A metáfora pode ser útil para aquecer plateias em comícios políticos, mas é imprópria para dar conta da complexidade da sociedade capitalista brasileira atual. Da mesma forma, os aparelhos de Estado – como a Polícia Federal e o Ministério Público – não podem ser vistos como “instrumentos”, manipuláveis a seu bel prazer, pelas elites sociais. São instituições submetidas ao jogo contraditório das forças sociais e políticas. Basta ver como grandes burgueses e lideranças políticas, comumente arrolados como pertencentes à “Casa Grande”, estão hoje às voltas com processos, derrubados de seus postos (Cunha)ou mesmo presos (empreiteiros). A ideia de reduzir instituições a “instrumentos” é uma tosca reiteração de um certo leninismo que já era   questionado nos anos 1930-1940 (Gramsci). Reproduzi-lo agora para compreender a sociedade brasileira é de uma pobreza que só pode resultar em propostas equivocadas.

 

DM – Marcia Tiburi diz que o Brasil precisa, com urgência, da regulação da mídia. Procede?

Daniel Aarão Reis Filho – Concordo integralmente. Convém, no entanto, assinalar que tentativas feitas neste sentido por Franklin Martins foram abandonadas por orientação de Lula e não retomadas por Dilma. Uma evidência, mais uma, do caráter conciliador do nacional-estatismo.

 

DM – Em 1964 o senhor diz que houve uma estranha derrota, como em Paris ocupada em 1940. Em 2016 há resistência?

Daniel Aarão Reis Filho – March Bloch falou da “estranha derrota” da França em 1940. Retomei a caracterização para analisar a derrota de 1964. A conjuntura que vivemos hoje é inteiramente diferente. Do que se trata é esclarecer as contradições em jogo. Mostrar que a sociedade brasileira está diante do desafio, apontado pelas manifestações de 2013, de democratizar a democracia. Penso que se torna, cada vez mais difícil, reproduzir tranquilamente, na paz social,  os legados da ditadura, inscritos na Constituição de 1988.Nesta perspectiva, O mais urgente é definir plataformas de reforma para que as camadas populares possam ter um norte político claro. Insistir no debate sobre os aspectos jurídicos do impeachment é jogar areia nos olhos das gentes.

 

DM – Ao El País, Brasil, Daniel Aarão Reis Filho diz que o PT precisa se reinventar. Como?

Daniel Aarão Reis Filho – Esta é uma frase repetida por várias lideranças petistas. O próprio Lula, sempre sensível à realidade cambiante, já a empregou. Trata-se de recuperar a vocação reformista do PT, abandonada por Lula, Dirceu e Dilma, que preferiram ir para debaixo dos lençóis com o grande capital financeiro, com o agronegócio e com as grandes empreiteiras. Estou convencido de que “voltar à planície” será uma condição mais favorável para esta reinvenção do que ficar mantendo relações carnais com as elites sociais. Os franceses usam uma expressão muito própria para o PT atual: la cure d’opposition – a cura de oposição. O PT, realmente, está precisando de uma “cura de oposição”. A ver se suas lideranças conseguem aproveitá-la…

 

DM – É possível a formação de uma frente de esquerda que inclua PT, PC do B, PDT, PSOL, PCO, além de CUT, CTB, UNE, UBES, MST e MTST?

Daniel Aarão Reis Filho – Formá-la será um grande desafio. O eixo político definidor será uma plataforma de reformas políticas.

 

DM – Qual a sua caracterização de Michel Temer?

Daniel Aarão Reis Filho – Um político conservador, centrista, essencialmente oportunista. Getulio Vargas dizia que tinha dois tipos de ministros: “os incapazes e os capazes de tudo”. Eu diria que o Temer está na segunda categoria – ele é capaz de tudo.

 

DM – Qual a sua análise do programa Uma Ponte para o futuro, elaborado por Michel Temer?

Daniel Aarão Reis Filho – Um programa liberal-conservador de centro-direita. Seus autores precisam explicar como, tendo estas convicções, permaneceram tanto tempo debaixo dos lençóis com os petistas. Aliás, os petistas também precisam explicar às gentes como interpretam estas relações carnais.

 

DM – Qual a cara do Ministério de Michel Temer?

Daniel Aarão Reis Filho – Está na cara deles: um ministério das “elites brancas”.

 

“A cultura política nacional-estatista na América Latina está vivendo um período de crise aguda, literalmente jogada nas cordas, pois seus pressupostos e sua doutrina de conciliação de classes entraram em crise”

Daniel Aarão Reis Filho,historiador

 

“Um programa liberal-conservador de centro direita. Seus autores precisam explicar como, tendo estas convicções, permaneceram tanto tempo debaixo dos lençóis com os petistas. Aliás, os petistas também precisam explicar às gentes como interpretam estas relações carnais”

Daniel Aarão Reis Filho,historiador

PERFIL

Nome: Daniel Aarão Reis Filho

Idade: 70 anos

Formação: Graduação, mestrado em doutorado em História

Livros publicados: A Revolução Faltou ao Encontro; 1968 – A Paixão de Uma Utopia; Luís Carlos Prestes – Um Revolucionário Entre Dois Mundos; entre outras dezenas

Instituição: Universidade Federal Fluminense


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