CEI ouve vítimas de acidentes com fios soltos e aponta falhas na fiscalização em Goiânia
Léo Carvalho
Publicado em 19 de março de 2026 às 12:40 | Atualizado há 3 meses
Vítimas relatam acidentes causados por fios soltos e cobram responsabilização de empresas e do poder público | Foto: Diomício Gomes/João Reynol
A Comissão Especial de Inquérito (CEI) que investiga a instalação irregular de fios de telefonia, TV por assinatura e internet em postes de Goiânia ouviu, nesta terça-feira (17), vítimas de acidentes causados por cabeamento solto em vias públicas. Os depoimentos destacaram a gravidade do problema e a insegurança enfrentada por condutores, especialmente motociclistas.
Os relatos fazem referência a acidentes registrados na última segunda-feira (16), por volta das 13h, na Avenida Marechal Rondon, uma das principais ligações entre as regiões Central e Norte da capital. Na ocasião, cinco pessoas ficaram feridas após um fio de telefonia se enroscar na roda de um veículo, ser tensionado e atingir motociclistas que passavam pelo local.
Entre os feridos, uma passageira sofreu trauma em uma das pernas e na região próxima à bacia. Outras quatro vítimas apresentaram lesões como cortes no pescoço, queimaduras na área dos olhos e escoriações.
Vítimas dos fios
O engenheiro eletricista Ítalo Augusto Marques afirmou que não houve tempo de reação. Ele sofreu fratura no punho, queimadura de terceiro grau no braço e corte no pescoço. Segundo o relato, o fio se esticou repentinamente à frente dos veículos. Após o acidente, ele afirmou considerar abandonar o uso de motocicleta como meio de transporte.
O motociclista de aplicativo Rômulo Gomes Alves relatou queimaduras nas pálpebras e escoriações no rosto. Ele afirmou que o uso do capacete evitou lesões mais graves. Também apontou prejuízos financeiros devido a danos no veículo e à perda de um dia de trabalho.
A passageira Mara Núbia da Silva Pontes classificou o episódio como “um livramento”. Ela informou ter aguardado cerca de 40 minutos por socorro e relatou lesões no joelho. Segundo o depoimento, havia relatos no local de que o cabo solto já havia sido alvo de solicitações para retirada. Após o impacto, condutor e passageira foram arremessados para a contramão.
Outra vítima, Cléber Cleiton Braga da Cruz, sofreu queimadura no pescoço e afirmou que foi puxado para trás após o fio ser tensionado por um caminhão. Ele também relatou prejuízos materiais.
Falta de assistência
De forma unânime, os depoentes afirmaram não ter recebido assistência do poder público ou das empresas responsáveis pela fiação. Também destacaram a dificuldade em identificar a quem recorrer para atendimento médico e ressarcimento de danos.
Após ouvir os relatos, o presidente da CEI, Coronel Urzêda, orientou as vítimas a registrarem boletim de ocorrência e realizarem exame de corpo de delito, como forma de viabilizar a responsabilização dos envolvidos.
Durante a reunião, o secretário municipal de Eficiência, Fernando Peternella, informou que, enquanto a fiscalização esteve sob responsabilidade da pasta, foram aplicadas 331 multas a empresas de telefonia no último ano por irregularidades. Ele explicou que a atribuição foi transferida posteriormente à Agência Goiana de Regulação, após acordo com o Ministério Público.
Peternella apontou a falta de identificação dos cabos como um dos principais entraves para a fiscalização. Segundo ele, a ausência de etiquetas impede a notificação e aplicação de multas. Também mencionou a existência de um termo de cooperação com 27 empresas, das quais apenas três aderiram.
A vice-presidente da CEI, vereadora Daniela da Gilka, cobrou mecanismos mais eficazes de fiscalização e questionou a atuação de órgãos de defesa do consumidor diante da cobrança por serviços que podem estar operando de forma irregular. Ela destacou a ausência de ações preventivas e os riscos à população.
Enxugar gelo?
O relator da comissão, vereador Geverson Abel, afirmou que ações pontuais não resolvem o problema. Segundo ele, a retirada de fios não impede que novos cabos sejam instalados no dia seguinte. O parlamentar defendeu a responsabilização da concessionária de energia pelos postes utilizados pelas empresas de telecomunicações, além da co-responsabilização das operadoras.
A CEI deve propor medidas com caráter estrutural e educativo diante da ausência de fiscalização preventiva. Atualmente, segundo o relator, as ações ocorrem de forma pontual, a partir de denúncias, o que limita a efetividade.
Os depoimentos indicam que o problema é recorrente em diferentes pontos da cidade. Informações apresentadas durante a reunião apontaram ainda para outro acidente semelhante ocorrido cerca de uma hora antes, no mesmo local da Avenida Marechal Rondon.
Ao final da sessão, o presidente da comissão afirmou que a repetição de casos evidencia falhas na manutenção e fiscalização da rede de telecomunicações e reforçou a necessidade de medidas imediatas para evitar novos acidentes.
Em situações de risco envolvendo fios soltos, a orientação é manter distância e acionar a concessionária de energia pelo telefone 0800 062 0196 ou o Corpo de Bombeiros pelo número 193. (Com informações de Patrícia Drummond/Assessoria de Comunicação da Câmara Municipal de Goiânia)