Dias contados para o populismo
Redação DM
Publicado em 8 de dezembro de 2015 às 17:16 | Atualizado há 11 anosWelliton Carlos
Após décadas de sobrevivência e de interferências diretas na política, eis que uma morte muito esperada se anuncia: o populismo caminha cambaleante e pode sofrer uma queda brutal a qualquer momento. E a vala já está aberta.
A América Latina, terra onde nascem os populistas, começou uma varredura nos últimos dias. A própria derrota do candidato de Cristina Kirchner para presidente da República, Daniel Scioli, é o melhor exemplo. Ele perdeu para o prefeito de Buenos Aires, Maurício Macri, que sepulta de uma só vez 12 anos de uma política perniciosa e outros tantos do passado peronista – uma espécie de governo que anuncia ações sociais como se fosse um líder de programa de auditório e que trata a imprensa com ódio e contumaz tentativa de controle.
Conforme o professor de Ciências Políticas da Universidade de Brasília (UnB) Ricardo Caldas, o neopopulismo, uma releitura mais moderna das práticas populistas de meados do século passado, perde com a derrota dos políticos ligados ao presidente Nicolás Maduro.
Depois de 16 anos, a oposição venezuelana começa a apagar a imagem de Hugo Chavez e seus seguidores: ela conquistou 99 cadeiras de um total de 167 que compõem a Assembleia Nacional, quase o dobro do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), que teve 46.
Para Caldas, uma das características do modelo político venezuelano imposto pelo PSUV é o desrespeito ao orçamento e ao controle da inflação. “A tendência é o neopopulismo ceder para políticas econômicas mais responsáveis. Se o neopopulismo quiser sobreviver a longo prazo, vai ter que dialogar com políticas econômicas consistentes”.
O populismo é ruim por diversos motivos. Mas os maiores são as restrições às liberdades individuais e o encarecimento da máquina pública. Não bastasse a corrupção, o gestor populista cria programas sociais e anuncia direitos que o Estado não consegue arcar. O resultado é o aumento da tributação, a quebra da iniciativa privada, o inchaço do Estado e a ampliação de dependentes das políticas públicas.
É diferente de um governo social, que estabelece prioridades, explica o cientista político Luís Carlos do Prado, da PUC-GO. “O populismo é mais um estilo de comportamento. O político age de forma personalíssima. Ele diz que faz tudo pelo povo, para o povo e com o povo. Costuma justificar suas ações com discursos místicos, apresenta gestos messiânicos e faz com que as pessoas sejam todas niveladas como massa. O populista é um mágico: não o conhece, mas faz você se sentir especial”, diz.
Prado diz que a própria ditadura de 1964 em alguns momentos adotou características do populismo, como quando catalisou o nacionalismo e apoiou a seleção brasileira. “Ela chega no poder com uma justificativa: salvar o Brasil”, diz.
Uma das dinâmicas populistas é a justificação da vitória. O vencedor das eleições ou o ‘escolhido’ costuma ser diferenciado por ter sido ‘ungido’ por alguém mais acima do que ele – pode ser Deus ou um líder carismático. E não raro, o próprio candidato, que se investe de superpoderes e outras demagogias.
O político populista é raro. Mas quando surge é difícil que seja derrubado, pois costuma atrair grandes admiradores. Em Goiás, o maior exemplo, apontam os pesquisadores, foi Iris Rezende. O líder peemedebista é o único identificável dentre as grandes lideranças. Mesmo assim em um curto momento de sua carreira, quando assumiu o Governo de Goiás, em 1983. Após uma arrebatadora vitória, marcada com o político sendo carregado pelo povo, Iris surgiu como um ‘tocador de obras’. Era o realizador. Um homem forte e sem preguiça.
Ele deu lastro a um mito da política brasileira: de que teria realizado mil casas em um único dia. Pesquisa de mestrado realizada por Silvio de Freitas, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, revela que Iris construiu, sim, as mil casas, mas com um olho na população e o outro na autopromoção. E mais: não teria aprimorado o método, logo o deixando de lado.
AGRESSIVIDADE
Na ocasião, Iris respondeu às acusações de que era demagogo. Para o jornal “O Popular”, teria dito frases agressivas, com indiretas, comportamento típico dos políticos populistas: “Demagogia é para aqueles que não sabem madrugar, para os preguiçosos, para os parasitas, os vermes da sociedade que só querem viver às custas dos outros e nada oferecem”.
Hoje, após mais de três décadas, o modelo de construção de casas proposto por Iris Rezende não tornou-se modelo para ninguém. Os padrões rigorosos de fiscalização impedem que casas sejam construídas sem a infraestrutura básica. E seria impensável levantar mil residências em um único dia, apesar de toda imprensa da época ter acompanhado a performance irista a partir de um stand montado no campo de trabalho.
Apesar de ser eleito em 2004 como prefeito de Goiânia com os mesmos modelos de persuasão (Iris, na época, disse que asfaltaria todas as ruas de Goiânia e que acabaria com os problemas do trânsito da Capital), o líder peemedebista reduziu a carga populista de seus discursos, se aproximando mais dos políticos jovens que investem em um imagem de gestor competente.
Desde a década de 1990, Goiás optou pelo discurso racionalizador em detrimento da argumentação neopopulista. Nacionalmente, o político que mais se aproxima deste comportamento é Lula. Presidente por dois mandatos, o grande nome do PT não só encarnou o papel de político carismático, como criou um desafio nobre característico dos discursos populistas: acabar com a fome.
Rosa Maria Marques e Áquilas Mendes escreveram pesquisa em que atestam a construção do novo populismo por meio das práticas petistas. Professores da PUC-SP e FAAP-SP, os autores trabalham uma outra definição, que não é a baseada no aspecto de gastança orçamentária. Mas nas bases de sustentação: o termo populismo utilizado pelso autores se refere a “ação política que toma como referência e fonte de legitimidade o cidadão comum, cujos interesses pretende representar” ou “política fundada no aliciamento das classes sociais de menor poder aquisitivo”.
Fruto de ampla campanha publicitária que o reconstruiu para o grande eleitorado, Lula deixou no passado sua imagem de operário, com barba desgrenhada e barriga de fora, para se vestir em um modelito de terno e gravata. Ele mesmo reconhece: aprendeu, com dificuldades, a dizer não o que desejava, mas o que as pessoas gostariam de ouvir dele.
No filme “Entreatos”, documentário que relata sua primeira vitória para comandar a presidência da República, existem diálogos que mostram como foi possível construir o mito.
No poder, Lula fez uso de ações populistas, como a criação de programas considerados sociais, mas com características degeneradas. “O Bolsa Família é assim uma contradição: realmente ajuda as pessoas, garantido um direito. Mas não os liberta do Estado. O contrário, os aprisiona. O certo seria que existisse um programa que em um longo prazo possibilitasse ao cidadão conquistar emprego e renda por conta própria. Mas isso não tem acontecido em números”, diz Luís Carlos do Prado.