Política

Eleição em Goiânia confronta dois estilos de política

Redação DM

Publicado em 11 de julho de 2016 às 18:35 | Atualizado há 2 anos

A eleição para prefeito de Goiânia vai opor dois estilos diferentes de fazer política: o técnico e o populista.

De um lado estão o engenheiro Luiz Bittencourt (PTB) e o deputado federal Giuseppe Vecci (PSDB), que formulam discursos e projetos técnicos.

No outro extremo encontram-se Adriana Accorsi (PT) e Delegado Waldir (PR), que tentam seduzir o eleitorado com frases de efeito, promessas mirabolantes e – no caso de Adriana – tentativas de esconder o apoio de dois aliados indesejados: o prefeito Paulo Garcia e a ex-presidente Dilma.

Os pilares que sustentam as candidaturas de Bittencourt e Vecci são planejamento e responsabilidade na gestão de dinheiro público – itens que não constam nas cartilhas de propostas que fazem brilhar os olhos ou que tiram o fôlego do eleitor, mas que são indispensáveis às boas administrações.

A formação intelectual dos dois pré-candidatos justifica o perfil técnico dos seus discursos.

Bittencourt é engenheiro e estudioso das questões que afetam a vida nas grandes cidades. Vecci é economista e foi secretário estadual de Planejamento nos governos Henrique Santillo (1990) e Marconi Perillo (2011-2013).

Trocando em miúdos: eles levam a sério a ideia de que o improviso é o grande mal a ser eliminado da administração pública.

O conjunto de propostas que um e outro já apresentaram na largada desta disputa eleitoral sempre convergem para o conceito de gestão responsável. Bittencourt, por exemplo, propõe a extinção da frota de carros a serviço do primeiro escalão da prefeitura e condena o aumento de vagas para vereadores na Câmara Municipal. A justificativa nos dois casos foi a necessidade de se economizar em tempos de forte crise.

Na última semana, durante o primeiro debate entre pré-candidatos promovido pela rádio Sucesso, Delegado Waldir foi confrontado ao mostrar um discurso superficial.

Bittencourt apertou o rival ao exigir que Waldir desse respostas convincentes e técnicas para resolver o problema do transporte coletivo na Capital.

O deputado se sentiu desconfortável e, numa tentativa de fugir do confronto com Bittencourt, pediu respeito aos votos conquistados na eleição de 2014.

O populismo é um gênero que se alastrou pelo mundo entre as décadas de 1930 e 1960, especialmente na América Latina, e se caracteriza pelo esforço que determinado político demonstra para construir laços que não são racionais, mas emocionais, com a parcela mais pobre da população.

Este respaldo se constrói com discursos exacerbados, promessas vazias ou até com medidas que às vezes farão mal aos cofres públicos no médio e longo prazo, mas que têm o condão de garantir ao político um espaço entre os santos de barro no altar do eleitor.

Exemplos de políticos populistas famosos: Getúlio Vargas (Brasil), Juan e Evita Perón (Argentina), Hugo Chávez (Venezuela) e Alberto Fujimori (Peru).

Adversários argumentam que Waldir agiu de maneira populista ao prometer atacar o problema da Segurança Pública na campanha para deputado federal, em 2014.

Por dois motivos: o primeiro é que Segurança é assunto que compete, por lei, aos governos estaduais.

O segundo é o Congresso Nacional nada pode fazer para mitigar a violência nos grandes centros urbanos, porque cabe ao deputado federal legislar e fiscalizar os atos do presidente da República.

ADRIANA

O estilo de fazer política da deputada estadual Adriana Accorsi (PT) também é apontado pelos seus adversários como populista.

A começar pelo fato de que ela tenta esconder o fato de que é apoiada por Paulo Garcia.

Adriana evita comentar a administração do seu principal cabo eleitoral, demonstrando uma visão acrítica sobre o que acontece hoje em Goiânia. Adriana é criticada porque não discute os problemas da cidade e por passar a impressão de que desconhece os motivos que levaram Paulo a ser mal avaliado.

Sobre Adriana, também dizem que ela faz vistas grossas para os desvios éticos que resultaram no afastamento da presidente Dilma Rousseff, sua companheira de partido.

A deputada nunca se manifestou publicamente em repúdio ao mensalão, descoberto no governo Lula, ou – ainda pior – em repúdio ao petrolão.

Adversários cobram dela opinião sobre os desmandos dos ex-ministros José Dirceu e Paulo Bernardo e sobre os “pixulecos” administrados pelo ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto. Para adversários, o discurso de Adriana Accorsi não tem nada de racional e a pontuação dela nas pesquisas eleitorais deve-se apenas ao desejo dos aliados de manter os cargos na prefeitura.

PLACAR

Por enquanto, o estilo populista predomina sobre o perfil técnico.

Nas últimas pesquisas, realizadas antes da aposentadoria de Iris Rezende (PMDB), a liderança sempre era dele e de Waldir, empatados na casa dos 24%.

Bittencourt e Vecci estão na quarta e quinta posições, com menos de 5%.

Adriana oscila entre a terceira e quarta posições, com índices semelhantes ao do ex-prefeito de Senador Canedo Vanderlan Cardoso (PSB) – um político tradicional que é beneficiado pelo recall das campanhas para governador em 2010 e 2014.

 



O que é populismo

Populismo é um estilo de fazer política que ganhou força no mundo nas décadas de 1930 e 1940. Há nele ingredientes que remetem aos regimes ditatoriais da Alemanha (nazismo) e Itália (fascismo). Caracteriza-se pelo esforço de determinado político em construir laços emocionais – e nunca racionais – com a massa mais pobre da população. O discurso populista é normalmente permeado por bravatas e messianismo. Com o respaldo dos pobres, políticos que a História reconhece como populistas escondiam falhas e até desvios de corrupção de suas administrações. A classe média, mais crítica, acabava esmagada entre a mão forte do governo e o apoio dos pobres aos governantes.

 

Atrás da dupla Bittencourt-Vecci há outro político tradicional e que corre por fora na disputa: o deputado estadual Francisco Júnior (PSD).

O que faz dele um político tradicional é o fato de ele se escorar na Igreja Católica para construir carreira, enquanto os dois pré-candidatos tidos como técnicos evitam misturar política com religião. Francisco não chega a 3% das intenções de voto em nenhuma pesquisa até aqui realizada.

 

[box title=”Nos anos 1930, populismo ajudou a esconder arbitrariedades de Getúlio”]

 

O mais célebre político populista brasileiro foi o ex-presidente Getúlio Vargas, que na historiografia nacional foi epigrafado como o “Pai dos Pobres”. Getúlio foi o mentor da Constituição de 1937, a quarta da história do País e considerada um primor do populismo nacional.

É a primeira a fazer menção aos direitos dos trabalhadores, mas é também uma das mais autoritárias que já vigoraram no Brasil – atrás apenas da Constituição de 1967.

Em permanente crise com a classe média urbana, que o levou ao poder, Getúlio buscou nos pobres o respaldo que necessitava para se perpetuar no poder. Bebeu na mesma fonte onde bebeu o ex-presidente argentino Juan Perón: o fascismo europeu.

Em Getúlio há muitos traços que o aproximavam ao nazismo alemão, ao fascismo italiano e ao salazarismo português.

O principal deles era o desejo de manobrar massas de eleitores com chicanas de puro apelo emocional para fazer valer os seus interesses políticos.

O populismo no mundo entrou em decadência em 1945, com a derrota da Alemanha e da Itália na Segunda Guerra Mundial. No Brasil, a Constituição de 1937 foi inclusive substituída por outra, de clara inspiração liberal, em 1946. Entretanto, este modo de fazer política volta e meia reaparece com força na América Latina.

Os ex-presidentes Lula (Brasil), Hugo Chávez (Venezuela) e Rafael Correa (Equador) são exemplos disso.

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