Política

Estacionando na garagem, felicidade

Redação DM

Publicado em 5 de outubro de 2022 às 14:02 | Atualizado há 4 anos

Moro num prédio antigo e pequeno, somente 10 famílias. Algumas garagens são lado a lado e outras são de gaveta. Vizinho gentil emprestou a sua para que eu coloque meu carrinho, pois meu filho mudou-se para cá com seu veículo. Ela é a última do canto, com uma pilastra enorme. Bem estreita. Nunca consegui estacionar de ré numa manobra só. Preciso de duas. Todo dia tento. Eu rio de mim mesmo e fico muito satisfeito com o quase. Para sair de frente é milimetricamente, uma só.

Na sociedade atual, a felicidade é vista como um direito. Isso leva a mil frustrações. Se o vizinho é feliz com quatro ou cinco manobras, porque eu não o sou com somente duas? Por que incessantemente me comparo a outrem? Por ser um confucionista de formação, eu acredito na disciplina, perseverança, rigor e flexibilidade. Então ao conduzir o carro de ré eu o faço com muito esmero.

Mas não é só isso que me dá felicidade. O sentimento de justiça ao ver um alcoolizado ser condenado por um acidente de trânsito que o mesmo cometeu, me alivia. A honra de ter uma carteira de habilitação para carros e motos grandes, também é algo bacana. O trânsito hoje em dia reflete a sociedade. E pelo que vejo, nos falta humanidade. Sentimento de grupo, de dar passagem para quem tem pressa. Ter a gentileza de esperar o pedestre passar. A integridade de fazer direitinho as revisões do carro ou da moto e sair com eles bem regulados e corretos. Gosto também da fidelidade as marcas, ao posto onde abasteço, onde vou tento reconhecer o trabalho daqueles que me servem com tanto profissionalismo.

Já Platão se dirigisse teria um pensamento mais resumido. É feliz quem é honesto e bom, manobrando no trânsito seguindo as regras claras e conhecidas por todos. E é infeliz quem é desonesto e mau. Pronto. Esse último tem inclusiva a consciência do mal que pratica e, por isso, é infeliz. O sujeito ansioso que não consegue ficar parado no sinal fechado, que fica avançando. O que estaciona em vaga de deficientes. Ou então o que acelera e coloca o carro na vaga que você estava esperando e fazia sua baliza delicada e prudente. Reparem que o infrator está sempre de cara amarrada. Ele é um frustrado.

Aristóteles seria com certeza um motociclista, pois para ele a felicidade expressa o estado de plenitude do ser. Como andar de moto, por exemplo. Mas não é só o deslocamento. A contemplação, a busca pelo belo. O deslocamento racional e redondo. Sempre tentando buscar êxito naquilo em que se propõe. Isso não inclui o cachorro louco que sai costurando entre os carros, expondo-se ao perigo e também os outros. Há um equilíbrio entre as vias, uma proporcionalidade de espaços a fluir e principalmente uma justeza. Necessário querer menos velocidade e saber moderar para chegar ao destino.

Mas no trânsito louco e mal-educado que convivo diariamente em minha cidade, sou obrigado a citar Agripa. Um filósofo do trânsito menos conhecido, que viveu entre bigas e cavalos no final do século I. Olha só o que ele diz: dissensão, tudo é incerto ou tudo é opinião. Já perceberam que num acidente todos tem razão? Progressão infinita: toda prova precisa ser provada. O sujeito trafegando num veículo sem placa bate no carro de um amigo nosso e diz que como não tem registro não tem como multar… Relação: tudo depende do ponto de vista. Se furou o sinal amarelo e este estava amarelo o tempo todo, por que não parou? Suposição: tudo é hipotético, o médico com pressa para atender o paciente sai em alta velocidade e “fura” todos os sinais e é perseguido pela polícia até a Maternidade e o bebê nasce. Circularidade: a verdade gira em um círculo vicioso. Se minha carteira venceu ou eu mesmo não sou habilitado, como posso dirigir?

Felizmente para mim a felicidade é conduzir minha vida com manobras sutis. Sei que nunca conseguirei a baliza perfeita, a justiça no tratar com os que amo e prezo. Mas vou todo dia me aprimorando, achando graça do trânsito e pensando nos transeuntes. Pois se um dia eu estou de carro, outro estarei a pé. Por onde passo vou devagar e sempre. Cabeça a mil, carro e moto a dez.

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