Livro de Moro com críticas a Bolsonaro vira alvo do PT na disputa no Paraná
Fernando Henrique - Estágio DM
Publicado em 14 de julho de 2026 às 09:50 | Atualizado há 24 minutos
Sergio Moro durante evento público declarações registradas em livro lançado em 2021 voltam ao debate político durante a pré-campanha no Paraná | Foto: Sérgio Lima/Poder360
Agora pré-candidato ao Governo do Paraná pelo PL, Sergio Moro afirmou que o ex-presidente Jair Bolsonaro apoiou o desmonte do combate à corrupção para proteger o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Essa e outras críticas constam no livro “Contra o Sistema da Corrupção”, escrito pelo ex-juiz da Lava Jato.
A obra foi lançada em dezembro de 2021 como parte do projeto de candidatura presidencial de Moro, que acabou abortado meses depois. Após quase cinco anos, o livro sobre sua passagem pelo governo Bolsonaro será usado pelo PT para apontar o que o partido considera uma incoerência do senador paranaense.
Adversário do ex-magistrado na corrida pelo Governo do Paraná, Requião Filho (PDT) pretende resgatar os relatos no discurso de campanha. “Moro nunca teve coerência. Ele não faz o que fala e, agora, ficou ainda mais claro: sequer assina embaixo do que ele mesmo escreve”, disse à Folha.
O ex-juiz da Lava Jato abandonou a magistratura em 2018 para se tornar ministro da Justiça do então presidente, com quem rompeu em 2020, ao pedir demissão do governo.
Críticas de Moro ao governo Bolsonaro
Num trecho, Moro fala sobre o embate com Bolsonaro sobre o pacote anticrime. Quando o projeto foi aprovado pelo Congresso, parlamentares criaram a figura do juiz das garantias. O então ministro da Justiça queria que Bolsonaro vetasse, mas o presidente sancionou.
Moro escreveu que a sanção de Bolsonaro ao juiz das garantias desfez suas “ilusões quanto ao real compromisso dele com o combate ao crime e à corrupção”. O ex-juiz disse que “o compromisso do presidente com a agenda anticorrupção, ou mesmo com o combate ao crime em geral, não era dos mais firmes ou coerentes, para dizer o mínimo”.
Na época, o então presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Dias Toffoli, paralisou a apuração contra Flávio Bolsonaro no caso da rachadinha. A decisão suspendeu investigações criminais em todo o país baseadas em dados obtidos, sem autorização judicial, de órgãos de controle como o Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras).
Moro criticou o governo Bolsonaro por não ter agido contra a decisão de Toffoli. “Não se poderia admitir a destruição do sistema nacional de prevenção à lavagem de dinheiro com o propósito de salvar da lei o filho de alguém, mesmo sendo ele o filho do presidente da República”, escreveu.
Em outros trechos, Moro descreveu o alívio do governo com a medida: “A decisão favorável a [Fabrício] Queiroz e Flávio Bolsonaro, embora comemorada no Planalto, era temerária para o país. […] O Planalto também pressionou para que o presidente do Coaf fosse substituído, mas isso eu só soube tempos depois”.
O ex-juiz da Lava Jato ainda fez reclamações sobre o cancelamento da transferência de lideranças do PCC (Primeiro Comando da Capital) para presídios federais. A medida fazia parte do pacote do então ministro para desarticular as facções criminosas, mas foi cancelada.
PT critica e Moro defende aliança com o PL
“O bolsonarismo nunca combateu facções criminosas, e quem comprova isso é Sergio Moro”, disse o presidente do PT do Paraná, o deputado estadual Arilson Chiorato.
Questionado se mantém o que escreveu, Moro tratou as próprias palavras como fruto de divergências que “estão no passado”. Para o ex-juiz, a nova aliança com o bolsonarismo é válida para derrotar o presidente Lula (PT), por considerar que um novo governo petista aprofundará a crise da segurança.
“Em 2022, mesmo sem ter tido o apoio de Bolsonaro para a eleição ao Senado, aceitei o convite dele para acompanhá-lo nos debates presidenciais contra o Lula. Nos últimos quatro anos sempre estive com o PL na oposição ao governo Lula”, disse Moro em nota.
Ele completou: “Flávio Bolsonaro é o único candidato com condições de derrotar o projeto presidencial do PT. Mais quatro anos do PT nos levarão a uma crise fiscal, ao domínio do crime organizado e ao aprofundamento e disseminação da corrupção. O país não aguenta. Divergências do passado não impedem a construção do futuro”.
Flávio Bolsonaro já havia criticado Moro
Em um artigo na Folha de S.Paulo em 2022, Flávio Bolsonaro criticou Moro. O senador colocava na conta do ex-juiz a decisão do STF de soltar o presidente Lula.
“Era só Moro ter cumprido a lei que a Suprema Corte não seria obrigada a reconhecer seus abusos de autoridade e suas combinações nefastas e ilegais com integrantes do Ministério Público Federal e do Coaf, que levaram à anulação dos processos em que julgou Lula”, escreveu Flávio em fevereiro de 2022. (Augusto Tenório/FOLHAPRESS)