Lula derrota Bolsonaro em disputa acirrada ao Planalto
Redação DM
Publicado em 31 de outubro de 2022 às 15:30 | Atualizado há 4 anos
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT),
de 77 anos, foi eleito neste domingo, 30, presidente da República do Brasil
pela terceira vez. Lula derrotou nas urnas, pela margem mais apertada de votos
de uma disputa presidencial desde a redemocratização, o atual presidente Jair
Bolsonaro (PL). O petista obteve 59,5 milhões de votos
(50,83% do total), ante 57,6 milhões de votos recebidos pelo candidato à
reeleição (49,17% do total) com 98,56% das urnas apuradas. A chapa eleita – que
tem como vice o ex-governador paulista Geraldo
Alckmin (PSB), de 69 anos – vai assumir em 1º de janeiro
de 2023.
O
triunfo de Lula se deu em um cenário de forte divisão política da sociedade e
representou uma significativa recuperação pessoal. O petista passou um ano e
sete meses preso após ser condenado na Lava Jato por corrupção e lavagem de
dinheiro no processo do triplex do Guarujá (SP). O líder máximo do PT deixou a
cela especial da Polícia Federal em Curitiba em novembro de 2019. Em abril do
ano passado, o Supremo Tribunal Federal (STF) derrubou as condenações impostas
a ele pela operação, permitindo que Lula disputasse as eleições deste ano. Em
menos de quatro anos – próximo do período em que Bolsonaro exerceu o cargo de
presidente -, o petista, que teve a prisão decretada pelo então juiz e atual senador
eleito Sérgio Moro (em abril de 2018), passou da ruína ao auge político.
Nos
próximos 60 dias, o Brasil terá o desafio de fazer uma transição sem traumas,
com foco único e absoluto no interesse nacional. A travessia governamental está
regulamentada pela Lei 10.609 de 2002 e permite que o novo presidente convoque
uma equipe de até 50 pessoas para a ocupação de cargos especiais durante esse
período.
A Lula caberá a significativa tarefa de
conduzir o País a um processo de pacificação e retomada do desenvolvimento
social e econômico. O Brasil que será herdado pelo ex-presidente tem
características muito distintas do que ele assumiu há 20 anos, após vencer a
disputa de 2002.
O PT volta
ao poder central também sob a exigência de fazer um governo mais amplo e
negociar com um Legislativo ideologicamente mais hostil. Os partidos de
direita, com predomínio das legendas do Centrão, conquistaram a maioria das
cadeiras da Câmara e do Senado em disputa. Somente o PL, partido de Bolsonaro,
elegeu a maior bancada do Congresso. A sigla terá 99 deputados na Câmara a
partir de 2023. A federação formada por PT, PCdoB e PV ficou com 80 deputados.
O núcleo duro do Centrão, formado por PL, PP, Republicanos e União Brasil,
elegeu 246 deputados, o que representa 48% da Câmara. No Senado, a eleição
também foi marcada pela vitória de aliados de Bolsonaro e políticos associados
ao presidente. Os partidos de direita emplacaram 19 nomes.
É diante desse Congresso
mais à direita e com uma parcela mais radicalizada que Lula terá de governar. A
campanha petista não foi capaz, porém, de iluminar as pretensões de uma nova
gestão da legenda. Um plano detalhado de propostas ficou na promessa. Apenas
faltando três dias para a votação em segundo turno, a campanha do ex-presidente
divulgou uma carta aberta na qual promete combinar “política fiscal
responsável” com “responsabilidade social e desenvolvimento sustentável”. Um
documento considerado genérico e superficial pelos agentes econômicos.
Economistas liberais e
“pais” do Plano Real se somaram ao esforço pró-Lula no segundo turno: Pedro
Malan, Edmar Bacha, Arminio Fraga e Pérsio Arida declararam voto no petista,
assim como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e até o
ex-candidato à Presidência pelo Novo João Amoêdo. A frente pró-Lula na etapa
final da campanha, porém, não se formou em apoio à plataforma pouco detalhada
do petista ou à sua popular figura. Muitos de seus apoiadores notáveis
declararam voto crítico em uma união para derrotar Bolsonaro.
Petista fez acenos o centro e amplia leque de
apoiadores
Em busca da vitória,
Lula fez acenos ao centro e abriu o leque de apoiadores – que ele mesmo
classificou como uma grande “arca de noé”. Lula poderá abrigar no novo governo
ao menos os dez partidos de sua coligação, além de compor com aliados cruciais
do segundo turno, alas de siglas que ficaram dividas – como PSDB e MDB – e
setores da sociedade que se engajaram para derrotar o atual presidente.
O petista reacendeu ao
longo da campanha a suspeita de que, se eleito, investiria em um processo de
regulação da mídia. Em diversas oportunidades, Lula fez menções sobre a
necessidade de um novo marco regulatório contra o que chamou de “espoliação de
meia dúzia de famílias que mandam na comunicação brasileira”, à garantia do
“melhor direito de resposta”. O petista falou ainda em “convocar plenárias,
congressos, palestras” para a sociedade dizer “como tem que ser feito”,
afirmando que essa missão caberá ao Congresso Nacional.
Em seu retorno à arena
eleitoral, o líder petista se mostrou um político com núcleo duro mais restrito
do que nas campanhas passadas. Ele rejeita a tese de que é “um novo Lula” em
2022. Já disse em pronunciamento recente que “o filho da Dona Lindu” é o mesmo.
A condução de sua campanha, no entanto, evidenciou um Lula mais centralizador e
desconfiado.
Decisões triviais
passavam pela mesa do petista, que continua confiando no seu tino político a
ponto de, muitas vezes, ter dispensado as sugestões de seus conselheiros. Foi
assim no primeiro debate presidencial, ainda no primeiro turno, quando Lula
minimizou os recados para fazer uma preparação séria – e teve um desempenho
considerado frustrante. Apoiadora de Lula após o primeiro turno, a senadora
Simone Tebet (MDB) tornou-se a rara voz crítica na campanha petista, ao lado do
amigo de longa data do presidente eleito, Paulo Okamoto.
Lula mantém ao seu lado
aqueles que foram mais fiéis no período que passou na carceragem de Curitiba.
Estão nesta lista, por exemplo, a presidente nacional do PT, Gleisi Hoffmann,
os petistas Fernando Haddad (derrotado na disputa pelo governo de São Paulo),
Rui Falcão e Aloizio Mercadante. O círculo íntimo do presidente eleito passa
agora também pelos nomes que mantêm boa relação com a esposa de Lula, Rosângela
da Silva – a Janja -, como o advogado Marco Aurélio Carvalho e o deputado
estadual eleito Emídio de Souza. Janja teve protagonismo na campanha e é uma
das principais conselheiras de Lula.
Apesar da autoconfiança
que nutre sobre sua popularidade, Lula foi sendo convencido pouco a pouco da
viabilidade da sua candidatura, no início de 2021. Depois do período na prisão,
o petista receava as consequências de voltar à vida pública. A aliança com
Alckmin, que começou a ser construída nos primeiros meses de 2021, foi elemento
central neste processo. Por isso, pelo engajamento na campanha e pela
experiência, o ex-tucano tende a assumir uma vice com poderes turbinados.