Política

Lula é o 1º operário na Presidência a conquistar quarto mandato

Léo Carvalho

Publicado em 25 de outubro de 2026 às 21:31 | Atualizado há 50 minutos

Lula teve vitória no segundo turno projetada pelo Datafolha e se prepara para iniciar seu quarto mandato na Presidência | Foto: Ricardo Stuckert/PR
Lula teve vitória no segundo turno projetada pelo Datafolha e se prepara para iniciar seu quarto mandato na Presidência | Foto: Ricardo Stuckert/PR

Luiz Inácio Lula da Silva (PT) acrescentou um novo capítulo à sua trajetória política neste domingo (25). Após terminar o primeiro turno atrás de Flávio Bolsonaro (PL), o presidente virou o resultado durante a apuração e teve a vitória projetada pelo Datafolha, que apontou a impossibilidade de o adversário alcançar os votos necessários para ultrapassá-lo.

A projeção indica uma conquista inédita na história política brasileira. Lula será o primeiro presidente do país eleito quatro vezes, considerando os mandatos conquistados em 2002, 2006, 2022 e 2026. Se cumprir integralmente o novo período no Palácio do Planalto, o petista terá acumulado 16 anos na Presidência da República até 2030.

O resultado também amplia a trajetória de um político que chegou ao poder depois de uma carreira construída no movimento sindical, enfrentou três derrotas em disputas presidenciais e voltou à corrida eleitoral após passar 580 dias preso. As condenações que levaram à prisão foram anuladas pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Nascido em Garanhuns, no agreste pernambucano, Lula cresceu em uma família de trabalhadores rurais. Ainda criança, mudou-se com a mãe e os irmãos para São Paulo, em uma viagem de 13 dias em um caminhão pau de arara, para reencontrar o pai, que havia migrado em busca de trabalho.

A família enfrentou dificuldades financeiras. Na infância e na adolescência, Lula vendeu produtos nas ruas, trabalhou como auxiliar de tinturaria e exerceu outras atividades antes de conseguir emprego na indústria. Aos 15 anos, ingressou em um curso de torneiro mecânico no Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), formação que o levou ao setor metalúrgico.

A entrada no movimento sindical ocorreu no fim da década de 1960, quando passou a participar das atividades do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema. Em 1975, foi eleito presidente da entidade e ganhou projeção nacional ao liderar mobilizações de trabalhadores do ABC paulista durante a ditadura militar.

Em 1980, Lula foi preso com base na Lei de Segurança Nacional, em meio à repressão ao movimento sindical. Naquele mesmo ano, participou da fundação do Partido dos Trabalhadores (PT), criado a partir da articulação entre sindicalistas, movimentos sociais, setores progressistas da Igreja Católica e intelectuais.

A carreira eleitoral começou em 1982, quando disputou o governo de São Paulo e terminou em quarto lugar. Quatro anos depois, foi eleito deputado federal constituinte com 651,7 mil votos, tornando-se o mais votado do país naquele pleito.

A chegada à Presidência não ocorreu de imediato. Lula disputou o Palácio do Planalto pela primeira vez em 1989, quando perdeu o segundo turno para Fernando Collor de Mello. Em 1994 e 1998, foi derrotado por Fernando Henrique Cardoso ainda no primeiro turno.

A vitória veio em 2002, depois de uma mudança na estratégia eleitoral. A campanha ampliou alianças políticas, escolheu o empresário José Alencar como candidato a vice-presidente e apresentou a Carta ao Povo Brasileiro, documento no qual Lula assumiu compromissos relacionados ao respeito aos contratos e à condução da economia.

No segundo turno, venceu José Serra, do PSDB, com 52,8 milhões de votos, equivalentes a 61,3% dos votos válidos.

No primeiro governo, o combate à fome ganhou espaço entre as prioridades, com iniciativas que antecederam a consolidação do Bolsa Família. A gestão também manteve pilares da política econômica adotada no governo anterior, como metas de inflação, responsabilidade fiscal e câmbio flutuante.

O mandato foi marcado pelo escândalo do mensalão, que envolveu denúncias de compra de apoio parlamentar e levou à saída de José Dirceu da chefia da Casa Civil. Apesar da crise política, Lula recuperou popularidade e venceu a eleição de 2006 contra Geraldo Alckmin.

O segundo mandato registrou crescimento econômico, expansão de obras de infraestrutura e efeitos positivos da conjuntura internacional até a crise financeira de 2008. No fim do período, pesquisas do Datafolha e do Ibope apontavam aprovação superior a 80% ao governo, um dos maiores índices registrados por um presidente brasileiro.

Lula apoiou a candidatura de Dilma Rousseff, sua ministra da Casa Civil, eleita em 2010 e reeleita em 2014. O segundo mandato de Dilma foi interrompido pelo impeachment, em 2016, quando o vice-presidente Michel Temer assumiu o governo.

Após deixar a Presidência, Lula voltou ao centro da disputa política nacional com as investigações da Operação Lava Jato. Condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, foi preso em abril de 2018, quando liderava pesquisas de intenção de voto para a eleição presidencial daquele ano.

O petista permaneceu preso por 580 dias. Em 2019, deixou a prisão após decisão do STF que mudou o entendimento sobre o início do cumprimento de pena. Posteriormente, o Supremo anulou suas condenações, permitindo que recuperasse os direitos políticos.

Em 2022, Lula disputou novamente a Presidência e derrotou Jair Bolsonaro no segundo turno, por uma margem estreita. Foi a terceira vitória eleitoral do petista para o cargo, depois dos mandatos de 2003 a 2010.

No governo iniciado em 2023, a gestão priorizou a retomada de programas sociais e ações de combate à fome e à pobreza. Indicadores de renda e emprego também registraram avanços durante o período. Ao mesmo tempo, o governo enfrentou críticas relacionadas ao crescimento da dívida pública, ao nível dos juros e à condução das contas federais.

A administração também foi atingida pelo escândalo dos descontos associativos indevidos em benefícios de aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). As irregularidades atravessaram governos anteriores e foram alvo de investigação da Polícia Federal e da Controladoria-Geral da União. A repercussão levou à saída de Carlos Lupi do Ministério da Previdência.

Entre as medidas aprovadas durante o terceiro mandato está a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil mensais, uma das principais promessas econômicas da campanha de 2022.

Novo mandato e limite constitucional

Aos 80 anos, Lula completa 81 na terça-feira (27). Ao fim do mandato, em 2030, terá 85 anos. Pela Constituição, a reeleição consecutiva é permitida uma única vez, o que impede uma nova candidatura presidencial em 2030 após a vitória deste domingo.

A idade e o limite constitucional colocam a sucessão política no horizonte do PT e dos aliados do presidente. A definição de um nome para representar o campo governista em 2034, porém, dependerá das condições políticas e das decisões partidárias nos próximos anos.

Em termos de permanência no poder, Lula caminha para completar 16 anos como presidente eleito pelo voto popular. Getúlio Vargas governou por cerca de 18 anos e seis meses, somados os períodos de 1930 a 1945 e de 1951 a 1954. Parte desse tempo ocorreu sob regimes autoritários, antes de sua eleição direta em 1950.

A vitória projetada pelo Datafolha marca, portanto, um resultado singular na história eleitoral brasileira. A confirmação oficial depende da conclusão da totalização dos votos pela Justiça Eleitoral.


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