O amor, a ditadura e ‘três casamentos’
Redação DM
Publicado em 3 de novembro de 2015 às 18:05 | Atualizado há 1 anoPor Renato Dias
Três casamentos em datas distintas. Do mesmo casal. Mas os nomes não eram os mesmos. Essa é a história política de Isaura Lemos e Euler Ivo Vieira para fugir da repressão da ditadura civil e militar, instalada em abril de 1964 com a deposição de João Belchior Goulart,um nacional-estatista de linhagem trabalhista, nos ‘anos de chumbo’.Os dois integravam à época a Ação Popular [AP], organização de linhagem católica que abraçou o marxismo e o maoísmo. Depois, os revolucionários passaram a compor os quadros do Partido Comunista do Brasil [PC do B]. Um thriller político iniciado na guerra fria, que desenvolveu-se em duas décadas e que não terminou em morte e desaparecimento.
Nascida em Jundiaí com o nome de Maria Isaura Lemos, ela mudou-se para Campinas, São Paulo, e participou das revoltas estudantis de 1968. O seu batismo de fogo ocorreu nos protestos que se seguiram após a morte, com um tiro no peito, no Restau-ran¬te Calabouço, Rio de Janeiro, do estudante secundarista para-en¬se Edson Luís de Lima Souto, em 28 de março do ano que não terminou, como aponta o escritor Zuenir Ventura. Membro da Ju-ven¬tude Estudantil Católica, a JEC, recebera uma missão clan-destina. A de levar de Campinas cartas de um ativista polí¬ti¬co perse¬guido pela caserna para a sua família, que morava em Goiânia, onde Mauro Borges fora deposto e Iris Rezende, cassado.
Aos 18 anos de idade, a bela morena Isaura Lemos não era fichada pelos órgãos de segurança de informação. Fui de ônibus e retornei no mesmo dia, explica. Ela trouxe cartas para o ex-‘enragé’ da UBES [União Brasileira dos Estudantes Secundaris-tas]. Na volta, recepcionouainda, em Campinas, a irmã do atingido, Marina Vieira, que havia sido presa e barbaramente torturada. A AP fabricou passaportes, deu um banho de loja e embarcou-a para o Chile. Com a queda de Salvador Allende, o médico marxista, em 11 de setembro de 1973, Marina Vieira acabou presa no Estádio Nacional e sofreu ameaças com simulação de fuzilamento.
– Depois, ela conseguiu ir para a Argentina. Quando veio o golpe de Estado civil e militar em março de 1976, Marina Vieira recolheu-se à Embaixada da França e foi para Paris, onde mora até hoje.
Romance
Euler Ivo e Isaura Lemos começaram a namorar. Logo, logo o comunista precisou fazer um tratamento dentário. O dentista que entrou em ação atende pelo nome de Luiz Carlos Lemos, irmão de Isaura Lemos. Em 1974, os dois passaram a morar juntos. O casa¬mento ocorreu meses depois. Haroldo Lima e Bernardo Joffily eram contatos políticos do casal. A AP havia se incorporado ao PC do B, apesar da dissidência da Ação Popular – Marxista-Leni-nis¬ta [APML]. O farol não era mais a China, do timoneiro Mao-Tsé-tung, que morreria em 1976. A referência agora passara a ser a Albânia, pequeno e pobre país europeu, dirigido por HenverHodja.

Os dois resolveram se casar no cartório. Ela, com o nome verdadeiro, Maria Isaura Lemos. Euler Ivo, procurado pela repressão, adotou um codinome oficial: José Moreira Gomes. Mas para a família da noiva o seu nome era ‘Paulo’. Um padre esquerdista, Nadair, ministrou a celebração. Eles mudaram-se em seguida para o mato-grosso baiano, próximo ao município de Nossa Senhora do Livramento. Os três quadros da organização que lá realizavam trabalho político – Ronald Freitas, José Novaes e Marcos Panzera – já haviam deixado a região. Para garantir a segurança. Um novo destino aparecia à frente: Santos e Ilha Bela.
– Moramos na casa de um pescador…
O comitê central do PC do B, logo após a derrota da guerrilha do Araguaia, deflagrada no norte de Goiás, atual Estado do Tocantins, e sul do Pará, em 1972, que deixara um saldo de 61 mortos e desaparecidos em 1975, designou para Euler Ivo, Isaura Lemos e Ronald Freitas uma nova tarefa revolucionária: em Rio Branco, Acre. Para a construção da casa, o casal utilizou materiais da floresta amazônica. Em 1975, para dar uma fachada legal à atuação política, os dois promovem um novo casamento. Com documentos falsos, é claro. Ela com o nome de Ana Maria Salgado. Ele utilizou o de Pedro Afonso Paranhos. A união foi oficializada no cartório da cidade, conta, emocionada.
Rebento
A primeira filha do casal nasceu no ano de 1978. Para homenagear a guerrilheira que morrera no Araguaia, um cadáver ainda insepulto, a primogênita levou o nome de Helenira Tatiana Paranhos. Os capas pretas do partido determinaram a volta da família a São Paulo. Em Campinas, no ano de 1980, nasceu Maíra. O nome foi uma sugestão de Bernardo Joffily, que adorara o livro do antropólogo e ex-auxiliar de João Belchior Goulart, que mor¬re¬ra em dezembro de 1976, de forma suspeita. Por último, veio ao mundo a terceira filha, Júlia Lemos. Em 1982, o terceiro casa¬mento. Mas com os nomes verdadeiros, recorda-se Isaura Lemos.

Marília Cunha, amiga do casal, conseguiu uma certidão de óbito e uma guia de sepultamento de José Moreira Gomes, nome adotado por Euler Ivo, no primeiro casório, em Campinas. Os dois, enfim, celebraram a nova união. Helenira Tatiana troca de nome também. Ela passa a se chamar Helenira Tatiana Lemos Vieira. Lemos, de Maria Isaura. Vieira, de Euler Ivo. Apesar da ditadura civil e militar ter acabado oficialmente, em 1985, com a eleição de Tancredo Neves, no Colégio Eleitoral, e a posse de José Ribamar Sarney, em 1982 Euler Ivo é eleito vereador pelo Bloco Popular do PMDB, braço legal do ainda clandestino PC do B.

Atualidade
Isaura Lemos está, hoje, em seu quinto mandato de deputada estadual e preside o PC do B em Goiás. Euler Ivo é secretário de Formação Política da legenda da foice e do martelo. Helenira Tatiana, que usa o nome de Tatiana Lemos, é vereadora, em Goiânia, no exercício do segundo mandato. Maíra é cantora consagrada de música popular brasileira [MPB]. Já Julia Lemos é graduada em Jornalismo, com mestrado em Filosofia e doutorado com tese sobre o jovem Karl Marx, pela Universidade de São Paulo [USP]. Quase cinco décadas de lutas pelas liberdades,democracia e em defesa do socialismo, resume Isaura Lemos. Euler Ivo sorri.
Saiba mais
Cronologia
1948
Nasce Euler Ivo Vieira
1954
Nasce Maria Isaura Lemos
1964
Golpe de Estado civil e militar no Brasil.
1968
Em 28 de março morre Edson Luís de Lima Souto
1972
A AP é incorporada ao PC do B.
1974
Primeiro casamento de Euler Ivo e Isaura Lemos
1975
Segundo casamento de Euler Ivo e Isaura Lemos
1978
Nasce Helenira Tatiana
1980
Euler Ivo muda-se para Goiânia.
1982
O terceiro casamento, mas com nomes verdadeiros
1984
É derrotada a Emenda Dante de Oliveira
1985
Fim da ditadura e legalização do PC do B
1988
É promulgada a constituição cidadã
2015
Isaura Lemos é deputada estadual e presidente do PC do B
Fonte: PC do B de Goiás