O flerte da mudança política
Redação DM
Publicado em 24 de agosto de 2016 às 02:42 | Atualizado há 2 anosAliados garantem nos bastidores que renúncia de candidatos tornaria disputa menos traumática
O governador Marconi Perillo surpreendeu a comunidade política goiana quando semanas atrás deu um passo em direção ao seu maior adversário – o ex-governador, ex-senador e ex-ministro Iris Rezende. Notícia na imprensa, o fato esquentou e depois adormeceu.
Considerado o maior político vivo de Goiás, o líder peemedebista coincidentemente resolveu abraçar a disputa a prefeito de Goiânia. Ao contrário dos demais integrantes do PMDB, achou lisonjeira a atitude do governador. E disse que não enjeita nenhuma espécie de apoio.
Também deixou claro que “não fará política de ressentimento e retaliação”. Logo, o candidato não falará mal nem enfrentará os adversários com golpes, digamos, desleais. Parte do PMDB reagiu: chamaram a aproximação de esdrúxula. Já os tucanos usaram o silêncio para comunicar o desagrado com a aproximação.
Do outro lado, perplexos, jornalistas e políticos não entenderam os sinais marconistas. Mistura de estadista e homem político naturalmente apegado ao poder, Marconi sinalizou discursos que podem e devem ser interpretados para que ninguém seja surpreendido.
Em conversa com pessoas próximas de Iris e Marconi, a reportagem do DM teve uma surpresa: ao contrário do que se imagina, a “paixão” do marconismo pelo irismo ainda não se arrefeceu.
Conforme uma fonte palaciana, o primeiro discurso de Marconi é o de que seu grupo político se estagnou e precisa se recompor. Não ocorreu renovação e a base está à beira de um colapso com vários aliados que realizam pressão exógena. “O melhor caso é do secretário Vilmar Rocha, que deixou surgir uma dissidência na base”, diz um político próximo. A bomba da base está, portanto, agora nas mãos do PSD.
Ao fim de duas décadas no poder, Marconi não conseguiu formar lideranças confiáveis e que possam seguir seus passos. Os mais proeminentes se afastaram da base. E os mais próximos, como Giuseppe Vecci, não conseguiram ainda emplacar como lideranças de massas.
Em gestação, Marconi tem dois homens de confiança que podem ser o novo da política goiana: o senador e engenheiro civil Wilder Morais (PP) e o vice-governador e secretário de Segurança José Eliton (PSDB). Jovens e obstinados, os dois caminham em uníssono ao que estabelece Marconi, daí serem hoje essenciais nos planos da base.
Mas isso não significa que a base esteja segura. Agora mesmo, ela caminha espatifada para a disputa de outubro em Goiânia e várias outras cidades do Estado.
O segundo discurso possível de Marconi – conforme um deputado federal próximo da base – é que existe sim a possibilidade de mixagem de duas tradições políticas em Goiás: a do marconismo e irismo. Tal política “detox” criaria uma dieta tão diferente na base que uma nova ordem política se instituiria no Estado. Os indigestos deixariam o grupo. Restariam os leais ao marconismo e irismo. E deles surgiria uma nova política, ainda sequer rascunhada.
No centro deste debate está a sobrevivência política: o eleitorado sabe que a divisão governo e oposição acabou. Resta o poder. E saber dividi-lo é o segredo, ainda mais com múltiplas possibilidades de ação do Ministério Público. Logo, parcerias entre um eventual governador Marconi e Iris Rezende, caso eleito prefeito, não seria absurda – justamente a que não ocorreu entre Marconi e Paulo Garcia (PT), por afobamento ideológico.
Nos bastidores mais próximos do governo de Goiás não se descarta nem mesmo o apoio de Marconi a uma tentativa de Iris Rezende disputar as eleições de 2018, caso seja este seu interesse.
Assim, uma política pós-moderna e destradicionalizada caminha em marcha forte contra uma que representa o tradicionalismo – executada por lideranças como Ronaldo Caiado e grupos peemedebistas que tentam sufocar Iris e utilizá-lo apenas como espécie de totem da oposição.
Apesar de tabu, a teoria da dobradinha Iris-Marconi já não é impossível, segundo uma das fontes que falaram com o DM. Marconi tem interesses nacionais e, assim, deixaria o governo nas mãos de quem entende ser competente – o próprio adversário.
Em compensação, desejaria o apoio do peemedebista para seus voos nacionais – algo que falta em sua carreira política – já que Iris é ainda um veterano respeitado dentro do PMDB.
Este cenário de aproximação com adversários é um estilo inovador de Marconi, que fez laboratório destas ações inicialmente com Lula, depois com Maguito Vilela (prefeito de Aparecida de Goiânia) e posteriormente com Dilma Rousseff.
Configura-se em um ato político de estratégia e sabedoria administrativa. Ele tem feito isso ao longo dos últimos anos. Raptou do grupo adversário Thiago Peixoto, Frederico Jayme, Tayrone Di Martino e Francisco Júnior.
Na campanha de 2014, os fatos marcantes não eram o apoio dos tucanos ao governador. Antes disso, os eventos com valor-notícia saíram da cartola de Marconi, ao anunciar inexplicavelmente o apoio de petistas ao seu interesse em se reeleger pela quarta vez ao governo de Goiás.
Para quem observa de perto, as possibilidades são mínimas e as jogadas de Marconi já estariam anunciadas: uma candidatura ao Senado com algum dos aliados do lado. Mas o governador costuma surpreender.
