Proposta de frente de oposição divide mais do que une em Goiás
Redação DM
Publicado em 29 de julho de 2021 às 14:08 | Atualizado há 5 anos
A proposta do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de formação de uma frente de oposição para a disputa com o governador Ronaldo Caiado (DEM) às eleições de 2022 mais divide do que une, diante das divergências históricas entre PT, PSDB, PSD, PSB, PSL, Patriota e MDB.
Em entrevista à Rádio Difusora, terça-feira, 27, Lula disse que o PT ainda trabalha para definir como se posicionará na eleição estadual de 2022, mas que algo é certo: “Caiado (governador de Goiás) é o adversário principal”.
Segundo presidenciável, o objetivo do PT em Goiás é tentar juntar forças possíveis, de esquerda e de centro, para disputar as eleições contra o governador. O PT não consegue, desde 1982, lançar um candidato a governador com chances reais de vencer a disputa ao Palácio das Esmeraldas. Para 2022, os petistas não tem nome competitivo à sucessão estadual;
À exceção do ex-governador José Eliton, presidente do PSDB de Goiás e do deputado federal Elias Vaz, presidente estadual do PSB, nenhum outro dirigente partidário ou liderança expressiva da oposição saiu em defesa da proposta apresentada por Lula, de formação de uma frente de oposição ao governador Ronaldo Caiado.
“Eu defendo essa tese (união PSDB/PT) há muito tempo. Devemos ter a capacidade de dialogar com todas as forças políticas. Acho que o PT é um partido que tem pessoas importantes em Goiás, e é preciso ter condição de dialogar, o que não é necessariamente uma aliança”, afirmou José Eliton, em entrevista a O Popular, após acrescentar que apoiará Lula caso o segundo turno em 2022 seja entre Lula e Bolsonaro.
As divergências entre PT e partidos considerados de centro e de direita em Goiás são antigas e profundas, o que praticamente inviabiliza a sugestão do ex-presidente Lula.
Ainda é cedo
Para a presidente do PT no Estado, Kátia Maria, ainda é cedo para tentar analisar a proposta feita, por exemplo, do deputado federal Elias Vaz, presidente do PSB de Goiás, de lançamento da candidatura de Gustavo Mendanha (MDB) ao governo de Goiás por uma frente de oposição. “Mendanha precisa se desincompatibilizar da prefeitura de Aparecida de Goiânia e mudar de partido. Então, acho que qualquer discussão nesse sentido acaba sendo mais especulação”, afirmou Kátia Maria a O Popular.
Kátia Maria ressalta que, apesar de o PT priorizar a candidatura própria a governador, em 2022, interessa ao partido o diálogo com outras lideranças políticas no Estado. “O objetivo do PT, hoje, em Goiás, é construir um palanque forte para Lula, que já é pré-candidato a presidente da República”.
Fica no MDB
O deputado federal Elias Vaz diz que a conversa que teve com o prefeito Gustavo Mendanha ocorreu antes da carta dos 27 prefeitos emedebistas que defendem aliança do MDB com o governador Ronaldo Caiado e também antes da entrevista do ex-presidente Lula, que propõe formação de frente da esquerda e do centro em Goiás. Ele sustenta que, agora, Mendanha pode estar mais “suscetível” a mudar de partido. Segundo o parlamentar, pesquisas internas do PSB apontam que o Estado está dividido entre Lula e Bolsonaro e, com isso, um candidato pessebista ao Palácio das Esmeraldas poderia capitalizar.
Gustavo Mendanha, através de nota, diz que não vai deixar o MDB, apesar dos convites que tem recebido: “Estou satisfeito no MDB e acredito que, assim como em 2018, o MDB, após amplo debate interno, vai apresentar uma candidatura própria à sucessão estadual com condições de apresentar um projeto moderno e democrático para Goiás”.
O presidente estadual do MDB, Daniel Vilela atua para que o seu partido deixe o leque oposicionista para aliar-se ao DEM em apoio à reeleição do governador Ronaldo Caiado. Ele conta, já, com o respaldo de 27 prefeitos e do ex-prefeito e ex-governador Iris Rezende, além do senador Luiz do Carmo e dos deputados estaduais Bruno Peixoto, Humberto Aidar e Henrique Arantes.
“Água e vinho”
O ex-governador Marconi Perillo se negou a comentar a proposta feita por Lula de frente de oposição em Goiás para as eleições do ano que vem. Ao desautorizar o também ex-governador José Eliton, presidente estadual do PSDB, Perillo, em nota, disse que “PSDB e PT são como água e vinho, “não se misturam”.
Como se sabe, Marconi e Lula estão rompidos desde a instalação da CPI do Cachoeira, pelo Congresso, que atacou o ex-governador de Goiás e teve inspiração do Palácio do Planalto quando o petista era presidente.
Se depender de Perillo, o PSDB não fará aliança com o PT nem no primeiro turno nem no segundo turno na disputa ao governo do Estado. Os prefeitos tucanos manifestam preferência pela candidatura do governador Ronaldo Caiado à reeleição do que um nome da oposição, seja do PT ou de outra legenda.
As divergências de Marconi Perillo com Lula e com o ex-deputado federal Sandro Mabel se agravaram com o surgimento do chamado Mensalão em 2005 – compra de votos de parlamentares no Congresso em troca de vantagens financeiras e de cargos no governo petista. Perillo advertiu Lula sobre a existência o Mensalão e, em razão disso, o então presidente da República passou a ter o ex-governador como “inimigo político”.
Mabel também foi alvo de Perillo durante o Mensalão: o então governador de Goiás tornou pública a denúncia feita pela deputada federal Raquel Teixeira (PSDB), de o líder da bancada do PL fizera proposta de recebimento de dinheiro em troca de apoio ao governo.
Centro-direita não admite aliança com esquerda às eleições de 2022
Ex-deputado federal Vilmar Rocha, presidente estadual do PSD, reprova qualquer proposta de aliança com o PT, em razão das divergências ideológicas. Ele diz que o partido só vai tratar da sucessão estadual a partir de janeiro e não descarta aliança com o DEM do governador Ronaldo Caiado, como também não fecha portas para diálogo com a oposição centro/direita.
A meta do PSD, segundo Vilmar Rocha, é indicar candidato a vice-governador ou a senador. “Temos conversado com diversos partidos, pois queremos participação na chapa majoritária, mas as definições só correrão mais à frente”.
Sem diálogo
Alexandre Baldy, ex-ministro das Cidades no governo Michel Temer e presidente do Progressistas de Goiás, diz que o seu partido não quer aliança com o PT lulista nem no estado nem no país. Ele, que é pré-candidato ao Senado Federal, busca reaproximação com o governador Ronaldo Caiado visando aliança do Progressistas com o DEM às eleições do ano que vem.
Progressistas e PT não estarão no mesmo palanque nem na sucessão presidencial nem na sucessão estadual. Estaremos dialogando com outras forças políticas e vamos buscar o melhor caminho para o partido, tanto em Goiás quanto no país”, frisa Baldy.
Ideologia
O PSL, presidido em Goiás pelo deputado federal Delegado Waldir, deverá apoiar a reeleição do presidente Jair Bolsonaro, que se desfiliou da legenda em 2019. Partido assumidamente de direita, o PSL descarta qualquer aliança com o PT de Lula para 2022. “Não temos afinidade ideológica com o PT e, por isso, estaremos defendendo outra proposta administrativa para o país e para Goiás”.
O deputado federal Major Araújo, da “tropa de choque” do bolsonarismo na Câmara Federal, também filiado ao PSL, tem diferenças políticas e ideológicas com o PT. “As propostas do PT para o país são retrógradas”, resume.
“Meu inimigo”
O Patriota, presidido em Goiás por Jorcelino Braga, ex-secretário estadual da Fazenda no governo Alcides Rodrigues, pretende lançar o ex-prefeito de Trindade, Jânio Darrot, ao governo de Goiás e descarta qualquer aliança com o PSDB. “Marconi Perillo é meu inimigo pessoal, sem chances de diálogo”, dispara o dirigente.
Jânio Darrot chegou a renunciar à presidência da executiva estadual do PSDB, em janeiro último, após divergências com o ex-governador Marconi Perillo, que insistia em interferir na gestão do partido. Contrariado, Darrot desfiliou-se do PSDB e buscou abrigo no Patriota, de olho na sucessão estadual de 2022.