Redes sociais nos anos 80
Redação DM
Publicado em 2 de dezembro de 2021 às 14:57 | Atualizado há 5 anos
Nas
décadas de 80 e 90 também tínhamos nossas redes sociais. As mais conhecidas
eram os papéis de carta, os papéis com frases que enrolavam as balinhas e o
Caderno de perguntas e respostas. Não dependíamos da internet, o que tornava
essas redes mais democráticas.
O
Papel de carta, comprado em papelarias, não era barato. Mas o Caderno de
perguntas poderia ser um daqueles que ganhávamos na escola pública, usado, com
folhas sobrando. Quanto às balas, quase sempre que íamos até a venda comprar
algo para as mães, éramos autorizados a comprar algumas com as moedas do troco.
Embora nunca utilizados para cartas, os papéis
de carta eram febre na época; a finalidade era colecionar, apreciar e
trocá-los. Vinham com imagens coloridas variadas: corações, ursinhos, flores,
frutas, nuvens. Sensíveis e emotivos, alguns espalhavam cheiros de morango, tutti-frutti,
laranja. O público principal era o feminino, mas sempre havia um garoto que se encantava
com esses encartes, como eu, por exemplo; mas a regra era jamais assumir, já
que o machismo era ainda mais evidente.
Nas
tardes de sábado, sentados na área, na grama ou na calçada de alguma casa, nos
reuníamos. Dentro de pastas com plásticos transparentes, as meninas exibiam a
mais nova coleção. Elas apreciavam e trocavam os papeis umas com as outras.
Nós, meninos, não tínhamos Papel de carta; mas, no posto de críticos, opinávamos,
avaliávamos. Na verdade, o interesse mesmo não estava no objeto avaliado, mas
nas donas do objeto.
Na
tentativa de conquistar o crush, frases do tipo “Quer namorar comigo?”, “Essa
noite sonhei com você”, “Não tiro você da cabeça” estavam nos papéis das balas
da época. Na escola, nossos bolsos estavam cheios dessas balinhas. Ao receber,
abrir o papel interno da bala e ler a frase, ficava aquela dúvida: Seria uma
indireta? É mais do que amizade? Está pintando algo a mais?
Outras
frases eram mais ousadas, como “Vem me tirar da solidão”, “Quero te beijar”
“Manda bala nesse beijo”. Em resposta, recebíamos um sorriso tímido, ou carinhoso,
às vezes até malicioso, o que desconcertava qualquer um.
Antes
das balas, para um flerte, usávamos o Caderno de perguntas, o qual era entregue
para as “amigas” responderem. Sem dúvida, no momento, era a melhor maneira para
conhecer a fundo alguém. As perguntas variavam de caderno para caderno, de
acordo com a criatividade do dono. As mais básicas eram: Qual seu nome? Signo?
Melhor amigo? Filme? Do que mais gosta em você? Qual a sua maior qualidade e o
pior defeito?
Mas
as perguntas seguiam uma gradação, dos clichês para as mais apelativas,
íntimas, certeiras, do tipo: O que mais te atrai em uma pessoa? Com quanto anos
perdeu o B.V? Está gostando de alguém?
Ainda
havia aquelas perguntas picantes, com a opção de responder ou não. Algumas do
tipo: “Você é virgem?”, “Quem você gostaria de beijar?” No final, sempre
terminava com as clássicas: “Quem você levaria para uma ilha deserta?” E, por
fim, “Deixe uma mensagem para o dono do caderno”.
Tudo
isso nos ensina algo, a internet é deslumbrante, contagiante, é tecnologia
necessária, mas não faz o hoje melhor, mais saboroso do que o ontem. Assim como
também não podemos afirmar que o antes foi melhor do que o agora.
Cada
época tem seus encantos, sua magia. O segredo é viver melhor, como se cada
instante fosse o último. Como reflete Machado de Assis, em “Memórias Póstumas
de Brás Cubas”, “Matamos o tempo; o tempo nos enterra”.
A
propósito, aproveitando a situação, vou deixar aqui essas perguntas: Que livro levaria
para uma ilha deserta? O que achou desta crônica?