Tempos sombrios na Casa Branca com a ascensão de Donald Trump
Redação DM
Publicado em 11 de novembro de 2016 às 02:08 | Atualizado há 10 anos- Davi Maciel [UFG] crê em uma política interna ‘conservadora’ e hostil aos direitos humanos e ‘cesarismo’
- Romualdo Pessoa Campos Filho [UFG] aponta a grave crise econômica e a rejeição às políticas tradicionais
- Leonardo Attuch [Brasil247] acredita em possibilidade de redução de intervenção dos EUA na Síria e Iraque
– Anunciam-se tempos sombrios!
Essa é a previsão do doutor do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense [UFF], especialista em Contemporaneidade, Daniel Aarão Reis Filho, sobre a inesperada eleição de Donald Trump como 45ª presidente dos Estados Unidos. Donald Trump fez sua campanha como um outsider, observa. Ele comportava-se como um demagogo supostamente ‘sem compromissos’ com o sistema, permitindo-se, inclusive, ameaçar este sistema – nas primárias, ameaças de ruptura com o establishment republicano, explica o pesquisador. Nas eleições que agora se realizaram, ameaças de não reconhecer a legitimidade de uma eventual vitória de sua adversária, Hillary Clinton, aponta.
– Em grande medida, portanto, esta condição de outsider faz imprevisível seu exercício do poder.
O escritor analisa que, embora ele nitidamente se situe nos parâmetros de um ‘nacionalismo isolacionista’, uma coisa é um demagogo em “campanha”, outra é um presidente em exercício efetivo. Apesar de um presidente dos EUA possuir larga margem de poder, não se pode concluir daí que se trate de um autocrata – um conjunto de forças politicas e institucionais, e de interesses poderosos constituídos, circunscrevem e constrangem suas margens de manobra, dispara o analista da Geopolítica Mundial nos séculos XX e XXI. Daniel Aarão Reis Filho acredita também que, feitas estas ressalvas, considerando-se a sua trajetória e a campanha eleitoral, ‘anunciam-se tempos sombrios’.
O professor David Maciel, doutor do Departamento de História da Universidade Federal de Goiás, avalia que a ascensão meteórica de Donald Trump deve significar uma política interna – nos EUA – conservadora, hostil aos elementares direitos humanos, aos direitos das minorias, aos imigrantes e à conquistas civilizatórias como o aborto legal, o casamento homoafetivo, os direitos das mulheres e das minorias étnicas, sexuais e raciais. Ele representará um combate a uma perspectiva política laica e democrática, mobilizando os setores reacionários pautados pelo nacionalismo xenófobo, pelo fundamentalismo cristão, pelo obscurantismo cultural e pelo individualismo “pequeno-burguês”, frisa
– No plano político-partidário deve prevalecer uma perspectiva cesarista, que aprofundará a crise da democracia norte-americana e do próprio sistema de representação politica no país.
Intelectual marxista, David Maciel analisa ainda que, no plano externo, o ‘pato’ Donald Trump, agora eleito, deverá adotar uma postura mais autônoma diante dos aliados ocidentais em relação os interesses especificamente norte-americanos, com um verdadeiro curto-circuito na aliança atlântica e favorecendo iniciativas isoladas, aumentando o grau de instabilidade e imprevisibilidade nas relações internacionais. Segundo ele, o pós-Barack Obama pode ser da adoção de uma política econômica que procure ampliar o nível de emprego atraindo de volta empresas estadunidenses que se instalaram em outros países, o que implicará na oferta de benefícios fiscais e financiamentos.
– Donald Trump será uma incógnita!
É o que afirma o doutor em Geografia e especialista em Geopolítica Mundial, o historiador Romualdo Pessoa Campos Filho, docente da Universidade Federal de Goiás. Os cenários são múltiplos, pontua. O que esperar na política de alguém que assume a maior potência do planeta com um discurso que desconstrói a política?, pergunta o autor de ‘A Esquerda em Armas’. O que identifico nesse processo é a confirmação de uma crise econômica que não se encerra e que faz com que a população, principalmente a classe média, rejeite as políticas tradicionais, incapazes de solucionar os problemas que ela acarreta, dispara o pesquisador de linhagem marxista.
– Donald Trump é resultado desses tempos.
A questão é se ele fará o que disse, sublinha. Ou se o que disse fez somente parte de um ‘script’ criado por marqueteiros, analisa. Se cumprir o que prometeu haverá uma mudança substancial na Geopolítica Mundial, crê. O que ele prometeu foi recuperar a economia dos Estados Unidos com um choque econômico na economia doméstica, além de reduzir os gastos do país com a Otan, frisa. Isso implica em fragilizar as defesas europeias e, por conseguinte, empurrar países europeus para acordos e tratados com a Rússia, registra. O reflexo de sua eleição pode também ser determinante nos rumos da guerra tanto na destruída Síria e quanto no fragilizado Iraque, anota ele.
– Em relação ao Brasil não creio que tenha muitas alterações.
Diretor-editorial do site nacional www.brasil247.com e colunista da revista semanal IstoÉ, o jornalista Leonardo Attuch, diz ao Diário da Manhã, que se o 45º presidente eleito dos Estados Unidos for fiel a seu discurso de campanha, os EUA, após os dois mandatos do democrata Barack Obama, primeiro negro a comandar a Casa Branca, serão menos intervencionistas em regiões conflagradas, como a Síria e o Oriente Médio. O que será bom para o mundo como um todo, dispara o especialista em Política Internacional. O que se espera é que a partir de agora o mundo caminhe para uma nova ordem, multipolar, afirma ele, que denunciou o golpe contra Dilma Rousseff em 2016, no Brasil.
Contraponto
Contrariando análises e previsões de pesquisas, que apontavam para uma vitória, mesmo que apertada, da democrata Hillary Clinton, nas eleições presidenciais dos Estados Unidos, de 8 de novembro, o bilionário Donald J. Trump conseguiu a maioria dos colégios eleitorais e elegeu-se como o 45ª presidente americano, afirma o jornalista e especialista em Geopolítica Mundial Frederico Vitor de Oliveira. Donald Trump obteve a vitória com uma plataforma de campanha de tom agressivo e ape-lando para um sentimento patriótico norte-americano que implica no rebaixamento de minorias que vivem no país, em especial os imigrantes de origem latino-americana e muçulmanos, fuzila.
O magnata nova-iorquino, casado com uma supermodelo eslovena, 25 anos mais nova, prometeu ao longo de sua campanha presidencial gerar mais empregos, diminuir impostos, aumentar o padrão de vida da classe média americana, aviltada economicamente pela crise de 2008, e erguer um muro ao longo da fronteira com o México, em razão da crença de que a megaestrutura impediria a passagem de imigrantes ilegais e drogas para dentro do território americano, relata. Outra promessa polêmica do presidente eleito implica a revisão dos tratados internacionais, como o do Nafta (Acordo de Livre Comércio da América do Norte que congrega os Estados Unidos, Canadá e México) e os acordos econômicos bilaterais com a China e economias asiáticas, observa Frederico Vitor de Oliveira.
– Afinal, o que levaram os norte-americanos a votarem em massa em Donald Trump, um bilionário esnobe, bufão, que já disse frases de efeito carregadas de racismo, xenofobia e misoginia?
A resposta é simples: os americanos de classe média, em especial os brancos, anglo-saxões, protestantes e moradores dos Estados do Sul (que formavam os Estados Unidos Confederados, na Guerra Civil Americana, que devastou o país em 1861 a 1865) não se conformam viver uma nova realidade econômica e social do país, ou seja, após a crise de 2008, os empregos minguaram e os salários encolheram, afirma. Donald Trump é um homem midiático, frisa. Ele ganhou fama internacional ao apresentar um reality show televisivo em que demitia sumariamente candidatos que pleiteavam ganhar uma bolada em dinheiro e ser sócio do bilionário, conta. Esse sonho de glamour e fama que permeou corações e mentes americanos, metralha.
– A promessa de dias gloriosos, de voraz consumismo e elevação do padrão médio da vida convenceram eleitores descontentes com as consequências da crise de 2008.
Renato Dias, 49 anos de idade, é formado em Jornalismo pela Alfa, graduado em Sociologia pela Universidade Federal de Goiás, especialista em Políticas Públicas pela UFG e mestre em Direito, Relações Internacionais e Desenvolvimento [PUC-GO]. É autor dos seguintes livros: ‘Luta Armada/ALN – Molipo As Quatro Mortes de Maria Augusta Thomaz’; ‘O Menino que a Ditadura Matou – Luta Armada, VAR-Palmares e o desespero de uma mãe’; História – Para Além do Jornal – Um repórter exuma esqueletos da ditadura civil e militar; ‘Cuba, hoje – Uma revolução envelhecida ou a reinvenção do socialismo? O reatamento entre Havana e a Casa Branca’. Contato: [email protected]