Brasil

Comemorar ou não comemorar, eis a questão

Redação DM

Publicado em 30 de agosto de 2022 às 14:04 | Atualizado há 4 anos

As comemorações são fenômenos comuns nas sociedades contemporâneas. Grandes datas que, se deseja que tenham sentido na afirmação identitária de um povo, são normalmente celebradas em aniversários redondos. Os franceses comemoraram efusivamente o bicentenário da Revolução Francesa, em 1989, assim como os norte-americanos o bicentenário da independência em 1976.

Para nós, brasileiros, 2022, poderia ser uma data marcante. Neste ano emblemático, ocorre o bicentenário da Independência e o centenário da Semana de Arte Moderna — dois acontecimentos que, cada um a seu modo, corroboraram a edificação do Brasil. Concomitante ao bicentenário e centenário dos eventos citados, teremos eleições democráticas diretas para presidente da República, governadores, senadores, deputados federais e estaduais. Tudo isso poderia estar posto no mesmo palco: a comemoração de um povo que, dialogando com o que foi, por meio da democracia de hoje, almeja uma sociedade que seja razoável para todos os seus membros do ponto de vista social, econômico, político e ambiental.

Todavia não existe essa possibilidade. De antemão, porque não só a democracia está em risco como a qualidade dela no País é baixa. Segundo, porque para quem zela pelo meio ambiente, vivemos uma catástrofe.

Enquanto a União Europeia caminha em direção ao Green deal, um ambicioso pacto ecológico, nós, aqui na república, andamos no sentido oposto.  E isso num ano emblemático também em relação à crítica ao uso de agrotóxicos, pois que se comemoram os 60 anos da publicação do livro que se tornou o tomo desta: Silent spring (Primavera silenciosa). As denúncias apresentadas pela autora, Rachel Carson, mobilizaram as pautas dos movimentos ambientais e, também, as alterações na legislação ambiental estadunidense, provocando a proibição do DDT e outros agrotóxicos nocivos à vida. No Brasil, em 2009, o presidente Lula sancionou a lei proibindo o uso do DDT.

Por outro lado, distante do governo de Lula, o atual presidente, Jair Bolsonaro, optou por “ir passando a boiada”. A expressão, empregada pelo então ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, apontava para o caminho então trilhado: flexibilização de todo o regramento na área ambiental e, em relação aos agrotóxicos, além de facilidades para com o registro, marcava ainda a redução no controle, na inspeção e na fiscalização de seus usos. Segundo dados do próprio governo, no ano de 2021, foram aprovados 562 novos agrotóxicos, ou seja, aproximadamente 1 liberado a cada 16 horas.

Nesse cenário, seria bom ficarmos atentos ao Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos, entretanto houve o desmonte também dessa ação por parte do poder público: o último relatório divulgado pela Anvisa, referente ao ciclo 2017-2018, constatou que, do total de 4.616 amostras, 23% continham resíduos acima do limite permitido e 28% continham resíduos abaixo do limite. De toda forma, 51% dos alimentos analisados possuíam traços de algum ingrediente tóxico ativo. E, hoje, com a boiada passando, qual percentual dos nossos alimentos traria risco à saúde humana?

Estamos em 2022, e o que temos para comemorar é o que a banda Legião Urbana entoava em 1993, porém como se hoje fosse: “Comemorar a água podre e todos os impostos

Queimadas, mentiras e sequestros […] Vamos celebrar a aberração de toda a nossa falta de bom senso […]”.

Alguém se anima?

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