Brasil

Ela e eu

Redação DM

Publicado em 17 de agosto de 2022 às 12:41 | Atualizado há 4 anos

O dia ainda não ligou seus faróis solares e estou pronto para sair. Quem olha a minha garagem sabe pela discreta mancha no chão que as vezes ela chora de solidão. Se alguém disser que a minha moto vaza óleo, é porque não entende nada de Harley.

Seu barulho indefectível é um ronronar de grande leoa. O portão abre e saio, são 6hs da manhã. Uma vizinha outro dia reclamou que não me ouviu e perdeu a hora. Eu havia passado a noite fora na minha lida de acompanhar, assistir e receber. Parto.

A manhã que se inicia é cheia de promessas. Para mim, mais uma constatação de que o vento é importante, de que o ar frio da madrugada renova, a parada no sinaleiro (mesmo que não venha ninguém) conscienciosa e a batida da marcha lenta é uma das coisas mais belas que o universo dos motores a combustão já criou.

Claro que a minha moto é carburada. Obviamente que meus cabelos estão brancos e que também estou ficando careca. Ambos envelhecemos, dignos. E nenhum dos dois perdeu a pegada, o desejo de acelerar. Mas com a responsabilidade que os anos nos deram e que os tombos nos ensinaram.

No pequeno trecho que me leva aonde me exercito aquaticamente com os melhores nadadores que já conheci, traz revelações. Estou com ela desde 1998, nunca a deixei e nem ela a mim. Jamais houveram brigas e toda a vez que caí a culpa foi exclusivamente minha, reconheço. Assim como sei que qualquer veículo que tenha duas rodas, foi feito para cair. O segredo é saber onde e como. E evitar tragédias.

Minha primeira viagem foi logo ali. Brasília. Inesquecível. As grandes curvas de ângulo aberto, o cerrado se desfraldando, os caminhões com seu cheiro de diesel e as descargas de gás quente nas ultrapassagens. Nenhum carro consegue acompanhar uma moto. Seja pela melhor maneabilidade, como também a maneira de entrar e sair de curvas e a aceleração prodigiosa na subida. Tudo isso se chama torque, e a Nala tem muito.

Sim, caríssimos. Minha moto tem nome. Carlinhos sabe. Meu mecânico de décadas. Carlinhos é o anjo protetor dos cavalos de aço. Ele sabe a necessidade de trocar um óleo somente pelo gosto e viscosidade do mesmo. Carlinhos não só conhece, como entende e ama as motos. Com desvelo, paixão e imenso respeito. Mecânico raiz. Deita no chão, roupa rasgada, graxa nas unhas, visão microscópica dos defeitos, desde o leve espanar de um parafuso do descanso até a audição acurada do mais leve engasgo do motor. Carlinhos encara uma moto cross, uma estradeira, uma “jaspion” e outros seres híbridos agora na moda. Troca pneu, solda, desempena, ajusta e até se precisar, mexe na parte elétrica; que é a desgraceira de todo bom mecânico. E Nala é a sua queridinha. Fiel e constante. Como as grandes do seu tempo.

Já fui em encontros vários. Participei de moto clubes, naquela empolgação primária do neófito. Depois tornei-me um “easy rider”. Sozinho. Cabeça a mil e moto a vinte. Com ela rodei o Brasil todo que está abaixo do paralelo 15. Desde o montanhoso interior de Minas até a divisa da tríplice fronteira nas cataratas do Iguaçu. O mais perigoso de cada viagem sempre é a saída e a chegada, não o percurso em si. O Brasil ainda não tem tantas estradas seguras e bem cuidadas e nem uma educação de trânsito que me permita rodar tranquilo. Mas vou. Sempre nós três: eu, ela e Deus.

Amanhã irei trabalhar ou mesmo até essa noite posso ser chamado. Vou com ela. Não preciso correr. Moto em deslocamento urbano chega na frente. Nem precisa “costurar” ou “furar” sinal. Isso é coisa de cachorro louco, que morre cedo ou perde o gosto, ou a função de ser motoqueiro. Também não existe a diferença que alguns querem impingir entre motociclista e motoqueiro. Todos somos tudo. A diferença está entre quando você começou e quando você irá parar. Quanto maior o tempo de chão e estrada, maior a cumplicidade com a sua moto. E também a durabilidade. De ambos.

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