Medo, morte e pandemia
Redação DM
Publicado em 2 de outubro de 2020 às 20:54 | Atualizado há 2 anos
Os homens começam com medo, coitados, e terminam por fazer o que não presta, quase sem querer. É medo! (…) Medo de muitas coisas, do sofrimento, da solidão, e no fundo de tudo, medo da morte. (O Auto da Compadecida, Ariano Suassuna)
Geraldo Henrique Costa B de Almeida

Quando atingimos mais de 143 mil mortes pelo Corona Vírus no Brasil e concomitantemente vemos bares, boates, restaurantes e praias lotadas, uma pergunta salta aos olhos: Teria o brasileiro perdido o temor à morte? Refiro-me aquela inércia que estrutura a existência humana pela luta ou fuga. O medo como componente da experiência e da sobrevivência, em que a subjetividade orienta o comportamento do indivíduo a tomar decisões com prudência e que consiga manter o existir e postergar o fim. Logo, ao menos se espera, que o medo da morte seja inibidor de alguns comportamentos que coloquem em risco a existência. No entanto, em meio à pandemia, vê-se lutas políticas pelo direito a assumir o risco de morrer, abraçando a morte e tendo atitudes ativas de aceitação de um eventual falecimento.
Escrevo esse texto com objetivo de refletir quanto ao abandono do temor à morte, sem fazer juízo de valor, como quem reflete e à medida que reflete descreve um cenário. Como o narrador de um conto policial que na medida em que descreve a cena do crime, retira o véu sobre os pontos a que escolheu dar ênfase. Diferente de Freud ao responder a indagação de Einstein sobre “Por que a Guerra?” em que identifica que há dois grupos de instintos humanos, aqueles que tendem a preservar e aqueles que tendem a destruir e matar, e que tais instintos não se operam isoladamente, assim o instinto de autopreservação deve ter à sua disposição a agressividade, para atingir seu propósito. A aceitação da morte que identifico neste cenário pandêmico é diferente da guerra, há na pandemia uma busca pelo exercício da subjetividade independente do risco que isso tenha à própria existência, aceitando a morte como uma amiga.
Não obstante, uma objeção pertinente é se essa acolhida à morte é circunscrita à pandemia ou teria razão na experiência histórica. E, na verdade, o que se observa é que as pessoas aceitam correr o risco de contrair a doença, pois apreenderam ao longo dos anos a conviver com o medo e a insegurança. Segundo o pesquisador Renato Lima, no artigo “Segurança Pública como simulacro de democracia no Brasil”, o Brasil sozinho é responsável, em média, por 12% dos homicídios do mundo, sendo que possui apenas 3% da população. Assistimos desde 1980 um aumento de 20% na taxa de homicídios e convivemos com um patamar com cerca de 60 mil mortes violentas anuais, isso é o que vale a uma taxa anual de 28 mortes para cada 100 mil habitantes.
Não fosse isso, a violência é vista como uma resposta legitima ante a insegurança, em que pouco se faz para interditá-la, promovendo uma batalha simbólica pela legitimidade de matar em busca de proteção. Neste ciclo, a insegurança gera violência, que acaba por gerar mais insegurança, ficando o indivíduo à deriva. Deste modo, as balizas que delimitam o temor à morte tornam-se estreitas, pois aprendemos a conviver ao longo dos anos com a exposição, em que ou o indivíduo vive em meio aos altos riscos ou simplesmente não vive. A aceitação da morte e a busca pelo exercício da subjetividade independente das ameaças, ocorre porque a única existência possível para o ser é a existência permeada pela insegurança.
O falecimento que se tem medo é o óbito do ethos, da singularidade que circunscreve o ser, limitada pela insegurança social. É neste viés que damos interpretação ao texto de Ariano Suassuna que abriu esta reflexão. O brasileiro já começa com medo, pois já nasce em meio à insegurança e acaba por legitimar a violência em busca de salvaguarda. É medo! Em uma escala decrescente, temos medo primeiro do sofrimento, segundo da solidão e, no fundo de tudo, medo da morte. Com a leitura do povo brasileiro feito por Suassuna, podemos reler e entender que primeiro se tem medo das dores existenciais, o que para muitos pode ser simplesmente ficar em casa tendo o desprazer de conviver consigo mesmo. Medo de perder os amigos, pois para muitos o locus identitário é exterior ao indivíduo e, ao final, depois de tudo isso, é que se tem medo da morte, ojeriza não ao falecimento da arquitetura que integra o sujeito-objeto, mas pavor de existir em pequenez.
Por óbvio, caro leitor, que este texto não está defendendo a liberação indiscriminada de serviços não essenciais, apenas um tolo daria tal interpretação ao que foi dito acima. O que se pretendeu aqui foi diagnosticar e propor uma reflexão, visando compreender o porquê de tantas pessoas aceitarem a exposição ao vírus.
Geraldo Henrique Costa B de Almeida é acadêmico em Direito, 10º Período, pela Universidade Federal de Goiás e pesquisador bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
Os homens começam com medo, coitados, e terminam por fazer o que não presta, quase sem querer. É medo! (…) Medo de muitas coisas, do sofrimento, da solidão, e no fundo de tudo, medo da morte. (O Auto da Compadecida, Ariano Suassuna)
Geraldo Henrique Costa B de Almeida

Quando atingimos mais de 143 mil mortes pelo Corona Vírus no Brasil e concomitantemente vemos bares, boates, restaurantes e praias lotadas, uma pergunta salta aos olhos: Teria o brasileiro perdido o temor à morte? Refiro-me aquela inércia que estrutura a existência humana pela luta ou fuga. O medo como componente da experiência e da sobrevivência, em que a subjetividade orienta o comportamento do indivíduo a tomar decisões com prudência e que consiga manter o existir e postergar o fim. Logo, ao menos se espera, que o medo da morte seja inibidor de alguns comportamentos que coloquem em risco a existência. No entanto, em meio à pandemia, vê-se lutas políticas pelo direito a assumir o risco de morrer, abraçando a morte e tendo atitudes ativas de aceitação de um eventual falecimento.
Escrevo esse texto com objetivo de refletir quanto ao abandono do temor à morte, sem fazer juízo de valor, como quem reflete e à medida que reflete descreve um cenário. Como o narrador de um conto policial que na medida em que descreve a cena do crime, retira o véu sobre os pontos a que escolheu dar ênfase. Diferente de Freud ao responder a indagação de Einstein sobre “Por que a Guerra?” em que identifica que há dois grupos de instintos humanos, aqueles que tendem a preservar e aqueles que tendem a destruir e matar, e que tais instintos não se operam isoladamente, assim o instinto de autopreservação deve ter à sua disposição a agressividade, para atingir seu propósito. A aceitação da morte que identifico neste cenário pandêmico é diferente da guerra, há na pandemia uma busca pelo exercício da subjetividade independente do risco que isso tenha à própria existência, aceitando a morte como uma amiga.
Não obstante, uma objeção pertinente é se essa acolhida à morte é circunscrita à pandemia ou teria razão na experiência histórica. E, na verdade, o que se observa é que as pessoas aceitam correr o risco de contrair a doença, pois apreenderam ao longo dos anos a conviver com o medo e a insegurança. Segundo o pesquisador Renato Lima, no artigo “Segurança Pública como simulacro de democracia no Brasil”, o Brasil sozinho é responsável, em média, por 12% dos homicídios do mundo, sendo que possui apenas 3% da população. Assistimos desde 1980 um aumento de 20% na taxa de homicídios e convivemos com um patamar com cerca de 60 mil mortes violentas anuais, isso é o que vale a uma taxa anual de 28 mortes para cada 100 mil habitantes.
Não fosse isso, a violência é vista como uma resposta legitima ante a insegurança, em que pouco se faz para interditá-la, promovendo uma batalha simbólica pela legitimidade de matar em busca de proteção. Neste ciclo, a insegurança gera violência, que acaba por gerar mais insegurança, ficando o indivíduo à deriva. Deste modo, as balizas que delimitam o temor à morte tornam-se estreitas, pois aprendemos a conviver ao longo dos anos com a exposição, em que ou o indivíduo vive em meio aos altos riscos ou simplesmente não vive. A aceitação da morte e a busca pelo exercício da subjetividade independente das ameaças, ocorre porque a única existência possível para o ser é a existência permeada pela insegurança.
O falecimento que se tem medo é o óbito do ethos, da singularidade que circunscreve o ser, limitada pela insegurança social. É neste viés que damos interpretação ao texto de Ariano Suassuna que abriu esta reflexão. O brasileiro já começa com medo, pois já nasce em meio à insegurança e acaba por legitimar a violência em busca de salvaguarda. É medo! Em uma escala decrescente, temos medo primeiro do sofrimento, segundo da solidão e, no fundo de tudo, medo da morte. Com a leitura do povo brasileiro feito por Suassuna, podemos reler e entender que primeiro se tem medo das dores existenciais, o que para muitos pode ser simplesmente ficar em casa tendo o desprazer de conviver consigo mesmo. Medo de perder os amigos, pois para muitos o locus identitário é exterior ao indivíduo e, ao final, depois de tudo isso, é que se tem medo da morte, ojeriza não ao falecimento da arquitetura que integra o sujeito-objeto, mas pavor de existir em pequenez.
Por óbvio, caro leitor, que este texto não está defendendo a liberação indiscriminada de serviços não essenciais, apenas um tolo daria tal interpretação ao que foi dito acima. O que se pretendeu aqui foi diagnosticar e propor uma reflexão, visando compreender o porquê de tantas pessoas aceitarem a exposição ao vírus.
Geraldo Henrique Costa B de Almeida é acadêmico em Direito, 10º Período, pela Universidade Federal de Goiás e pesquisador bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico