“Defendemos uma OAB para todos os advogados e não para grupos”
Redação DM
Publicado em 26 de abril de 2018 às 03:35 | Atualizado há 8 anos
As eleições para a OAB-GO estão marcadas para novembro, mas já existe movimentação nos bastidores para a formação de grupos que pretendem disputar as eleições. O primeiro pré-candidato a aparecer nos debates entre advogados e mesmo na imprensa é Pedro Paulo de Medeiros, um dos mais respeitados advogados criminalistas do Brasil, frequentemente visto atuando em casos de repercussão nacional, sempre repercutidos pela imprensa. Pedro Paulo, para muitos conhecido apenas como Pepê, traz em sua carreira intensa atividade junto à Ordem, tendo ocupado relevantes cargos na OAB Estadual e Nacional.
Em visita ao Diário da Manhã, o advogado reafirma seu compromisso de participar de amplo movimento para tornar a Ordem mais efetiva e representativa. Para isso, articula de forma paralela – com a nova advocacia, profissionais estabelecidos e dissidentes da atual gestão que optaram por se afastar do comando da OAB –um movimento que pretende mudar a rota da Ordem dos Advogados.
Para ele, a atual gestão se concentra “em um grupo e esquece os demais advogados”. As críticas são pontuais, já que desde o início da conversa Pedro Paulo reafirma o interesse em realizar uma pré-campanha propositiva e que visa discutir saídas para a advocacia – profissão hoje banalizada frente aos inúmeros cursos de direito sem qualificação e que se dispõem mais a angariar dinheiro do que a transformar o direito em realidade.
Em contrapartida, a OAB é hoje uma das principais instituições do país, tendo pela frente a obrigação de defender os princípios democráticos e a cidadania. A Ordem goiana saiu da influência do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás nos anos 30 para a defesa da advocacia nas últimas três décadas.
O pai de Pedro Paulo – advogado criminalista Wanderley de Medeiros, que comandou a instituição em 1981 e 1982, falecido em 2006 – se mostra como um dos motivadores do filho a almejar a disputa. É dele a principal inspiração: resgatar uma OAB anterior à formação de grupos consolidados. Desde a gestão do ex-presidente Rômulo Gonçalves, passando pela gestão de Medeiros que a entidade se dispôs a, de fato, salvaguardar a advocacia. Em entrevista ao Diário da Manhã, ele conta um pouco de sua trajetória, de sua verdadeira paixão pela instituição, de suas decepções e, também, da esperança que o move por dias melhores. Garante que vai realizar uma campanha propositiva e honesta e planeja deixar sua marca na história da OAB-GO, como um presidente que efetivamente atendeu aos anseios das subseções do interior, dos advogados em início de carreira e das mulheres advogadas, dentre outros projetos prioritários.
CONFIRA A ÍNTEGRA DA ENTREVISTA
O que o motivou a se tornar pré-candidato à Presidência da OAB-GO?
Pedro Paulo de Medeiros– Acimadetudo, o idealismo. Nasci numa família de advogados. Minha mãe é advogada pública e meu pai, falecido em 2006, foi advogado criminalista, como eu. Meu pai era idealista também e eu cresci assistindo à sua luta classista. Não há como, nem porquê, negar que isso me inspirou profundamente, desde a infância. Nos anos 80, ele presidiu a OAB-GO por dois anos e, na época, chegou a ser ameaçado de prisão e a responder a processo, porque teve a coragem de criticar o Regime Militar ao afirmar que o STF era “um apêndice rançoso do Poder Executivo”. Essa coragem, a coragem de brigar pelo direito, pela advocacia, pelo que é certo enfim, me impressionava muito e foi o que me levou a me apaixonar por esse universo, estudar direito, seguir a carreira de advogado criminalista e a acompanhar, desde sempre, a OAB-GO. Sempre tive comigo que a Ordem é, e deve ser, uma instituição soberana, destemida, com forte influência sobre os rumos do País e, acima de tudo, ilibada.
Quando fala “desde sempre”, você se refere a que período da sua vida?
Pedro Paulo de Medeiros– Desde que me entendo por gente os assuntos “OAB”, “advocacia” e “direito” e muitas vezes “a falta de direito”, porque na ditadura militar essa era uma realidade mesmo eram tema de discussão frequentes na minha casa, em reuniões que meu pai organizava com amigos e colegas. Eu, ainda criança, ia para a sede da OAB-GO, que era na Avenida Goiás, e ficava ali fazendo campanha, pedindo voto ou para meu pai, ou para aqueles a quem ele apoiava. Eu me orgulhava disso. Me sentia fazendo parte de algo maior, algo que poderia mudar quer fosse o País, quer fosse a vida dos colegas do meu pai, advogados. Mais tarde, antes mesmo de me formar em Direito, na primeira oportunidade que tive entrei, sem hesitar, como estagiário na OAB-GO. Eu queria participar daquilo, fazer parte, trabalhar ali dentro. Então, esse “desde sempre” é desde sempre mesmo.
E essa admiração pela Ordem permanece?
Pedro Paulo de Medeiros– Gosto de história e a da Ordem é belíssima. Foi instituída no início dos anos 30, com a vocação para aprimorar o sistema jurídico, conquistar e manter as liberdades civis e defender os interesses da sociedade. Isso é absolutamente formidável. Desde então, a OAB ocupou posição de destaque nos grandes acontecimentos do País. Participou ativamente da elaboração da Constituição de 1934. Três anos depois, se posicionou com firmeza em defesa de presos da Lei de Segurança Nacional, criada por Getúlio Vargas, em 1935, e que culminaria no Estado Novo, em 1937, também arduamente combatido pela instituição. Durante a Segunda Guerra Mundial, por inúmeras vezes a OAB declarou seu apoio aos países aliados, se posicionando contra os nazistas. Durante o Regime Militar, um momento sombrio do País, em que praticamente todas as liberdades estavam cassadas, quando ninguém tinha voz, os advogados falavam e bradavam em defesa da democracia. Muitos pagaram caro por isso, alguns até com a própria vida, mas todos deixaram sua marca de luta e resistência na história. Muitos advogados e presidentes de seccionais da Ordem foram presos pelo exercício da profissão. A OAB condenou prisões políticas, denunciou abusos da polícia e invasões a universidades, assim como também se posicionou contra atos violentos como o sequestro do embaixador dos Estados Unidos, Charles Elbrick, capturado por grupos de oposição ao regime. Ao lado de outras instituições, a OAB lutou intensamente na Campanha das Diretas Já e também, notadamente, no Movimento pela Ética na Política, que culminou com o impeachment do então presidente Fernando Collor de Mello. Olha…Eu poderia passar um dia inteiro falando da história da Ordem…
E a OAB hoje, como você a vê?
Pedro Paulo de Medeiros– Vejo com preocupação, mas também com esperança. Com preocupação porque a instituição tem se omitido diante de uma série de descaminhos na vida judiciária, judicial, política e social do País. Em outras épocas, a OAB teria se levantado com vigor contra decisões judiciais que são frontalmente contrárias ao que determina a Constituição Federal, por exemplo. A Ordem, noutros tempos, zelaria com bravura pela preservação do estado democrático de direito. Não tenho visto isso.
O presidente anterior da OAB, antes da atual gestão, saiu do comando da instituição diretamente para o Governo de Goiás. Você acha correta a atitude dele?
Pedro Paulo de Medeiros – Foi uma decisão pessoal dele, da qual nenhuma outra pessoa participou. Institucionalmente analisando, foi equivocada a participação dele (Henrique Tibúrcio, secretário) no governo. A OAB deve ter relação harmônica com o governo, mas nunca participar dele. E muito menos servir de escada ou ponte para outros cargos ou funções fora dela, OAB. Temos que servir a OAB, e não ser por ela servidos.
Tem acompanhado a atual gestão da OAB-GO?
Pedro Paulo de Medeiros – Sempre. E com tristeza, porque se repete aqui o que temos visto em âmbito nacional: temor, omissão, letargia, vontadedeatenderaoanseiodaopinião pública do dia. Aliás, o que assistimos aqui é a uma omissão sem precedentes. Cito como exemplo, e sem conseguir esgotar a lista de absurdos, a situação nos presídios, a falta de segurança pública, a escalada absurda do feminicídio em Goiás, o desrespeito banalizado às prerrogativas da advocacia–o que muito me assusta porque essa foi a principal bandeira de campanha da atual gestão; a situação dos advogados do interior, cuja maioria vive da advocacia dativa e nunca sabe quando vai receber por seu trabalho; a recente posição do CNJ, de considerar que juiz não é obrigado a receber advogados em seus gabinetes, o absurdo que é o juiz não ser obrigado a residir na comarca pela qual responde. Tudo isso está acontecendo e o que a OAB-GO faz? Emite uma nota de repúdio em seu site e a conversa está encerrada. É aviltante. Não há vigor de atitudes nem respeito à história da Ordem. Muito menos ao advogado. E olha que estamos aqui falando do que ocorre na sociedade. Ainda nem citei o que ocorre dentro da OAB-GO, que é ainda mais chocante.
O que ocorre dentro da OAB-GO?
Pedro Paulo de Medeiros– O que dizer de uma gestão que perdeu seus principais líderes porque simplesmente rompeu com os ideais de campanha? Ora, volta e meia temos notícia de presidentes de comissões que renunciam ao cargo, sempre com a mesma justificativa: “a Presidência da OAB-GO nos enganou, não cumpre com a programação de campanha”. O que dizer de uma instituição que engana a própria advocacia, locupletando-se com dinheiro que o advogado pensa que está pagando para a Unimed, a ponto de a Unimed precisar publicar informe publicitário no maior jornal do Estado, para esclarecer que os valores cobrados pela Casag, para o plano de saúde, são maiores do que os que ela própria cobra? O que dizer de a OAB-GO passar a cobrar dos advogados pelos cursos da ESA justamente numa época em que a reciclagem se torna obrigatória, frente ao Novo Código Civil, à Reforma Trabalhista e Previdenciária? E o que dizer de uma gestão que destitui sumariamente membros de comissões, apenas porque esses ousaram discordar ou manifestar sua opinião contrária à da panelinha em grupos de whatsapp? Ah, isso não é brincadeira! Isso é grave, é sério! É uma postura autoritária, ditatorial dentro de uma instituição que deveria zelar pela democracia, pelo direito de todos se expressarem e serem respeitados em seus posicionamentos. É um contrassenso inadmissível.
A atual gestão não tem nenhum avanço para a categoria?
Pedro Paulo de Medeiros – Não que eu conheça ou que seja digno de nota.
Você disse que vê a OAB com preocupação, mas também com esperança. De onde vem a esperança?
Pedro Paulo de Medeiros– Vem da certeza de que a advocacia está vendo tudo isso, e não se deixará enganar de novo. O líder da atual gestão da OAB-GO é extremamente eloquente. Isso é bom para ele–e somente para ele–porque tem o dom de tornar crível tudo o que fala. Mas a palavra sem atitude é inócua. E o advogado vê isso. Porque, no final das contas, apesar de todo o blá blá blá, os advogados de verdade que, como eu, enfrentam audiências, prazos, corredores de fóruns, horas de esperas nas antessalas de gabinetes para ter 10 minutinhos de prosa com o juiz, sem se falar nos problemas e desgastes enfrentados pela advocacia em virtude da digitalização dos processos em Goiás, percebe que a OAB-GO não tem feito nada para tornar o dia-a-diadele minimamentemaisconfortável. É tudo marketing e algumas ações pontuais –como a inauguração de salas da OAB em alguns fóruns do interior e o repasse de R$ 50 mil àqueles que apoiarem politicamente a gestão –para fazer parecer que algo vem sendo feito. Mas o fato é que não há gestão. Há politicagem e marketing. Não há, por exemplo, uma discussão séria–diplomática, mas frontal–com o Judiciário, para fazer valer as prerrogativas da advocacia. Tenho viajado muito ao interior, e o que ouço é sempre o mesmo: “Queremos respeito”.
Como vocês se uniram?
Pedro Paulo de Medeiros– O que nos uniu –para muito além de toda e qualquer divergência –foi a indignação com o que tem se tornado a OAB-GO e a vontade de trabalhar. É tudo gente idealista, gente que não precisa usar a OAB-GO para se promover, gente que talvez não tenha a eloquência do atual presidente, mas que tem pulso firme, coragem, retidão. Somos muitos, e muito diferentes: há homens, mulheres, jovens advogados, militantes do interior, advogados privados e públicos, advogados bem posicionados e outros que ainda estão batalhando por melhores condições. Mas todos com o espírito voltado para uma OAB-GO que volte a gozar de respeito e credibilidade frente a sociedade, que trabalhe por e para o advogado.
Você já tem suas principais metas de gestão?
Pedro Paulo de Medeiros– Tenho algumas, mas não todas. Eu quis fazer diferente: em vez de chegar aos advogados com meus planos, optei por ouvir deles o que esperam para, a partir daí, elaborar um programa. Fiz isso porque, ora, se defendo uma OAB plural, essa pluralidade tem de vir desde seu nascedouro, desde o momento em que um plano de metas é traçado. Ele tem de ser traçado por várias mãos. Nas visitas que tenho feito, é comum ouvir dos colegas o quanto estão surpresos porque, segundo contam, é a primeira vez que um pré-candidato os procura para saber o que querem no programa de gestão, ao invés de já chegar com algo pronto. Isso me revela que estou no caminho certo. A OAB-GO que pretendo presidir não terá um dono. Terá um presidente que ouvirá seu Conselho Seccional e também a todo e qualquer advogado que quiser contribuir com ideias, sugestões e solicitações.
As subseções do interior reclamam da falta de estrutura. O que pretende fazer para reduzir essas reclamações?
PedroPaulodeMedeiros- Temos conversado muito com os advogados e os presidentes de subseções. Eles nos pedem uma regra objetiva de repasses, confiável, transparente e de prévio conhecimento de todos. Ou seja, querem saber como é que os recursos da OAB chegarão até eles. Hoje temos, na verdade, um critério subjetivo e que fica nas mãos do presidente da Seccional. E aí surge aquela situação: se você, da subseção, apoia politicamente o presidente da Seccional da OAB, você é seu amigo, ele faz o repasse para a subseção. E se você não é seu amigo, não o apoia em época de eleição, você não recebe o repasse. A atual diretoria tem feito isso: só faz o repasse ou só fornece um certo valor –tipo R$ 50 mil para reforma de sedes –se for apoiada politicamente. Não fazendo isso, você não vai receber. Criam-se empecilhos, subterfúgios, para que você não receba. Queremos criar critérios objetivos para que os repasses às subseções independam do presidente da OAB. E nós queremos discutir uma forma de autonomia para as subseções poderem se autodeterminar, senão integralmente, ao menos o mais próximo disso possível.
Os jovens reclamam muito da falta de amparo. Sentem-se objetos, literalmente um número na carteirinha da OAB.
Pedro Paulo de Medeiros – Para advocacia jovem queremos batalhar a aprovação do projeto de lei que incentiva a criação de um piso salarial destinado ao advogado, tal como ocorre já em outros Estados e no Distrito Federal. Queremos ampla campanha para que cada vez mais os escritórios possam ser respeitados quando exigirem o cumprimento da tabela mínima de honorários. Se todos a cumprirem, todos serão melhor remunerados. E desejamos criar um incentivo para que os escritórios mais antigos e experientes possam acolher os jovens advogados, ou aqueles em início de carreira. E com isso poderemos inseri-los e ensiná-los neste início de carreira. Temos ainda estudado formas de auxiliá-los quanto aos pagamentos das anuidades durante os primeiros anos de sua carreira profissional. Além disso, queremos fazer com que os cursos ministrados pela Escola Superior de Advocacia (ESA) voltem a ser gratuitos, como sempre foram, assim como os escritórios compartilhados.
Qual a questão mais sensível da advocacia goiana na atualidade?
Pedro Paulo de Medeiros – Temos que voltar a atenção para o advogado jovem, pois hoje ele compõe 60% da advocacia. Não digo necessariamente jovem de idade, mas jovem de cabeça, de inscrição, de atuação, de tempo de advocacia. Queremos saber o que podemos fazer para ajudá-lo e ajudá-la, a se estabilizar, se inserir no mercado de trabalho, enfim, atuar como advogada e advogado, concretizando o ideal maior da Ordem, que é dar voz e vez a todas e todos; mulheres, homens, jovens, senhoras, senhores.