Chorinho dia 16/02 sobre a visão de um jovem preto
Redação DM
Publicado em 26 de fevereiro de 2018 às 22:07 | Atualizado há 8 anos
O morro desceu, e eu estava lá a menos de 10 metros de onde os tiros aconteceram.
Gostaria de começar este escrito relembrando um trecho de uma musica do Emicida
“A violência se adapta e um dia ela volta pra você”.
Pois bem, vi por aqui várias manifestações em prol da cultura e do chorinho, que é um bem de consumo que funciona como forma de resistência e ocupação de uma rua centralizada na nossa capital.
Eu, enquanto consumidor desse bem de consumo e apoiador dessas ações de ocupação urbana pela cultura, compreendo tais manifestações. Porém também preciso pensar sobre a lógica que envolve todo o acontecido, talvez por ter vindo de um lugar onde a perspectiva de vida é diferente dos que tem fácil acesso à cultura e educação de qualidade.
Estávamos pedindo o Uber pra ir embora, depois de assistir os shows e até ter visto o Roberto (o moço que morreu na hora por bala perdida), que conheci como funcionário de uma padaria em frente ao mercado central que frequentei por um tempo com uma amiga. Lá ele compartilhou conosco um pouco da sua vida de uma forma singela e gentil que, para mim, caracterizou ali a importância de um afeto (sentir-se afetado pelo outro), mesmo que passageiro.
Quando olhamos para trás vimos uma fila de jovens com a mesma cor da minha pele, com vestimentas muito parecidas com as dos meus 27 primos, com a vontade de pertencer ao mundo e aos espaços públicos como qualquer um, porém com oportunidades um pouco diferentes das nossas (hoje tenho consciência que tenho oportunidades e privilégios que os meus iguais não tem e não tiveram).
Como já é de costume das pessoas quando veem jovens negros andando na rua em bando a noite se assustaram só com a chegada deles e começaram a se afastar de onde eles seguiam em fila. As imagens dessa galera andando em bando e em fila me trouxe imageticamente a visão da frase “o morro vai descer”, e desceu mesmo.
Quando eu e meus amigos começamos a nos afastar com medo do que pudesse acontecer, em menos de um minuto a confusão estava armada! Foi uma correria pra tentar se proteger e logo em seguida os barulhos de tiro. Foram muitos tiros e um pânico começou a tomar conta, porque as forças pra correr foram acabando e me perdi dos meus amigos na confusão. Corri sozinho até não aguentar mais, parei em frente ao Goiânia Ouro e uma moça me deixou entrar no prédio dela, sozinho e com medo consegui falar com um amigo meu que me encontrou e voltou comigo lá pra tentar achar o resto do pessoal que estava com a gente.
Três corpos no chão, bastante sangue uma galera em desespero. Os camelôs naturalmente ofereciam água e cerveja pro pessoal como se aqueles corpos estirados ali fosse cotidiano pra eles… Assim a aglomeração ia se formando ao redor dos três corpos. Na tentativa de achar uma amiga desci até a Goiás com a Anhanguera e lá tinha uma grande concentração desses jovens. Passou um ônibus onde entraram muitos deles e alguns colocaram seus corpos pretos pra fora da janela, imitando o formato de uma arma com a mão. Cantavam todos juntos uma música que não consegui identificar, mas quando ônibus passou do meu lado um desses meninos fazendo esse gesto da arma com a mão olhou pra mim e a parte da musica que ele cantava dizia algo do tipo: “O sistema é foda mas nóis mete o pé na porta pra mostra que nóis existe.”
Aquilo pra mim foi como uma cena de um filme acontecendo em câmera lenta. Ele passando cantando e me fazendo lembrar do tormento que sempre foi vestir preto todos os dias. Levou-me a algumas reflexões avessas de todas as que vi, ouvi e senti antes durante e depois. Uma das coisas que precisamos pensar é que a violência se adapta e um dia ela volta pra você (no caso, nós). E esse movimento está ligado ao fato de fazermos parte de uma parcela social que usa o tempo todo essa galera preta e pobre como estatística, matéria prima pra construção de nossa arte e objeto de estudo, quase sempre com visão colonizadora onde a troca, na maioria das vezes, não existe.
Lembro-me de um vídeo que circulou recentemente onde a atriz e performer Naruma Costa recita “Da Paz”, poema de Marcelino freire, um dos fragmentos do poema diz:
“A paz só aparece nessas horas.
Em que a guerra é transferida.
Viu? Agora é que a cidade se organiza.
Para salvar a pele de quem? A minha é que não é.”
O olhar do garoto que me confrontava de dentro do ônibus enquanto passava me dizia exatamente isso, “a minha que não é”.
Em uma comunidade onde não existe acesso a cultura o crime reina com sucesso. A partir daí podemos começar a pensar se o problema é só falta de segurança pública (a maioria dos manifestos que vi fazia essa afirmativa) e fiquei pensando: a polícia no local seria sinônimo de mais segurança? Se sim, segurança para quem? As experiências que tive até hoje com eventos de rua com cobertura policial não foram, para muito dos meus, sinal de segurança. Isso me preocupa um pouco.
Foi assustador ver um homem negro baleado com cinco tiros no chão e uma poça de sangue ao redor? Nem um pouco. Não que eu seja frio ou coisa parecida. Eu cresci com essa realidade no meu cotidiano. A primeira vez que vi uma pessoa ser morta a tiros eu deveria ter uns cinco anos de idade. Morávamos em uma casa de lona preta, lembro de ouvir um barulho tipo uma discussão e olhar no furo da lona, foi quando eu vi um cara atirar na cabeça do outro várias vezes. Desde então testemunhei vários acontecimentos do tipo. Teve uma época que isso não era exceção e sim regra, a gente até estranhava quando passava muito tempo sem ter acerto de contas na escola.
Então pra você que acha que isso é coisa de outro mundo ou que você nunca mais será a mesma pessoa depois de presenciar um assassinato, te digo que não é! É coisa desse mundo mesmo e acontece diariamente. Pode ficar despreocupado que milhares e milhares de pessoas passam por essa experiência todos os dias e estão ai firmes e fortes, muitas vezes ainda lavando os banheiros onde nós, que temos acesso à cidade e à cultura, usamos todos os dias.
Outra coisa que precisamos pensar também é que o acerto de contas não era entre uma gangue e outra, não era entre um time que não gostava do outro. O acerto de contas é contra um sistema que manipula uma parte dessa sociedade que vive na eminência de não existir. Ainda assim, nós que temos todo esse acesso preferimos nos posicionar em prol de uma produção de cultura centralizada e descartar o outro problema que é o fundamento de tudo e que diz respeito a tudo aquilo que vejo a grande esquerda de Goiânia lutar a favor.
Eu, homem preto, que por algum erro de percurso estou do lado de cá e não do lado desses jovens, penso que não enxergar isso só nos faz mais uma peça que alimenta esse sistema.
Precisamos sim discutir a segurança pública, a saúde preventiva, a educação, a formação dos sujeitos, a cultura e tudo que diz respeito ao que nos é garantido no art. 5 da constituição. Tentar justificar a violência vivida pelo outro a partir de uma experiência particular de cada um, não é nada mais nada menos que tentar justificar os lugares cruéis que são impostos aos corpos negros desde chegam ao mundo.
Lamento muito pelas duas mortes que ocorreram, e luto diariamente pelos meus. E, por mais que isso custe muito, fico cá eu pensando o que aconteceria se o morro descesse não só pro chorinho, mas pra todos os espaços “públicos” e construídos por eles. Eles descem pra existir da forma que eles são, da forma que cada um de nós contribuiu em suas construções como sujeitos.
Lembra quando racionais disse: o mundo é diferente da ponte pra cá ? Então… É mais ou menos por aí.
(Lucas Mendes, estudante)